ANÁLISE

A vitória de Lula e o golpe Rockbridge

Conceito central do mecanismo Rockbrigde é o de 'alfa político': o poder que continua rendendo depois que a urna abre

O ministro do STF Flávio Dino
O ministro do STF Flávio Dino | Crédito: Marcelo Camargo/Agência Brasil

O ministro Flávio Dino do Supremo Tribunal Federal (STF), determinou nesta terça-feira (27), mesma data da fuga de Flávio Bolsonaro do país, que a Polícia Federal abra um inquérito para investigar uma possível interferência estrangeira nas eleições presidenciais de 2026.

A apuração terá como foco suspeitas de financiamento externo à campanha do trânsfuga Flávio Bolsonaro (PL), à publicidade eleitoral paga por agentes estrangeiros e possíveis manipulações de algoritmos nas redes sociais para favorecer ou prejudicar candidatos.

A decisão foi tomada no âmbito da Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental (ADPF) 1.178, após manifestações apresentadas pelo Partido dos Trabalhadores (PT) e denúncias levadas à Justiça Eleitoral pelo então candidato à Presidência Renan Santos, do Partido Missão.

A regulação das plataformas e as investigações da PF são terrenos onde a correlação de forças se materializa em disputas institucionais concretas – e onde o lobby das Big Techs e a geopolítica jogam um papel central.

O cenário regulatório brasileiro é marcado por uma contradição: o Judiciário avança, o Executivo tenta regular por decreto, mas o Legislativo permanece bloqueado pela pressão das mega empresas de tecnologia.

A principal proposta de regulação de conteúdo, o PL 2630/2020, está paralisado.

O texto foi aprovado pelo Senado, mas segue sem votação na Câmara dos Deputados desde 2024.

O lobby das Big Techs é apontado como decisivo para esse travamento, impedindo que o Brasil aprove uma lei abrangente sobre responsabilização de plataformas por conteúdo.

A avaliação de especialistas é que o Congresso atua, em parte, como caixa de ressonância dos interesses das empresas estadunidenses, usando o mesmo vocabulário delas para bloquear a urgente regulação doméstica.

Diante do impasse sobre conteúdo, o governo direcionou esforços para uma abordagem econômica e concorrencial. O PL 4.675/2025, que estabelece regras de concorrência para plataformas digitais, tramita em regime de urgência na Câmara.

O relator, deputado Aliel Machado (PV-PR), apresentou parecer que reduziu obrigações para as plataformas: a designação como “agente econômico de relevância sistêmica” não implica automaticamente em obrigações especiais, e a exigência de submissão de operações ao Cade foi transformada em simples notificação informativa.

A avaliação do governo é que o lobby das Big Techs e a pressão dos EUA reduziram significativamente as chances de votação antes das eleições de outubro. Hoje, o tema volta a ser examinado. 

Como o Legislativo não avança, outros poderes ocuparam o espaço.

Os decretos 12.975 e 12.976, de maio de 2026, impuseram regras mais rígidas às plataformas, incluindo remoção de conteúdos criminosos e exigência de representantes legais no país.

A reação foi imediata: em menos de duas semanas, ao menos 25 projetos foram apresentados no Congresso para derrubar os decretos.

Em junho de 2026, o Supremo invalidou parte do artigo 19 do Marco Civil da Internet e estabeleceu que as plataformas têm 60 dias para implementar medidas estruturais de “dever de cuidado”, podendo ser responsabilizadas por falha sistêmica na prevenção de crimes graves.

A Justiça Eleitoral atuou diretamente no último pleito. O TSE formou maioria para proibir a Meta de restringir de forma desigual a distribuição de postagens de Lula e Flávio Bolsonaro, com multa diária de R$ 500 mil em caso de descumprimento.

O MP Eleitoral também recomendou às plataformas a rotulagem de conteúdos gerados por IA, o bloqueio de impulsionamento de publicações ilícitas e a exclusão de perfis associados à violência política.

A pressão não é apenas corporativa. O governo Trump incluiu a “proteção” das Big Techs como condição para negociar as tarifas de 50% sobre produtos brasileiros, alegando que o Brasil estaria “censurando plataformas digitais”.

A simetria é reveladora: o Congresso americano usa o vocabulário das empresas para pressionar o Brasil, e parte do Congresso brasileiro usa o mesmo vocabulário para bloquear a regulação doméstica.

Investigações da PF

Com a atual decisão do ministro Dino, a PF deve acelerar suas investigações. 

Há investigação em várias direções, em especial sobre dinheiro estrangeiro nas eleições, em favor de Flávio Bolsonaro.

Para tanto, a PF apura tratativas entre a Rockbridge Network, organização política americana cofundada por J.D. Vance, vice-presidente dos EUA, e os empresários brasileiros Tallis Gomes e Pedro Sang.

