O primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, lidera a apuração das eleições parlamentares realizadas nesta terça-feira (27), mas não alcança a maioria necessária para formar um novo governo. Com 85,6% dos votos contabilizados até esta quarta-feira (28), seu bloco de direita e partidos religiosos soma 53 das 120 cadeiras do Parlamento israelense, enquanto a oposição, liderada pelo ex-general Gadi Eisenkot, aparece com 48. Os partidos de representação palestina podem conquistar os outros 19 assentos, um recorde histórico.
A projeção, divulgada pela Comissão Eleitoral Central israelense, indica que Netanyahu permanece oito cadeiras abaixo das 61 necessárias para governar. O resultado também impede que a oposição forme uma maioria sem negociar com outras forças políticas. A definição do próximo primeiro-ministro dependerá de acordos parlamentares após a conclusão da contagem.
A principal novidade é o desempenho das duas listas de maioria árabe, que representam sobretudo cidadãos palestinos de Israel. A Lista Conjunta, formada por Hadash, Ta’al e Balad, aparece com 12 cadeiras, enquanto o Ra’am, partido de orientação islâmica conservadora, projeta outras sete.
Se confirmadas, as 19 vagas representarão um crescimento de 90% em relação às dez conquistadas por essas legendas em 2022. O resultado também superaria o recorde anterior de 15 parlamentares, alcançado em 2020.
O comparecimento eleitoral chegou a 77,7%, o maior em mais de duas décadas. A elevada participação dos cidadãos palestinos de Israel é apontada pela imprensa local como um dos fatores que explicam o desempenho das duas listas.
A apuração ainda não terminou. Restam votos especiais, incluindo os de militares, reservistas, profissionais de saúde e eleitores que votaram fora de seus locais habituais. A expectativa é que a contagem seja concluída nos próximos dias, com divulgação oficial dos resultados até 4 de novembro.
Netanyahu e Eisenkot reivindicam formação do governo
Apesar de não alcançar a maioria parlamentar, Netanyahu reivindicou o desempenho do Likud, que aparece como o maior partido individual do país. Em pronunciamento após o fechamento das urnas, o primeiro-ministro defendeu a formação de um governo nacionalista de direita e rejeitou qualquer coalizão dependente dos votos de partidos de maioria árabe.
Netanyahu também voltou a destacar as operações militares realizadas por Israel desde outubro de 2023 e mencionou a possibilidade de novas ações contra o Irã em parceria com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.
Nesta quarta-feira, o Likud acusou os partidos árabes de terem fraudado a eleição e pediu uma investigação policial sobre supostas irregularidades, incluindo compra de votos e intimidação. A Comissão Eleitoral Central informou que analisará as denúncias, mas um de seus representantes já havia contestado as alegações de fraude generalizada. Não foram apresentadas provas públicas que sustentem a acusação de que o resultado eleitoral tenha sido fraudado.
Principal adversário de Netanyahu, Eisenkot afirmou que os israelenses votaram pela mudança e pediu que o primeiro-ministro deixasse a política. O ex-general prometeu trabalhar pela formação de um governo sionista e advertiu Netanyahu contra o uso das Forças Armadas para atender a interesses políticos.
Eisenkot comandou as Forças Armadas israelenses entre 2015 e 2019, durante um governo do próprio Netanyahu, que havia aprovado sua nomeação. Também integrou o gabinete de guerra criado após outubro de 2023, deixando o posto em junho de 2024, em meio a divergências sobre a condução da ofensiva contra Gaza.
Apesar da rivalidade, os dois rejeitam a criação de um Estado palestino independente e defendem a manutenção do controle israelense de segurança sobre os territórios ocupados. Eisenkot se diferencia de Netanyahu em questões como a expansão de determinados assentamentos na Cisjordânia, mas também admite o crescimento das colônias autorizadas pela legislação israelense.
Avanço palestino pressiona oposição
O crescimento das listas de maioria árabe coloca seus representantes em uma posição importante nas negociações para a formação do próximo governo. Somadas às 48 cadeiras projetadas para a oposição liderada por Eisenkot, as 19 vagas dessas legendas seriam suficientes para superar a maioria parlamentar de 61 deputados.
