Após mais de dez anos de negociações na Justiça, o processo de permanência das famílias da comunidade Tiradentes, localizada na Cidade Industrial de Curitiba, conquistou a transmissão do terreno para o estado. A oficialização é um marco institucional e um passo em direção à regularização fundiária urbana, que será responsabilidade dos órgãos competentes do Paraná.
A comunidade foi formada em 2015, com organização do Movimento Popular por Moradia (MPM), e reúne hoje cerca de 420 famílias. O terreno pertence à massa falida — que é o conjunto de bens de uma empresa que faliu — da Stirps Empreendimentos. Na época do início da ocupação, o espaço estava sublocado pela empresa Solvi Essencis S.A., responsável pela gestão do aterro sanitário vizinho.
A luta jurídica passou por uma ação de reintegração de posse pela Essencis e outra ação reivindicatória da Stirps. Embora ordens de despejo tenham sido expedidas entre 2015 e 2016, as ações nunca foram cumpridas, sobretudo em razão da intervenção do Ministério Público do Paraná, da Defensoria Pública e da assessoria jurídica do Instituto Democracia Popular (IDP).

Em 2017, os moradores da comunidade iniciaram um reordenamento territorial. Readequaram vias e delimitaram lotes para organizar o território, o que deu melhores condições de moradia somente graças à iniciativa do poder popular. Durante a pandemia da covid-19, a comunidade se articulou à campanha Despejo Zero na capital.
Em junho de 2022, com mediação da Comissão de Conflitos Fundiários do Tribunal de Justiça do Paraná (TJPR), a Stirps formalizou a proposta de doação da fração ocupada do terreno para encerrar a disputa legal.
A doação foi autorizada pela Justiça e acordada com a Associação de Moradores Nova Tiradentes CIC. O plano inicial previa a transferência direta da propriedade à associação em até três anos. Entre 2024 e 2025, o formato da transação mudou com a entrada da Procuradoria-Geral do Paraná no processo que, com a doação da área, conduziria a regularização.
A consolidação da área também acompanhou a organização popular. Desde 2021, a comunidade possui associação formalizada e mantém projetos organizativos e educacionais, como uma iniciativa de contraturno escolar organizada pelas mulheres da comunidade. Em sistema de rodízio semanal, elas desenvolvem atividades lúdicas com as crianças da ocupação, contando com o apoio de entidades parceiras, além da assistência técnica e jurídica prestada pelo IDP e pelo coletivo de extensão universitária Plantear.