O objetivo é identificar se houve fluxo financeiro, cessão de recursos humanos ou “outras vantagens economicamente aferíveis” à campanha de Flávio Bolsonaro.

A base jurídica é a vedação constitucional ao financiamento estrangeiro, que alcança qualquer vantagem economicamente aferível, ainda que não haja transferência direta de dinheiro.

A PF apura publicidade no exterior, que visa identificar mandantes, operadores e origem dos valores usados para remunerar perfis sediados no exterior que veicularam propaganda pró-Flávio.

A suspeita envolve o uso de plataformas de mercado de previsões, como a Polymarket (proibida de operar no Brasil), como canal para publicidade não declarada, “sem identificação do pagador, nem dos valores pagos”.

A operação policial visa também esclarecer eventual conexão entre as tratativas de financiamento político e os interesses econômicos em terras raras e minerais críticos brasileiros.

A menção a recursos naturais estratégicos na decisão judicial sugere que o inquérito pode alcançar uma dimensão enorme e abrangente.

É necessário analisar a natureza, os participantes e a finalidade dos contatos entre representantes da Rockbridge Network e empresários brasileiros, incluindo o eventual vínculo entre recursos, serviços ou vantagens e a campanha eleitoral ora concluída. 

Apurar eventuais condutas dolosas ou distorções algorítmicas praticadas por Big Techs voltadas a beneficiar ou prejudicar candidatos. Essa frente se conecta diretamente às evidências de viés assimétrico na Meta, que motivaram a intervenção do TSE durante o pleito.

Para Dino, os indícios apontam para a “intensificação da ingerência estrangeira no processo eleitoral”. A investigação coloca no centro do debate a soberania nacional: não se admite interferência, direta ou indireta, de Estado estrangeiro sobre assuntos submetidos à soberania brasileira, e isso se aplica ao processo eleitoral.

O inquérito também tem um efeito institucional relevante: foi aberto em procedimento separado, sob supervisão do STF, diante da possibilidade de envolvimento de integrantes do Congresso Nacional, e a PF deverá informar à corte o número do inquérito instaurado.

O quadro que emerge é de uma disputa em duas frentes simultâneas: no Legislativo, o lobby das Big Techs e a pressão geopolítica conseguem bloquear avanços regulatórios, enquanto o Executivo e o Judiciário tentam compensar com decretos e decisões judiciais.

Na PF a investigação sobre a Rockbridge Network e a manipulação algorítmica busca responsabilizar os agentes que atuaram para favorecer um dos lados – mas seu desfecho é incerto e enfrentará resistências.

A vitória nas urnas não encerrou a correlação de forças que tentou definir o resultado. Ela apenas transferiu a disputa para outras arenas: o Congresso, o STF e a Polícia Federal.

E é nessas arenas que se definirá se a infraestrutura de poder que atuou contra a candidatura de Lula será reformada ou preservada.

O perigo Rockbridge

A Rockbridge Network não é um fundo eleitoral tradicional nem um partido. Ela opera, e se autodenomina como uma “empresa de capital de risco político”, cujo produto é poder durável.

Seus mecanismos foram projetados para converter dinheiro de grandes doadores conservadores em infraestrutura política permanente, e o caso brasileiro mostra como essa ameaça tentou se materializar.

A Rockbridge foi fundada em 2019 por J.D. Vance e Chris Buskirk, com articulação inicial de Peter Thiel. Ela se define como uma “empresa de capital de risco voltada para a política”, cujo objetivo é financiar projetos que garantam a sobrevivência da agenda MAGA para além de uma candidatura específica.

O conceito central que organiza seus mecanismos é o de “alfa político”: o poder que continua rendendo depois que a urna fecha.

No mercado financeiro, “alfa” é o ganho acima da média. Na política da Rockbridge, é o capital político permanente e mensurável que um investimento produz.

A rede não financia uma eleição para ganhar uma eleição. Financia para construir uma infraestrutura conservadora duradoura e antidemocrática. 

A adesão à rede é escalonada e admite múltiplas formas de contribuição, o que dificulta o rastreamento:

O plano de negócios da Rockbridge para o Brasil prevê uma atuação estruturada, não episódica.

As três frentes originais eram: a) apoio e organização de mídias conservadora; b) formação de jovens e financiamento a movimentos em ambientes acadêmicos; c) fornecimento de dados e pesquisas a parlamentares de direita.  

A inovação específica para o Brasil, via família Bolsonaro, foi a proposta de um Conselho de Tecnologia, com um projeto de poder que ia além da campanha eleitoral.

O conselho teria 23 integrantes, dos quais 19 seriam estrangeiros – executivos, fundadores e investidores ligados à tecnologia.

Sua função era aproximar grandes investidores estrangeiros da campanha de Flávio Bolsonaro e gerar “compromissos de investimento na ordem de dezenas de bilhões antes mesmo da posse”, por meio de “um instrumento não governamental e não público”.