A possibilidade enfrenta resistência entre os principais partidos sionistas da oposição, que, durante a campanha, rejeitaram acordos com as forças de representação palestina.
O presidente da Lista Conjunta, Yousef Jabareen, afirmou nesta quarta-feira que as legendas interessadas em retirar Netanyahu do poder precisarão dialogar com sua bancada. A coalizão, que reúne correntes nacionalistas palestinas e setores da esquerda judaica, defende o fim da ocupação e a igualdade de direitos entre cidadãos judeus e palestinos.
Já Yair Golan, presidente dos Democratas, partido de centro-esquerda sionista que projeta oito cadeiras, defendeu que a oposição negocie com a Lista Conjunta e o Ra’am. Golan pretende iniciar conversas com outras lideranças para viabilizar um governo alternativo.
Em entrevista ao programa Conexão BdF, a jornalista especializada em política e economia internacional Flávia Giannini avaliou que a mobilização dos cidadãos palestinos de Israel deve alterar a composição do Parlamento, mas não garante que suas demandas sejam atendidas pelo próximo governo.
“Os partidos árabes podem conquistar força parlamentar sem que os principais candidatos a primeiro-ministro estejam dispostos a incorporá-los ao governo”, afirmou.
A jornalista destacou que esse eleitorado enfrenta problemas que vão além da guerra em Gaza, incluindo discriminação, violência e insegurança em suas comunidades. “A população está se mobilizando, está conseguindo resultados, mas não necessariamente vai conseguir apoio de quem ganhar a eleição”, avaliou.
A participação política dessas forças já havia enfrentado obstáculos durante a campanha. Em setembro, a Comissão Eleitoral Central decidiu impedir a participação da Lista Conjunta e do Ra’am, decisão revertida pela Suprema Corte em outubro.

Mudança de governo não garante nova política para Gaza
O resultado eleitoral também deixa em aberto o futuro da política israelense para os territórios palestinos. Apesar das diferenças entre Netanyahu e Eisenkot sobre a condução do governo e das operações militares, os dois defendem a continuidade do controle de segurança israelense e se opõem à criação de um Estado palestino independente.
Em sua análise ao Conexão BdF, Flávia Giannini afirmou que uma eventual mudança na chefia do governo não significa necessariamente uma transformação na política de Israel para Gaza e a Cisjordânia. “A gente não está falando de um democrata nem de uma pessoa à esquerda”, disse sobre Eisenkot, ao destacar que o ex-general também defende a continuidade de políticas de ocupação.
A eleição ocorre após três anos de ataques contra a Faixa de Gaza e um período de expansão dos assentamentos israelenses na Cisjordânia, um genocídio que matou mais de 74 mil palestinos. O governo Netanyahu também ampliou operações militares em países vizinhos, incluindo o Líbano e a Síria.
Em julho de 2024, a Corte Internacional de Justiça considerou ilegal a presença continuada de Israel no território palestino ocupado e afirmou, em parecer consultivo, que o país tem a obrigação de encerrá-la e interromper novas atividades de colonização.
Para Flávia, a dimensão de uma eventual mudança política deverá ser avaliada principalmente por seus efeitos sobre a população palestina, pelo cumprimento do direito internacional e pelas possibilidades de encerrar o ciclo de ocupação e violência.
Para Flávia, o alcance de uma eventual mudança política deverá ser avaliado principalmente por seus efeitos sobre a população palestina. “A mudança real vai ser medida não pelo próximo primeiro-ministro, mas pelo que acontecer com a população palestina, pelo respeito ao direito internacional”, afirmou.
Enquanto a contagem prossegue, Netanyahu permanece no cargo. Após a publicação dos resultados oficiais, o presidente israelense, Isaac Herzog, consultará os partidos e indicará o parlamentar com melhores condições de formar uma maioria. Caso as negociações fracassem, Israel poderá enfrentar uma nova eleição.

