A história da Palestina vai muito além das guerras recentes, afirma a escritora e cineasta palestina Hanan Kattan, autora de “Palestina Revelada”, livro que será lançado no Brasil no final de outubro. No prefácio da edição brasileira, da Carta Editora, o jornalista Breno Altman destaca: “Há livros que chegam ao leitor para acrescentar informações. Outros aparecem para reorganizar tudo aquilo que julgávamos saber. Palestina Revelada pertence à segunda categoria.”
Nesta obra, a autora percorre mais de um século de história para mostrar como a colonização, a expulsão da população nativa e o apagamento de sua memória estão na origem do conflito. A partir de pesquisa documental e de lembranças familiares, a autora recupera histórias de casas perdidas, aldeias destruídas e tradições preservadas como formas de resistência.

Altman continua no prefácio: “A força deste livro nasce da fusão entre testemunho pessoal e investigação histórica. Hanan é filha de uma família palestina arrancada de sua terra pela Nakba de 1948. As chaves das casas roubadas, as lembranças de Jerusalém, Belém, Haifa e Gaza, os sabores, os sotaques, os bordados, as oliveiras e as histórias transmitidas entre gerações não aparecem como ornamentos sentimentais. São documentos vivos de uma existência que o projeto sionista tentou apagar. Ao iniciar sua narrativa pela própria família, a autora realiza um movimento decisivo: antes de discutir fronteiras, guerras, resoluções diplomáticas ou interesses imperiais, ela nos apresenta um povo”.
Nesta entrevista exclusiva ao Brasil de Fato, Kattan aborda as origens do projeto sionista, a Nakba de 1948, o uso de inteligência artificial nos ataques a Gaza e as conexões entre a experiência palestina e os processos de colonização dos povos indígenas no Brasil.
Brasil de Fato: Ao longo de “Palestina Revelada”, você argumenta que a história da sua terra natal não pode ser compreendida apenas a partir das guerras mais recentes, mas como parte de um processo que se desenrola há mais de um século. Quais aspectos dessa história você considera menos compreendidos pelo público internacional e por quê?
Hanan Kattan: Duas coisas. A primeira é que, em 1897, Theodor Herzl convocou a primeira conferência sionista. A intenção era procurar um lugar para colonizar e criar uma pátria exclusivamente para os judeus. Herzl escreveu: “Tentaremos fazer a população sem recursos atravessar a fronteira às escondidas… a expropriação e a remoção dos pobres devem ser realizadas discretamente”.
A maioria dos outros líderes sionistas também foi bastante explícita ao afirmar que a criação de Israel era um projeto colonial de povoamento que dependia do apagamento da população nativa. Os sionistas colonizadores também difundiram a propaganda de que a Palestina estaria de alguma forma “vazia” e de que eles teriam “feito o deserto florescer”.
Esses slogans convenientemente ignoram os milhões de vidas desarraigadas e o fato de que a Palestina tinha uma cultura agrícola e comercial próspera, com teatros, jornais, ferrovias, portos e comunidades muçulmanas e cristãs espalhadas por todo o território.
Você também contesta a ideia de que as origens de Israel remontam ao período posterior à Segunda Guerra Mundial. Qual foi o papel da Grã-Bretanha na história que antecedeu a criação de Israel?
Esse apagamento da história ajudou os sionistas a fazer parecer que a ideia de Israel surgiu depois da Segunda Guerra Mundial e a vincular suas origens ao Holocausto. Mas a verdade é que os britânicos haviam assumido publicamente, em 1917, o compromisso de criar um lar para o povo judeu, por meio da Declaração Balfour.
Esse documento – que, aliás, era uma carta dirigida a Lord Rothschild, e não uma lei submetida a debate – veio após anos de intensa articulação política e de certo grau de influência financeira sobre o governo britânico da época. Alguns integrantes desse governo eram sionistas fervorosos, inclusive o primeiro-ministro britânico; outros eram abertamente antissemitas, como Lord Balfour, secretário de Relações Exteriores, e queriam que os judeus saíssem da Grã-Bretanha e da Europa.
Esse apagamento da história ajudou os sionistas a fazer parecer que a ideia de Israel surgiu depois da Segunda Guerra Mundial e a vincular suas origens ao Holocausto
O que você descobriu sobre a votação das Nações Unidas de 1947 para dividir a Palestina?
Outro momento histórico interessante é a votação da ONU, em 1947, sobre a divisão da Palestina em dois Estados, um judeu e outro árabe. A votação ocorreu após três dias de pressão implacável, negociações de bastidores, suborno e corrupção.