Quer dizer: o mecanismo não era apenas o de financiar a eleição, mas comprometer o futuro governo com uma agenda de investimentos privados estrangeiros antes que ele tomasse posse.

A conexão entre a rede americana e a campanha de Flávio Bolsonaro se deu por meio de dois empresários brasileiros, ambos citados no inquérito da PF.

Tallis Gomes (fundador da Easy Taxi e da G4 Educação) é apontado como integrante da rede nos EUA, e foi o mediador de um encontro entre Chris Buskirk e empresários brasileiros durante a semana do Brasil em Nova York.

Seu nome aparece no documento de apresentação da Rockbridge Brasil ao lado de Pedro Sang.

Pedro Sang é apresentado no material da Rockbridge como CEO da Rockbridge Brasil. Segundo apurações da PF, ele atuou dentro da estrutura da campanha de Flávio Bolsonaro. Participou da montagem do comitê do senador em São Paulo, ocupou uma sala no segundo andar do imóvel e se apresentava no local como “Pedro da Rockbridge”. Ele manteve contato direto com nomes do núcleo da campanha, como o marqueteiro Duda Lima.

A PF investiga especificamente a natureza dessas tratativas e se houve fluxo financeiro, cessão de recursos humanos ou “outras vantagens economicamente aferíveis” à campanha – não apenas dinheiro em espécie, mas qualquer apoio materialmente mensurável.

Os minerais críticos

O inquérito de Flávio Dino conecta explicitamente as tratativas de financiamento a um interesse econômico concreto: as terras raras e minerais críticos brasileiros, a segunda maior reserva mundial, logo depois da China.

A teia identificada é a seguinte: a 1789 Capital, fundo criado por integrantes da Rockbridge (Chris Buskirk, Omeed Malik e Rebekah Mercer), tem Donald Trump Jr. como sócio, e participou de um investimento de US$ 65 milhões na Vulcan Elements, fabricante americana de ímãs de terras raras para tecnologia e defesa militar.

A Vulcan mantém acordo de fornecimento com a Energy Fuels, que adquiriu por US$ 27,5 milhões um projeto de minerais pesados no sul da Bahia (Prado e Caravelas), com 19 processos minerários ativos e substâncias como monazita, usada em ímãs para veículos elétricos, turbinas, celulares, satélites, drones e equipamentos militares.

Um memorando estratégico elaborado por André Marinho, aliado de Flávio Bolsonaro, defendia que o Brasil se tornasse fornecedor estratégico de minerais críticos alinhado aos EUA.

O mecanismo, portanto, não era apenas apoiar um candidato: era, sim, alinhar o futuro governo brasileiro a uma cadeia de suprimentos de minerais críticos alternativa à China, na qual os investidores da rede já tinham posições financeiras.

A decisão de Dino estrutura a apuração em frentes que cobrem exatamente os mecanismos descritos:

1. Tratativas financeiras: a natureza dos contatos entre a Rockbridge e Tallis Gomes e Pedro Sang, e se houve fluxo de recursos ou vantagens à campanha.

2. Publicidade dissimulada no exterior: quem pagou e contratou perfis sediados fora do Brasil que veicularam propaganda pró-Flávio, possivelmente via plataformas de mercado de previsões, “sem identificação do pagador, nem dos valores pagos”.

3. Vínculo com minerais críticos: a PF deve esclarecer a conexão entre o apoio eleitoral e o interesse econômico de agentes estrangeiros nas terras raras brasileiras.

4. Relações corporativas: analisar a finalidade dos contatos entre a Rockbridge e empresários brasileiros, incluindo eventuais vínculos entre recursos e a campanha.

5. Manipulação algorítmica: apurar eventuais distorções dolosas por Big Techs para favorecer ou prejudicar candidaturas.

O mecanismo da Rockbridge é a conversão de capital financeiro em poder político durável, por meio de uma estrutura que combina toda a sorte de golpes e contragolpes.

Portas de entrada escalonadas e formas de pagamento opacas;

Infraestrutura permanente (mídia, formação de militantes, legislativo) em vez de gasto eleitoral episódico.

Intermediários locais (nacionais) que operam dentro da campanha, mas não são formalmente da campanha.

Compromissos de investimento pré-posse que vinculam o futuro governo a uma agenda econômica entreguista e anti-soberana.

Interesses materiais concretos (minerais críticos) que dão sentido econômico ao apoio político.

A expressiva vitória de Lula nas urnas não desmontou esse mecanismo.

A investigação da Polícia Federal é, hoje, a principal arena onde se tenta estabelecer se a campanha do PL operou dentro ou fora dos limites da lei eleitoral brasileira.

*Cristóvão Feil é sociólogo.

**Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil de Fato.

Editado por: Vivian Virissimo

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