A histórica vitória de Lula me fez pensar sobre nosso país e refletir sobre como presenciamos um raríssimo episódio da história do nosso país.
Darcy Ribeiro diz que “o Brasil sempre foi um moinho de gastar gente, moeu 6 milhões de indígenas e mais 12 milhões de africanos para produção de cana de açúcar para adoçar a boca de europeu”.
O Brasil não foi construído para si mesmo e para o povo brasileiro. O Brasil foi construído com objetivos externos, voltado para fora do país. É com a finalidade de fornecer matéria prima e recursos naturais para a Europa e o mercado mundial que é construída a sociedade brasileira.
No início foi açúcar, depois o algodão, a prata, o ouro, e hoje é a soja e o milho, além das terras raras. A mercadoria a ser fornecida ao mercado mundial muda, mas o sentido da colonização se mantém. Um país submisso e subordinado aos interesses do mercado mundial.
A estrutura de produção do Brasil colonial
E nessa colônia subordinada, a estrutura de produção é definitivamente o elemento central. O latifúndio, a monocultura, a exportação e o trabalho escravizado formaram e ainda formam a estrutura econômica brasileira. Ao invés de dividir as terras para muitos produtores, se concentraram todas as terras nas mãos de uma minoria ínfima, nas mãos das elites portuguesas. Ao invés de produzir diversos alimentos para alimentar o povo, se praticava monocultura de açúcar. Ao invés de produzir ao mercado interno, se produzia para exportar para a Europa. E ao invés de produtores associados ou de trabalhadores assalariados, a mão de obra era de africanos e indígenas escravizados e torturados.
Ou seja: um projeto de sociedade organizado contra os interesses do povo. Darcy chega a dizer que o povo brasileiro é um “subproduto indesejado de um empreendimento colonial”. Durante a extração de riqueza do Brasil para o mercado mundial, o africano, o indígena e os imigrantes pobres foram massacrados e moídos para a produção de açúcar, algodão, café, extração de prata e ouro. E no curso desse massacre e dessa exploração, foi se forjando um povo brasileiro, uma mistura de raças e culturas que formou um povo único no mundo: o povo brasileiro. Nunca antes na história houve um povo tão diverso e tão único.
As elites e seu medo da organização popular
Mas esse povo não surgiu de uma forma harmônica e consensual, como surgiu a população francesa ou a população alemã. Esses contingentes surgiram porque viviam em povoados próximos, falavam um idioma semelhante e compartilhavam da mesma crença. O povo brasileiro, não. Aqui o povo surge como um efeito colateral do processo de colonização. A colonização foi feita para produzir matérias primas nesse território e entregar ao mundo, e no curso desse processo é forjado o povo brasileiro.
Darcy comenta, logo nas primeiras páginas de sua obra prima “O povo brasileiro”, que as elites brasileiras vivem e sempre viveram com medo de que as classes oprimidas se organizassem e se levantassem para transformar a ordem social brasileira. Essa preocupação se assentava primeiro no medo da rebeldia dos escravos. Escravos de uma mesma etnia eram concentrados em lugares diferentes para evitar uma cooperação e insurreição.

Para neutralizar a capacidade de organização dos escravizados, a classe senhorial e os negociantes de escravos aplicavam uma tática de evitar a concentração de um grande grupo de pessoas vindas do mesmo porto ou da mesma região africana em uma única propriedade. Ao misturar indivíduos de línguas e costumes distintos, dificultava-se a comunicação fluida, o planejamento conspiratório e o estabelecimento de laços imediatos de solidariedade.
Projetos alternativos de sociedade
E todas as vezes em que o povo brasileiro buscou escapar do massacre e da opressão, buscando formas alternativas de sociedade, ele foi dizimado e destruído para manter e preservar o latifúndio, a monocultura, a exportação e o trabalho escravizado. Todos episódios da nossa história em que o povo buscou construir uma sociedade baseada na produção voltada a atender os interesses do próprio povo e não aos interesses de uma elite exploradora, nosso povo sangrou e foi liquidado.