Países mais poderosos, como os Estados Unidos, e sionistas ricos ameaçaram, persuadiram e pressionaram países menores que planejavam votar contra a partilha a votar a favor – ou, pelo menos, a se abster. Foi impressionante descobrir como tudo isso funcionou, como assistir à execução de um grande golpe. O episódio me intrigou tanto que dediquei um capítulo a ele!
Por que é importante recuperar essa história mais longa para compreender o presente?
A maioria das pessoas toma conhecimento da Palestina em um momento de crise, durante uma guerra ou ao ler uma manchete, e presume que a história começa ali. Outras conhecem apenas a propaganda que lhes foi transmitida por governos, pela imprensa e pelos meios de comunicação.
Mas a história começou muitas décadas antes, com o fim do domínio otomano e o Mandato Britânico – que deveria ter preparado a Palestina para o autogoverno, em vez de entregá-la a colonizadores de povoamento que não eram nativos –, seguido por anos de espoliação, durante os quais palestinos nativos foram expulsos à força e tiveram suas terras, casas, empresas e meios de subsistência roubados e tomados, sobretudo, por colonizadores judeus vindos da Europa.
Quando as pessoas compreendem todo esse século de história, o presente deixa de parecer um conflito interminável e misterioso. Passa a ser uma história nítida, com começo – e esse começo muda a maneira como se enxerga o desfecho.
Você escreve que, depois de 7 de outubro de 2023, ficou surpresa com o pouco que muitas pessoas ao seu redor sabiam sobre a Nakba e sobre o que havia acontecido antes daquele momento. O que mais a chocou nessas conversas e reações?
O dia 7 de outubro foi um divisor de águas para mim. Eu me via constantemente em conversas nas quais as pessoas ao meu redor – inteligentes, aparentemente bem instruídas – simplesmente não sabiam o que era a Nakba. Mas o que foi muito pior foram as reações de vários amigos europeus, norte-americanos e canadenses, hoje ex-amigos, que se diziam feministas e defensores dos direitos humanos e jamais se definiriam como racistas, mas que fizeram discursos carregados de retórica antipalestina, antiárabe e islamofóbica. E, no entanto, os palestinos sofreram centenas de massacres documentados ao longo dos anos, que não despertaram nessas pessoas solidariedade, atenção ou qualquer percepção de injustiça.
Quando as pessoas compreendem todo esse século de história, o presente deixa de parecer um conflito interminável e misterioso
O que essas reações revelaram sobre a maneira como a Palestina e Gaza eram compreendidas?
O medo dessas pessoas se baseava na escolha de acreditar na grande mídia, que tem interesse em agradar às corporações, aos governos e aos bilionários que querem que Israel seja uma força dominante na Ásia Ocidental.
É uma campanha de disseminação do medo que revela total desconhecimento do sistema de apartheid israelense em toda a Palestina, assim como das condições particularmente brutais enfrentadas pelos palestinos em Gaza. Ali, os palestinos vivem literalmente sob cerco há muitos anos e sob uma ocupação ilegal há décadas, em um campo de concentração – expressão usada inclusive por vários israelenses que ocupam posições de poder, e não apenas por críticos de Israel.

Foi isso que levou você a escrever “Palestina Revelada”? O que faltava nos livros que já estavam disponíveis?
Eu queria ter um único livro que pudesse entregar a alguém e dizer: “Comece por aqui”. Eu havia encontrado pesquisas acadêmicas sérias e brilhantes, mas muitas pressupõem que o leitor já conheça a história, ou se concentram profundamente em apenas um de seus aspectos. Sou produtora de cinema e compreendo o poder da narrativa visual.
Queria oferecer aos leitores um livro que desse vida à história de maneira cinematográfica e visual, independentemente de já conhecerem ou não a Palestina. Meu objetivo era contar, de forma clara e acessível, a história palestina dos últimos cem anos, reunindo os planos, a política e a coerção financeira.
Queria oferecer aos leitores um livro que desse vida à história de maneira cinematográfica e visual, independentemente de já conhecerem ou não a Palestina
Ao escrever “Palestina Revelada” você começou a perceber conexões entre a Palestina e estruturas políticas e econômicas mais amplas do Ocidente. Como compreende essas conexões?
Enquanto escrevia, percebi que a história se conecta naturalmente a muitos aspectos da política ocidental contemporânea e à financeirização extrema do mundo, que cria cada vez mais bilionários enquanto corrói os direitos dos trabalhadores que ajudaram a construir essa riqueza.
