Na manhã desta quarta-feira (28), antes do início da sessão da Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU) que debate a resolução pelo fim do bloqueio econômico, comercial e financeiro imposto pelos Estados Unidos a Cuba, o embaixador cubano no Brasil, Víctor Cairo, recebeu representantes diplomáticos, movimentos populares e organizações de solidariedade na sede da embaixada, em Brasília. O encontro reuniu apoiadores da ilha para acompanhar a votação e discutir formas de cooperação com o país caribenho.
Durante a reunião, os participantes defenderam o fim do bloqueio e destacaram a importância da solidariedade internacional com Cuba. Entre os temas abordados estiveram a posição do Brasil diante das sanções e iniciativas de intercâmbio para contribuir com a produção de alimentos na ilha.
O encontro ocorreu um dia após um embate entre as delegações cubana e estadunidense na Assembleia Geral. Na terça-feira (27), o chanceler cubano, Bruno Rodríguez Parrilla, contestou declarações do representante dos Estados Unidos, Mike Waltz, que negou a existência do bloqueio. Rodríguez acusou o diplomata de disseminar informações falsas e desrespeitar a dignidade do povo cubano.
Ao comentar o episódio, Cairo destacou a reação da delegação cubana e afirmou que o país não pretende recuar na defesa de seus direitos. “Isso é uma demonstração de que o povo cubano não tem medo. Os Estados Unidos dizem: ‘Somos os Estados Unidos’, mas Cuba está aqui, reivindicando seus direitos. Não estamos pedindo outra coisa além do respeito aos nossos direitos”, declarou.
Pressão dos EUA sobre países
Cairo afirmou que a pressão diplomática dos Estados Unidos pode influenciar a posição de países que tradicionalmente apoiam a resolução contra o bloqueio. “Estamos em um cenário novo de combate, de agressividade que estamos sofrendo. Mas a diplomacia cubana está unida e muito forte e vai demonstrar a capacidade do nosso povo de luta e de resistência”, afirmou.
Antes da votação, o embaixador também mencionou a possibilidade de novas tensões durante a sessão da Assembleia Geral. “É possível que Cuba tenha hoje um debate diferente, em um cenário novo, diante de uma agressividade sem precedentes. Temos que esperar o que acontece, ver se os Estados Unidos tentam outro espetáculo político na Assembleia”, disse o embaixador.
O diplomata agradeceu ao governo brasileiro pelo apoio à resolução e ressaltou o posicionamento do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) em defesa de Cuba. “Estamos muito agradecidos pela posição histórica do Brasil em apoio a Cuba. É um voto importante. O presidente Lula tem tido uma posição muito clara, uma posição de liderança internacional em defesa de Cuba”, afirmou.

Representando o Movimento Brasileiro de Solidariedade com Cuba, Pedro César Batista criticou o voto favorável ao bloqueio dado pelo Brasil durante o governo de Jair Bolsonaro e defendeu a continuidade da mobilização em apoio à ilha.
“Infelizmente, tivemos um momento de traição a Cuba e ao povo brasileiro. Pedimos desculpas porque esse não é o sentimento do povo brasileiro. Nós estamos com Cuba, porque Cuba segue sendo nossa referência de dignidade humana e de construção do socialismo”, declarou.
Batista também criticou os efeitos das sanções sobre a população cubana e afirmou que as medidas foram agravadas pelo governo de Donald Trump. “Esse bloqueio leva fome, impede a chegada de combustível, de alimentos, de medicamentos, causa um terror a Cuba e é imposto pelos Estados Unidos. Donald Trump piorou, radicalizou. O bloqueio impede que, de fato, a dignidade humana em Cuba ocorra em plenitude”, afirmou.
Ao defender a continuidade das ações de solidariedade, o representante do movimento destacou a soberania dos povos e a articulação entre organizações brasileiras. “Nossa tarefa segue, não abrimos mão de enfrentar, de combater, de mobilizar em defesa da soberania dos povos, em defesa de Cuba, em defesa do Brasil, em defesa do povo”, disse.
Intercâmbio agrícola
Durante o encontro, Francisco Dal Chiavon, do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), anunciou o envio de uma delegação brasileira a Cuba em novembro para compartilhar conhecimentos sobre o aproveitamento da mandioca na alimentação humana. A iniciativa busca contribuir para reduzir a dependência cubana do trigo por meio do intercâmbio de experiências da agricultura familiar e de assentamentos da reforma agrária.
“O objetivo é trocar conhecimentos sobre o uso dos derivados da mandioca, para diminuir a necessidade de trigo em Cuba. Nós temos assentamentos que trabalham com essa cultura e, em Santa Catarina, há um assentamento que realiza uma festa todos os anos, com mais de 20 pratos derivados da mandioca. Estamos levando essa experiência para trocar conhecimentos sobre o uso da mandioca na alimentação humana”, afirmou Francisco.
O integrante do MST também destacou a importância histórica da mandioca no combate à fome entre famílias de imigrantes que chegaram à região Sul do Brasil. A delegação pretende levar essa experiência à ilha em um momento de dificuldades no abastecimento e de busca por alternativas para a produção de alimentos.
Conversa com estudantes
Recém-chegada ao Brasil, a terceira-secretária da Embaixada de Cuba, Nathalie Gonzalez Martínez, contou que visitou algumas escolas no país e conversou com crianças sobre a realidade cubana.
“Uma das perguntas que me surpreendeu foi: ‘Como é viver em um país comunista?’. Eu disse que Cuba não é comunista, é socialista. Também me perguntaram se em Cuba existem escolas e hospitais privados, como aqui no Brasil. Quando respondi que não, eles ficaram surpresos”, contou a secretária.
Segundo Martínez, as conversas também abordaram o bloqueio imposto pelos Estados Unidos. “Eles me perguntaram: ‘E por que os Estados Unidos fazem isso contra Cuba?’. Eu disse: ‘Perguntem aos Estados Unidos por que mantêm Cuba bloqueada há cerca de 60 anos’. Foi uma pergunta que me marcou”, relatou.
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