Mudança na Sérvia

Eleições na Sérvia: como estudantes impuseram derrota história a Vučić e qual o impacto para a relação com Moscou

Movimento vencedor nega alinhamento automático aos EUA e à UE, descarta sanções econômicas à Rússia e defende diplomacia

Reunião entre o presidente russo, Vladimir Putin, e o presidente da Sérvia, Aleksandar Vučić, em setembro de 2025
Reunião entre o presidente russo, Vladimir Putin, e o presidente da Sérvia, Aleksandar Vučić, em setembro de 2025 | Crédito: Kremlin.ru

O movimento estudantil da Sérvia derrotou o campo político de Aleksandar Vučić nas eleições parlamentares antecipadas realizadas no domingo (25), impondo uma derrota histórica ao grupo que dominou a política do país por 14 anos. A Lista Estudantil conquistou mais de 52% dos votos, segundo os resultados preliminares da Comissão Eleitoral da República (RIK), e deverá ocupar a maioria das 250 cadeiras da Assembleia Nacional.

A vitória encerra um período de hegemonia do Partido Progressista Sérvio (SNS), que chegou ao poder em 2012, e abre uma nova etapa política em um país estratégico dos Bálcãs, situado entre a perspectiva de integração à União Europeia e a possibilidade de mudança nas relações com a Rússia.

Ao reconhecer a derrota, Aleksandar Vučić disse em seu discurso que a nova liderança do país adotaria uma imposição de sanções à Rússia até março ou abril, como um aceno às pressões da União Europeia. Atualmente, cerca de 75% do gás sérvio vem da Rússia, e a maioria do capital da petrolífera nacional é russa.

A troca de poder, no entanto, não representa uma ruptura automática com Moscou. Um dos fundadores da Lista Estudantil, Radomir Saicic, afirmou nesta quarta-feira (28) que o movimento não pretende impor sanções à Rússia e defendeu que os conflitos internacionais sejam resolvidos por meio de negociações.

“Os problemas devem ser resolvidos por meio do diálogo, negociações e acordos, não por meio de sanções”, afirmou Saicic. Ele recordou que a própria Sérvia já enfrentou medidas restritivas internacionais, e argumentou que elas não constituem um caminho adequado para solucionar divergências políticas.

A declaração reforça que a derrota de Vučić não deve ser interpretada como uma vitória automática da orientação geopolítica defendida por Washington e Bruxelas, embora o movimento tenha mobilizado setores da sociedade em torno de reivindicações próximas às demandas de aproximação da União Europeia.

Os resultados preliminares divulgados pela comissão eleitoral sérvia em 26 de outubro apontaram 52,71% dos votos para a Lista Estudantil, contra 39,17% da lista “Aleksandar Vučić – Sérvia Unida”. A primeira projeção atribuiu ao movimento estudantil 140 das 250 cadeiras do Parlamento, enquanto o campo ligado a Vučić ficaria com 104.

Da tragédia à mobilização nacional

A origem da mobilização estudantil tem como marco o desabamento de uma marquise na estação ferroviária de Novi Sad, em 1º de novembro de 2024. O acidente matou 16 pessoas e se transformou em símbolo das denúncias de negligência, falta de transparência e corrupção envolvendo obras públicas.

As manifestações começaram com cobranças por investigações, responsabilização dos envolvidos e divulgação de documentos relacionados à reforma da estação. Em seguida, ganharam dimensão nacional e passaram a contestar o funcionamento das instituições e a concentração de poder no campo político de Vučić.

Estudantes bloquearam universidades, organizaram assembleias e convocaram manifestações que reuniram professores, trabalhadores, agricultores e outros setores sociais. A pauta se ampliou para incluir independência judicial, liberdade de imprensa, combate à corrupção e condições mais democráticas de competição eleitoral.

Ao longo de quase dois anos, o movimento deixou de ser apenas uma rede de protestos universitários e se transformou em uma força política capaz de reunir diferentes segmentos da sociedade. A Lista Estudantil apresentou candidatos de diversas áreas profissionais e procurou evitar a concentração da campanha em uma única liderança.

A estratégia permitiu que o movimento agregasse eleitores com posições distintas sobre economia, política externa e identidade nacional, mas unidos pela oposição ao sistema de poder estabelecido.

O desafio do movimento agora é passar de uma mobilização construída nas ruas para formar uma equipe ministerial a fim de governar o país.

Relações com a Rússia

A declaração de Radomir Saicic é uma das primeiras indicações concretas sobre a orientação internacional que a Lista Estudantil pretende seguir. Segundo o fundador do movimento, a rejeição às sanções contra Moscou já estava prevista no programa eleitoral.

“A Lista Estudantil não defende a imposição de sanções contra a Rússia”, afirmou Saicic, citado pela agência estatal russa RIA Novosti. Para ele, a experiência histórica da Sérvia com medidas restritivas demonstra que os conflitos devem ser enfrentados por meio de diálogo e negociação, e não de sanções econômicas.

Já o professor Jovo Bakić, outro representante da Lista Estudantil, também declarou ao canal de televisão RT Balkan que o novo governo sérvio não imporá sanções contra a Rússia.

“Respeitamos a Rússia como uma grande potência, um parceiro historicamente importante e, em muitos casos, um protetor. Não haverá mudanças na política externa do país”, enfatizou Bakić.

A União Europeia vem pressionando os países candidatos à adesão ao bloco a adotar uma política externa mais unificada. Desde o início da guerra na Ucrânia, em 2022, a Sérvia manteve relações com Moscou e não aderiu ao regime de sanções ocidentais contra o governo russo.

O país bálcânico possui vínculos históricos, culturais e religiosos com a Rússia, além de relações econômicas e energéticas importantes. Moscou é um interlocutor estratégico para Belgrado, especialmente no setor de energia e na disputa diplomática em torno de Kosovo, território cuja independência a Sérvia não reconhece.

A vitória estudantil levantou dúvidas sobre a continuidade dessa política. As declarações de representantes da oposição, entretanto, indicam que o movimento não pretende transformar a mudança de governo em um rompimento com Moscou.

O porta-voz do Kremlin, Dmitri Peskov, ao comentar o resultado das eleições no país, valorizou a contribuição de Vučić às relações bilaterais e disse que Moscou está pronta a seguir cooperando com as autoridades que se formarem, destacando que a cooperação é vantajosa para a Sérvia.

“Com relação à nova força política que chegará ao poder como resultado das eleições, queremos expressar a esperança de que suas ações visem construtivamente ao desenvolvimento das relações e que essa nova força política entenda que a cooperação com a Rússia é do interesse da Sérvia, pois é primordialmente benéfica para a Sérvia”, disse Peskov.

Editado por: Gia Matheus Almeida

|

Newsletter