Ela também se relaciona à classe de Epstein e ao fato de que as campanhas militares hoje têm acionistas interessados em lucros cada vez maiores. O que acontece atualmente na Palestina diz respeito a algo muito maior do que aquela região: para mim, simboliza uma batalha pela alma do nosso planeta e pela nossa humanidade.
Seu livro mostra que o deslocamento dos palestinos envolveu não apenas a perda de casas e terras, mas também a destruição de aldeias, a mudança de nomes de lugares e tentativas de apagar os vestígios da presença palestina. Por que preservar nomes, documentos, receitas, bordados, fotografias e até as chaves das antigas casas se tornou uma forma de resistência?
Preservar nomes, fotografias e chaves é o único caminho que os palestinos têm para voltar aos mundos que lhes foram roubados, ainda que de uma maneira pequena e emocional. Além disso, o apagamento promovido pelos sionistas colonizadores nunca se limitou à terra: pretendia eliminar todos os aspectos da cultura anterior e, por isso, foi particularmente agressivo.
Aldeias, igrejas, mesquitas, registros e até cemitérios foram destruídos; os que permaneceram receberam novos nomes, como se nem mesmo a memória de um lugar pudesse continuar existindo.
Muitas aldeias onde ocorreram massacres estão hoje soterradas sob parques recém-criados, repletos de pinheiros europeus, para que a nova população colonizadora se sinta mais em casa. Se você muda o nome no mapa ou planta vegetação suficiente, pode contar uma mentira ao mundo e fingir que ninguém jamais esteve ali. Mas a memória e a capacidade de resistência são mais profundas e encontram eco em tantas pessoas que viveram a colonização e, por fim, a libertação.
O que a preservação desses objetos e dessas memórias significou para a sua própria família?
Para minha mãe e minha avó, conservar as chaves era tudo, assim como preservar as lembranças da vida na vila em Jerusalém Ocidental ou na casa em Haifa. Elas se lembravam de como era a cozinha, de onde a família se sentava para as refeições, de como comprava alimentos no mercado e dos azulejos do chão. Quando uma família insiste em manter o dialeto de sua aldeia mesmo depois de várias gerações, ou transmite uma receita ou um padrão de bordado de um lugar específico, está dizendo: estivemos aqui e continuamos aqui.
São coisas pequenas, mas trazem conforto e, mais do que isso, são provas. Uma fotografia, uma escritura, o nome de um olival: cada elemento representa uma recusa a permitir que a história seja reescrita. Acho que é por isso que têm tanto peso para nós. São discretos, mas são nossos, e ninguém pode tirá-los de nós.
Para minha mãe e minha avó, conservar as chaves era tudo, assim como preservar as lembranças da vida na vila em Jerusalém Ocidental ou na casa em Haifa
Você descreve como, antes de 1948, foram elaborados dossiês detalhados sobre centenas de aldeias palestinas, com informações sobre moradores, lideranças locais e vulnerabilidades. Você vê continuidade entre esses arquivos e o uso de sistemas de inteligência artificial para identificar alvos em Gaza?
Vejo uma continuidade absoluta na lógica, embora a tecnologia seja obviamente muito diferente. Bem antes de 1948, foram elaborados dossiês detalhados sobre centenas de aldeias: não apenas sobre quem vivia ali, mas também sobre quem eram os líderes locais, onde ficavam os pontos de entrada e saída – frequentemente bloqueados durante incursões de grupos terroristas sionistas – e quais eram as outras vulnerabilidades.
Pior ainda, os levantamentos eram feitos por “batedores” judeus que se passavam por árabes ou simplesmente por viajantes. Eles se aproveitavam de um código sagrado de hospitalidade profundamente enraizado entre os palestinos. Quero dizer que eram recebidos aonde quer que fossem, tratados como convidados de honra, alimentados e acolhidos justamente pelos palestinos que planejavam expulsar etnicamente.
Esses “Arquivos das Aldeias” ficaram escondidos por décadas nos arquivos israelenses, mas constituem provas excepcionais de que a Nakba foi cuidadosamente planejada para causar o máximo de danos e instaurar o máximo de terror. São informações sobre um povo, reunidas por alguém que planejava o que fazer contra ele.
Como sistemas como o Lavender mudam a maneira como os alvos são selecionados e atacados?
