Rota de fuga

Flávio Bolsonaro fugiu pela Argentina na noite de terça (27) e fez escala no Equador antes de seguir para os EUA

Senador cruzou a ponte para Puerto Iguazú às 22h50 e embarcou em jatinho que desviou do espaço aéreo brasileiro

O candidato derrotado na eleição presidencial, Flávio Bolsonaro (PL), fugiu do Brasil pela fronteira com a Argentina na noite de terça-feira (27) e, depois de uma escala no Equador, segue para os Estados Unidos nesta quarta-feira (28). O bolsonarista é investigado por lavagem de dinheiro e estava impedido de deixar o país.

O jatinho particular em que estão o senador, a esposa e as duas filhas decolou de Guayaquil às 6h22, no horário de Brasília, com previsão de chegada ao aeroporto executivo de Opa-locka, em Miami, por volta das 10h40, segundo o site de monitoramento aéreo FlightAware. Para chegar ao destino, o voo evitou o espaço aéreo brasileiro e sobrevoou o Paraguai, a Bolívia e o Peru.

Segundo a Direção Nacional de Migrações da Argentina, a família atravessou a Ponte Internacional Tancredo Neves, que liga Foz do Iguaçu (PR) a Puerto Iguazú, na província de Misiones, às 22h50 de terça-feira. Quarenta minutos depois, às 23h30, embarcou em Puerto Iguazú em um Gulfstream G400 da empresa Baires Fly, com destino informado a Guayaquil. De acordo com a emissora argentina C5N, o senador cruzou a fronteira em uma van e estava em uma fazenda em Foz do Iguaçu desde a noite anterior.

Segundo a migração argentina, todos os integrantes da família apresentaram documentos de viagem válidos. O ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), havia determinado o cancelamento de todos os passaportes brasileiros do senador, inclusive os diplomáticos. Flávio Bolsonaro tem também um passaporte italiano, concedido em 2023, durante o governo da primeira-ministra Giorgia Meloni, que, pela decisão de Moraes, também deveria ter sido entregue.

Aval de Trump

Com a fuga, Flávio Bolsonaro segue o caminho do irmão, o deputado cassado Eduardo Bolsonaro, que está foragido nos Estados Unidos depois de ser condenado por coação no curso do processo que levou à prisão do pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro. Na terça-feira, o Departamento de Estado dos Estados Unidos confirmou que vai conceder vistos ao senador e à família.

Nesta quarta, o presidente Donald Trump disse aprovar a ida de Flávio Bolsonaro ao país e voltou a atacar, sem provas, a eleição brasileira. “Bem, eu aprovaria. Acho que eles são boas pessoas. A eleição foi muito estranha, e achei que foi terrível”, afirmou. A decisão do governo Trump foi criticada por um comitê do Partido Democrata, e parlamentares argentinos pediram a investigação da passagem do senador pelo país.

Ordem descumprida

A fuga ocorreu depois de Flávio Bolsonaro descumprir a ordem de Moraes, que o proibia de deixar o país e determinava a entrega dos passaportes até as 11h de terça-feira. A decisão foi tomada na noite de domingo (25), dia do segundo turno, num processo em que o senador e o advogado Willer Tomaz são investigados por lavagem de dinheiro, num suposto esquema que envolveria empresas do advogado e casas de apostas.

Willer Tomaz, apontado como figura central nas fraudes contra aposentados do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS), também está foragido no exterior. O senador é investigado ainda em um inquérito sobre o financiamento do filme “Dark Horse”, sobre a trajetória de Jair Bolsonaro, e o ministro Flávio Dino mandou a Polícia Federal (PF) apurar suspeitas de financiamento estrangeiro na campanha dele.

No pedido ao STF, a PF apontou riscos “concretos e atuais” de fuga, com base em três elementos: a recomendação pública de Eduardo Bolsonaro para que o irmão deixasse o país em caso de derrota, o “expressivo poder econômico” do senador e a existência de estruturas no exterior que poderiam viabilizar uma permanência prolongada.

Um dia antes de fugir, Flávio Bolsonaro negou em vídeo que pretendesse deixar o país e atacou a decisão. “A decisão do Alexandre de Moraes se baseou numa fala do Eduardo, de 23/10, de que eu deveria deixar o país se eu perdesse a eleição. Eu nunca falei isso. Isso é motivo para tirar meu passaporte?”, disse.

O mandato de Flávio Bolsonaro no Senado termina em 31 de janeiro, quando ele perde o foro privilegiado. Para o sociólogo Thiago Esteves, professor da Universidade Federal de Ciência e Inovação do Rio de Janeiro (UFIRJ), a fuga tem relação direta com isso.

“Ele está fugindo porque sabe muito bem o que ele fez. Sem imunidade parlamentar, os malfeitos que ele, porventura, tenha cometido serão investigados”, afirmou ao Conexão BdF, da Rádio Brasil de Fato. “Ele assinou sua sentença de culpa.”

‘Lamber botas’

No PL, a fuga foi recebida com constrangimento. O senador Rogério Marinho (PL-RN), um dos coordenadores da campanha de Flávio, disse que os aliados não sabiam do plano, mas defendeu o bolsonarista. “Nós, evidentemente, não fomos informados, mas até compreendo caso o senador Flávio tenha saído do Brasil com sua família”, afirmou. Para Marinho, a ordem de entrega dos passaportes seria “a preparação de uma coisa mais persecutória”.

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), reeleito no domingo (25), classificou a fuga como “vergonhosa” e lembrou que, quando foi investigado na Operação Lava Jato, entregou o passaporte a pedido da Justiça. “Isso é uma falta de respeito com eleitores dele. Falta de respeito que ele teve com a democracia brasileira. Eu perdi em 1989. Fui lamber minhas feridas e fiquei aqui. Eu perdi em 1994. Fui lamber minhas feridas e fiquei aqui. Eu perdi 1998 e fiquei aqui”, disse.

O presidente também questionou o patriotismo do adversário. “O Brasil é a segunda pátria dele. A primeira pátria dele é lamber botas dos Estados Unidos”, afirmou.

Editado por: Geisa Marques

|

Newsletter