Um advogado bolsonarista de Teresópolis (RJ) foi além de incentivar o boicote a comerciantes apoiadores do PT. Em vídeo que circula nas redes sociais, Klaus Fins propõe identificar estabelecimentos com uma “estrela vermelha na porta”. A sugestão remete a práticas nazistas de exclusão econômica de judeus e motivou a prefeitura do município a divulgar uma nota contra tentativas de “intimidação e perseguição política”.
“Empreendedores e trabalhadores são fundamentais para o desenvolvimento de Teresópolis, a geração de empregos e o fortalecimento da economia da nossa cidade. Nenhuma disputa partidária deve ser usada para prejudicar atividades comerciais e profissionais”, defende a administração.
No vídeo, o advogado diz que já existe um movimento para não comprar e fazer negócio com petistas porque “eles acabaram com a economia do país”. A presidente do PT de Teresópolis, Carol Quintana, destacou que o município é dependente do comércio, logo, a iniciativa prejudica a geração de emprego e renda. “Isso não tem nada de patriota e de defesa da família”, disse. Ela ressaltou que a prática, além de ilegal e discriminatória, promove discurso de ódio.
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“Isso é uma prática nazifascista, que fazia discurso contra judeus e também propagava um boicote aos estabelecimentos comerciais dos judeus colocando estrela de Davi na porta do comércio. É uma prática muito semelhante e temos que lembrar que nazismo é crime”, alertou. “Inclusive um vídeo que tem circulado foi filmado dentro de um estabelecimento comercial conhecido na zona rural de Teresópolis que o rapaz diz que os petistas deveriam fazer economia com os petistas”, completou Quintana.
O caso não aparece isolado no cenário pós-eleitoral. Também na Região Serrana do Rio de Janeiro, o deputado federal Glauber Braga (Psol-RJ) denunciou que um policial militar estaria divulgando uma lista de comércios que apoiaram Lula ou são de esquerda. Para o parlamentar, a tentativa de perseguição terá efeito contrário ao objetivo bolsonarista.
“Esse tipo de tentativa de intimidação não funciona. Lula teve quase 50 mil votos em Nova Friburgo (RJ). Esse tipo de ação criminosa só faz com que esses comércios tenham um reforço das suas vendas por parte de um público que não vai aceitar esse tipo de intimidação”, afirmou Braga em vídeo nas redes sociais.
Ainda assim, o mandato solicitou que a Corregedoria da PM apure possíveis crimes de ameaça, constrangimento e abuso de autoridade. Ao Brasil de Fato, a corporação informou que o policial é lotado no Centro dos Programas de Integração na Segurança (CPROEIS). “Assim que tomou conhecimento das informações, o comando da unidade instaurou um procedimento apuratório para averiguar a conduta do militar”, diz a nota.
Perseguição política
Na terça (27), a procuradora do município de Macaé (RJ), Renata Pinto Rodrigues Pimentel Ribeiro, também fez uma postagem discriminatória, que não faria mais política pública para petistas. Também sugeriu que empresas não contratem “artistas, pobres nordestinos e mineiros”.
“Petistas não vão trabalhar pra mim, não vou fazer mais política pública pra poder ajudar esse tipo de gente. Aconselho a todos os empresários, microempresários a não contratarem artistas, pobres nordestinos e mineiros”, disse em trecho. Ela afirma ser uma “autoridade pública municipal” e que seus filhos continuarão tendo “tudo de bom e do melhor”.
O município enviou o caso à Procuradoria-Geral de Macaé. Com a repercussão, postagens mais antigas da procuradora também vieram à tona. Em 2025, ela escreveu: “Não tenho palavras para descrever estes nazistas de esquerda! Se eu pudesse metralhava a todos sem distinção! Estamos em guerra mesmo! Morte aos esquerdistas”.
O PT de Macaé afirmou que as declarações atingem a dignidade de pessoas que vivem e trabalham na cidade. Ao portal g1, Renata alegou que as publicações estavam em perfis privados nas redes sociais.
No mesmo dia, a deputada estadual Índia Armelau (PL-RJ) passou a responder a uma ação civil pública por incentivar retaliações a funcionários que “fizeram o L”. Em decisão liminar, a Justiça do Trabalho determinou que a parlamentar remova os posts das redes sociais.
Armelau também está impedida de promover atos que incentivem empregadores a discriminar, demitir ou perseguir trabalhadores por suas convicções políticas.
Na decisão, o juiz do Trabalho Leonardo Saggese Fonseca destaca que “sendo a ré uma integrante do parlamento, […] deve fomentar a democracia e aceitar as diferentes opções políticas de cidadãos e trabalhadores, sem utilizar de discursos e falas que podem gerar pela sua leitura ou escuta, sentimentos de ódio, perseguição ou discriminação.”
Denúncias
Mais de 400 denúncias de assédio eleitoral foram registradas no país depois do 2º turno, segundo o MPT. O Procurador-Geral do Trabalho, Gláucio Araújo de Oliveira, foi às redes sociais reafirmar que qualquer pessoa pode fazer a denúncia, sendo importante juntar provas como prints e gravações de tela para agilizar o trabalho investigativo.
“O empresário é dono do seu negócio, não do voto do seu empregado. Demitir um funcionário por sua convicção política é ilegal e será alvo de atuação do MPT perante a Justiça do Trabalho”, disse.
O trabalhador que sofrer esse tipo de perseguição do patrão pode comunicar o sindicato da categoria, o plantão do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) pelo telefone 158 (Alô Trabalho) ou o site de denúncias do MPT (neste link). O registro pode ser feito de forma remota e sigilosa.