Hoje, as ferramentas são algorítmicas e impessoais. Elas matam sem contato direto, a uma distância asséptica. Os alvos indicados pelo Lavender, por exemplo, são submetidos a uma verificação mínima por soldados das Forças de Defesa de Israel (FDI), geralmente limitada ao gênero. Um alvo do sexo masculino pode ser eliminado em questão de segundos; não há exigência de comprovar que represente algum perigo ou tenha ligação com o que as FDI consideram um grupo de milícia.
A tecnologia também apresenta, segundo o próprio Israel, uma taxa de erro de 10%. Além disso, os alvos são mortos com “bombas burras”, que podem destruir não apenas essas pessoas, mas também suas famílias e qualquer pessoa que esteja nas proximidades. Uma fonte israelense citada no meu livro explicou que os mísseis de precisão são caros demais para serem desperdiçados na proteção de vidas palestinas.
Hoje, as ferramentas são algorítmicas e impessoais. Elas matam sem contato direto, a uma distância asséptica
O que conecta esses dois métodos e quais questões mais amplas eles levantam?
O que conecta os dois métodos é a completa desumanização dos palestinos, tratados como um problema a ser mapeado, categorizado e administrado, em vez de como indivíduos com suas próprias vidas. O método muda, mas a relação permanece: um lado observa e decide; o outro é vigiado e atacado. Eu acrescentaria que o uso crescente desses sistemas de inteligência artificial levanta questões graves que deveriam ser examinadas por todos, no mundo inteiro.
Na minha opinião, os mecanismos de controle empregados na Palestina estão chegando a todos nós, em diferentes graus, enquanto nos mantêm ocupados ganhando a vida para que não tenhamos tempo de questionar a erosão constante da nossa privacidade e independência.
Para a edição brasileira, você escreveu um texto específico que relaciona a experiência palestina aos processos de colonização no Brasil, especialmente aqueles que atingiram os povos indígenas. O que levou você a estabelecer essa conexão?
Infelizmente, o colonialismo de povoamento é um fenômeno mundial, e eu voltava sempre à ideia de que os brasileiros já sabem, profundamente, o que significa ter suas terras roubadas e sua identidade apagada. Os povos indígenas do Brasil passaram pela expropriação, pelo apagamento de sua existência, de seus nomes, tradições e línguas, e por uma luta para manter suas terras. Portanto, esses conceitos e temas não são ideias abstratas para os leitores brasileiros: fazem parte da história do próprio país.
Como seu trabalho com colaboradores brasileiros ajudou a levar o livro aos leitores do Brasil?
Tive muita sorte de me conectar com um grupo excepcional de mulheres, muitas delas brasileiras, organizado por Natasha Castro. Foi por meio desse grupo que conheci Nadejda Marques, uma professora ilustre e um ser humano extraordinário, que gentilmente traduziu Palestina Revelada e me ajudou a encontrar minha maravilhosa editora no Brasil.
O que você espera que os leitores brasileiros reconheçam na história da Palestina, levando em conta que as duas histórias não são idênticas?
As nuances e perspectivas históricas de cada país são específicas, e não estou sugerindo que Brasil e Palestina tenham histórias ou contextos idênticos. No entanto, acredito que seja possível reconhecer experiências compartilhadas: um momento em que um leitor brasileiro possa dizer: “Entendo isso, porque também aconteceu aqui”. Espero que esse reconhecimento funcione nos dois sentidos e fortaleça a solidariedade entre pessoas que sabem o que significa ser despossuído e que continuam se recusando a desaparecer.
Serviço
Livro “Palestina Revelada”, de Hanan Kattan, tradução de Nadejda Marques, prefácio de Breno Altman (Carta Editora, 2026, 384 p., R$ 98,00).
Lançamentos:
29/10 | 18h – São Paulo: Painel e Sessão de Autógrafos na Universidade de São Paulo (USP), coordenado pela Dra. Arlene Clemesha, do Centro de Estudos Palestinos. Local: CEPal-FFLCH/ USP.
30/10 | 19h – São Paulo: Painel e Sessão de autógrafos. Local: Al Janiah Restaurante palestino e centro cultural (R. Rui Barbosa, 269 – Bela Vista, SP).
02/11 | Porto Alegre: Autora convidada da 72ª Feira do Livro de Porto Alegre. Às 17h30 – Debate mediado por Nanni Rios e Mariana Dawas, no auditório Alfredo Augusto Escobar Santos – Clube do Comércio (Rua dos Andradas, 1085 – 2°andar). Às 19h – Sessão de autógrafos na Feira.