“Os jesuítas criaram um desses raros modelos utópicos de reorganização intencional da vida social que efetivamente viabilizaram novas formas de existência humana. O modelo jesuítico buscava assegurar-lhe uma existência própria dentro de uma comunidade que existia para si, isto é, que se ocupava fundamentalmente de sua própria subsistência e desenvolvimento”. Mas o projeto jesuíta foi dizimado e os indígenas foram escravizados para produção de cana de açúcar.
No Quilombo de Palmares, negros fugidos dos engenhos de açúcar ou das vilas organizam-se para si mesmos, na forma de uma economia solidária e de uma sociedade igualitária. Mas também foram massacrados pela elite parasitária.
Quando finalmente o povo conquistou o direito ao voto, passou a se organizar, a protestar e reivindicar seus direitos inclusive elegeu um presidente da república, como foi João Goulart, a classe dominante se recusou a aceitar.
João Goulart, quando era ministro de Getúlio, dobrou o salário mínimo de 1200 cruzeiros para 2400 cruzeiros. Depois, como presidente, reconheceu o direito ao 13º salário e pautou fazer reformas na economia visando definitivamente arrancar o país da pobreza e melhorar a condição de vida do povo. Jango, como era apelidado o presidente, pautou reforma agrária, para enfrentar o latifúndio e entregar terras ao povo. Pautou reforma bancária, para que os bancos trabalhassem para o povo e não para endividar o povo. Pagou reforma urbana para reduzir o custo dos aluguéis.
E no fim, os militares marcharam até Brasília e derrubaram o Presidente, decretando um golpe de estado para impedir as reformas de base e preservar os interesses das elites. Darcy conclui que “nenhuma paz era possível entre quem lutava para refazer o mundo em nome dos valores mais sagrados e as forças armadas que cumpriam seu papel de manter esse mundo tal qual é”.
A vitória de Lula e a vitória do povo

E após todo esse rodeio de palavras e reflexões, voltamos a 2026, ano em que a família Bolsonaro chegou muito próximo de retornar ao poder. Flávio Bolsonaro é o símbolo máximo de uma elite parasitária e exploradora. Flávio nunca trabalhou na vida, nunca assinou uma carteira de trabalho, e como disse o presidente Lula: Flávio conhece ônibus por literatura, pois nunca pisou em um ônibus.
Enquanto Lula aprovou mais um dia de descanso remunerado ao trabalhador, Flávio buscava aprovar o pagamento de salário por hora trabalhada. Nesse modelo, em um dia o funcionário trabalha 10 horas e recebe 70 reais. No dia seguinte, devido ao baixo movimento na empresa, trabalha 02 horas e recebe 15 reais. No fim do mês não recebeu o suficiente para sequer pagar o aluguel. E o patrão evita gastos e aumenta seu lucro.
Após a vitória no primeiro turno, Flávio acreditou que o jogo estava ganho, afinal, nunca antes um presidente ficou em segundo lugar no primeiro turno e virou o jogo no segundo turno. Mas nunca antes na história um operário metalúrgico havia se tornado Presidente da República. Nunca antes uma pessoa pobre teve o direito a ingressar na universidade ou a ter uma moradia própria. Ou até mesmo a descansar dois dias na semana.
A virada histórica de Luiz Inácio é a vitória de um povo inteiro, cansado e oprimido, mas que não cansa de lutar. É um dos raros episódios em que o povo brasileiro saiu vitorioso. Ao contrário do massacre de Canudos, do massacre contra o Quilombo de Palmares, ao contrário do golpe militar de 31 de março de 1964, a virada de Lula é um episódio de festa dos explorados e oprimidos.
Finalizo resgatando uma linda frase de Darcy sobre o Brasil: Uma nova civilização, mestiça e tropical, orgulhosa de si mesma. Mais alegre, porque mais sofrida. Melhor, porque incorpora em si mais humanidades. Mais generosa, porque aberta à convivência com todas as raças e todas as culturas e porque assentada na mais bela e luminosa província da Terra.
* Thiago Palominio é estudante de Direito e criador de conteúdo sobre filosofia e política nas redes sociais.
** Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil do Fato.


