VIOLÊNCIA

Ameaças e mensagens de ódio circulam em grupo atribuído a estudantes de Agronomia da UFSM

Em conversas sobre a eleição presidencial, um dos participantes se oferece para 'matar' petistas e integrantes do MST

Mensagens no grupo atribuído a alunos da UFSM expressam disposição para praticar violência contra colegas com posições políticas diferentes
Mensagens no grupo atribuído a alunos da UFSM expressam disposição para praticar violência contra colegas com posições políticas diferentes | Crédito: Reprodução

Chegaram à redação do Brasil de Fato RS três prints de um grupo de WhatsApp chamado Ata 118, supostamente organizado por alunos de uma turma do curso de Agronomia da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM). As conversas estariam relacionadas à disputa do segundo turno das eleições presidenciais de 2026, no qual o candidato à reeleição Luiz Inácio Lula da Silva (PT) derrotou Flávio Bolsonaro (PL), e demonstram a inconformidade dos participantes com o resultado. Palavras de ódio e incentivo a ações violentas dão o tom das mensagens, que chegam a mencionar a possibilidade de assassinatos.

Um dos participantes afirma, em uma sequência de mensagens: “Se o PT ganhar”, “E o Trump entra”, “E tiver guerra”, “eu mato os daqui”. Outro participante responde, na sequência, com uma imagem gerada por inteligência artificial que mostra o presidente Lula em um caixão, sendo velado. Na mesma tela, outro integrante do grupo compartilha um meme afirmando: “Sou homofóbico e estou com Bolsonaro”.

Outro print traz a mensagem de um participante do grupo afirmando que “Petista faz agronomia pra plantar maconha, só pode”. Na sequência, outro participante afirma que os supostos petistas no curso de Agronomia seriam integrantes do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) e que estariam interessados em “roubar terra”.

O mesmo participante que afirmou anteriormente estar disposto a “matar” em caso de guerra volta a fazer uma ameaça: “MST eu mato”. Em outro print, ele escreve: “O enterro é as 19” e “Gasta um pente de bala”.

Segundo a fonte do Brasil de Fato RS, após tomarem conhecimento do vazamento dos prints, integrantes do grupo passaram a pressionar as pessoas que poderiam ter compartilhado as mensagens, mas aparentemente não têm certeza de quem fez o vazamento.

O Diretório Central dos Estudantes (DCE) emitiu uma nota nas redes sociais sobre a situação: “A partir do momento em que um estudante afirma que pretende matar outras pessoas e utilizar violência no ambiente acadêmico, a situação ultrapassa qualquer limite do debate político. Ameaça de morte não é ‘brincadeira’ nem ‘fato isolado’: é crime!”. O diretório encaminhou a denúncia formal à Ouvidoria da universidade e afirma acompanhar de perto todas as etapas da apuração.

“Exigimos da instituição uma postura firme, a apuração rigorosa dos fatos, a responsabilização dos envolvidos e a adoção de medidas efetivas para proteger os estudantes atingidos. A nossa comunidade não vai normalizar a violência”, acrescenta a nota. A publicação na íntegra pode ser conferida no perfil do diretório no Instagram.

Universidade repudia ameaças e encaminha materiais à PF

A direção do Centro de Ciências Rurais (CCR) e a coordenação do curso de Agronomia, por sua vez, emitiram uma nota conjunta manifestando repúdio “a qualquer manifestação de caráter intolerante, seja por meio de expressões, discursos ou atitudes que promovam o ódio, a violência e a discriminação de qualquer natureza”.

A nota afirma ainda que “a liberdade de expressão é um direito fundamental, mas não pode ser confundida com práticas criminosas ou utilizada como justificativa para manifestações que atentem contra a integridade física, dignidade humana e os direitos fundamentais” e que “eventuais ocorrências dessa natureza no âmbito do Centro deverão ser encaminhadas às instâncias competentes para apuração e responsabilização, conforme a legislação vigente e as normas institucionais”.

A direção do centro e a coordenação do curso manifestaram ainda solidariedade e compromisso “com o acolhimento de estudantes de graduação e pós-graduação, docentes, técnico-administrativos em educação, trabalhadores terceirizados e demais integrantes da comunidade acadêmica”. Também afirmaram que “situações de ameaça, intimidação ou discriminação devem ser comunicadas pelos canais institucionais”. A íntegra da nota está disponível no site do CCR.

No final da tarde de terça-feira (27), a Reitoria da UFSM também se manifestou por meio de nota, afirmando “repúdio às ameaças e ofensas registradas na Ouvidoria da instituição e também divulgadas nas redes sociais por prováveis estudantes da UFSM”.

Conforme o texto, os materiais foram encaminhados à Polícia Federal, e foi determinada a criação de uma comissão específica que atuará na investigação, identificação, verificação do vínculo com a UFSM, escuta dos envolvidos e posterior abertura de processo administrativo disciplinar. A íntegra da nota está disponível no site da UFSM.

A Reitoria solicita que quem tiver informações que possam ajudar na investigação as registre na Ouvidoria da UFSM. “Quanto mais detalhada a denúncia, com data, horário, local, indicação de nomes das pessoas envolvidas e registros como prints, contexto dos acontecimentos, maiores são as chances de o caso alcançar a identificação de materialidade e autoria”, informa a nota. A identidade de quem denuncia e os dados de pessoas sob apuração são tratados com sigilo, conforme determina a legislação.

O Brasil de Fato RS entrou em contato com a Ouvidoria da UFSM, que respondeu apenas que “não pode fornecer informações sobre o teor de manifestações registradas, tampouco sobre eventuais procedimentos de apuração em andamento, uma vez que tais informações são de acesso restrito aos agentes públicos responsáveis pela análise e apuração dos fatos”.

Segundo a Ouvidoria, “essa restrição visa assegurar a confidencialidade das informações e a proteção dos denunciantes, em conformidade com as disposições da Portaria Normativa CGU nº 116/2024 e demais normas aplicáveis”.

Nas imagens originais repassadas ao Brasil de Fato RS, é possível identificar os participantes e os respectivos números de telefone, omitidos na matéria para preservar o sigilo das investigações.

Editado por: Marcelo Ferreira

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