comunicação política

O Exército do Lula e a revolução da militância digital

Como uma comunidade de 10 milhões de inscritos revelou uma nova forma de mobilização eleitoral e antecipou o futuro

O deputado federal André Janones (Rede) e o presidente Lula (PT) conseguiram multiplicar engajamento nas redes, apesar de tratamento desigual reconhecido pela Meta
O deputado federal André Janones (Rede) e o presidente Lula (PT) conseguiram multiplicar engajamento nas redes, apesar de tratamento desigual reconhecido pela Meta | Crédito: Redes sociais do deputado André Janones

Imagine dez milhões de pessoas conectadas por mensagens em seus celulares. Algumas recebem notícias, outras são convocadas para pequenas missões: compartilhar vídeos, responder a publicações, convidar amigos. Cada participante pode transformar uma mensagem em centenas de outras. Em poucas horas, uma narrativa atravessa o país.

Não é ficção científica. É o Exército do Lula, movimento de mobilização política digital coordenado pelo deputado André Janones, que alcançou dez milhões de inscritos no WhatsApp às vésperas do segundo turno presidencial de 2026.

O fenômeno representa uma transformação na comunicação política: mensagens deixam de ser apenas informações transmitidas a públicos passivos e passam a integrar processos coletivos de interpretação, circulação e mobilização.

A vitória de Lula sobre Flávio Bolsonaro, com 51,79% dos votos válidos, ocorreu num cenário de intensa atividade digital. Não é possível atribuir exclusivamente ao Exército do Lula esse resultado. Mas seu crescimento extraordinário demonstra a escala que novas formas de organização política podem alcançar.

Na militância digital, uma mensagem de texto não termina quando é recebida. É nesse momento que sua trajetória pode começar.

Henry Jenkins antecipou parte desse fenômeno com sua teoria da cultura participativa. Em Cultura da Convergência, mostrou como consumidores deixam de ser receptores passivos e passam a produzir, reinterpretar e distribuir conteúdos.

Isso vale também para áudios e vídeos. Ouvir e assistir não significa necessariamente consumir passivamente. Imagens, falas e narrativas são interpretadas, comentadas, editadas e compartilhadas, adquirindo novos significados ao circular pelas redes.

Manuel Castells oferece outra chave explicativa. Em O Poder da Comunicação, desenvolve o conceito de autocomunicação de massa, demonstrando como indivíduos e grupos organizados em redes digitais podem produzir e disseminar mensagens com alcance potencialmente global, sem depender exclusivamente dos meios tradicionais de comunicação. Essa transformação amplia a capacidade de atores sociais disputarem com instituições estabelecidas o poder de construir significados, influenciar a opinião pública e mobilizar coletividades.

A socióloga Zeynep Tufekci acrescenta uma dimensão decisiva. Em Twitter and Tear Gas, demonstra que as plataformas permitem mobilizações extraordinariamente rápidas, mas alerta: movimentos que crescem sem desenvolver estruturas organizacionais podem enfrentar dificuldades para sustentar suas conquistas.

Essa é uma das principais lições do Exército do Lula. Mobilizar milhões é impressionante. Transformar essa mobilização em participação permanente é o verdadeiro desafio.

Os partidos precisarão incorporar essa lógica ao planejamento estratégico, deixando de tratar as redes sociais como simples instrumentos de propaganda eleitoral. Comunidades digitais, formação de participantes, produção colaborativa de conteúdos e integração com a militância territorial deverão constituir estruturas permanentes de comunicação e participação política.

A inteligência artificial ampliará essas possibilidades, acelerando a produção de mensagens, a análise de comportamentos e a organização de comunidades. Mas também aumentará os riscos de manipulação, vigilância e desinformação.

O Exército do Lula poderá ser lembrado como um marco dessa transformação, não porque dez milhões de inscritos representem dez milhões de votos, mas porque revelou o potencial de uma comunidade política conectada e mobilizada em torno de objetivos comuns.

Nas próximas eleições, a disputa pelo poder também será uma disputa pela capacidade de transformar públicos conectados em comunidades organizadas e duradouras.

A política do futuro não será decidida apenas nos palanques, nos debates televisivos ou nos programas eleitorais. Ela também será construída diariamente nas redes, onde milhões de cidadãos recebem informações, disputam interpretações e podem transformar mensagens em ações.

*C.S. Soares é escritor, jornalista e biógrafo, autor de Machado: O Filho do Inverno (Ação, 2025), obra que resgata o Machado de Assis negro. É criador do Projeto Hiperliteratura, dedicado às transformações da leitura, da escrita e do conhecimento na era digital. Acompanhe seu trabalho em cssoares.online e nas redes sociais: @cssoaresonline.

**Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil de Fato.

Editado por: Vivian Virissimo

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