desde 1992

ONU vota fim do bloqueio a Cuba pela 34ª vez em meio à intimidação dos EUA e endurecimento de sanções

Votação ocorre nesta quarta; chanceler cubano diz ter provas de que EUA ameaçaram países para que não apoiassem texto

O chanceler cubano, Bruno Rodríguez Parrilla, gesticula durante coletiva de imprensa em que denunciou as “ações extremas” dos Estados Unidos para enfraquecer o apoio à votação na ONU contra o bloqueio, em Havana, em 21 de outubro de 2026.
O chanceler cubano, Bruno Rodríguez Parrilla, gesticula durante coletiva de imprensa em que denunciou as “ações extremas” dos Estados Unidos para enfraquecer o apoio à votação na ONU contra o bloqueio | Crédito: Yamil Lage/AFP

A Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU) vota, nesta quarta-feira (28), a resolução que pede o fim do bloqueio econômico, comercial e financeiro imposto pelos Estados Unidos a Cuba. A sessão está marcada para as 10h, no horário de Nova York (11h em Brasília). Apresentada por Havana, a resolução é votada desde 1992 e tem recebido o apoio da ampla maioria dos países. Esta é a 34ª vez que a Assembleia Geral analisa o texto.

No ano passado, a resolução foi aprovada com 165 votos a favor, 7 contra e 12 abstenções. Além de Estados Unidos e Israel, votaram contra Hungria, Argentina, Macedônia do Norte, Paraguai e Ucrânia. O resultado rompeu o apoio unânime que Cuba costumava receber da América Latina, do Caribe e da União Europeia e coincidiu com uma campanha de pressão de Washington sobre outros países, também denunciada por Havana na época.

Neste ano, às vésperas da votação, o governo cubano voltou a denunciar que os Estados Unidos vinham pressionando e ameaçando outros países, havia meses, para que não votassem a favor da resolução. O chanceler cubano, Bruno Rodríguez Parrilla, classificou as ações de Washington como “extremas e sem precedentes” e afirmou que Havana tem provas das intimidações a diversas delegações.

A votação também ocorre em meio ao endurecimento das medidas do governo de Donald Trump contra a ilha. Desde o fim de janeiro, os Estados Unidos mantêm uma política de asfixia energética contra Cuba e ameaçam sancionar qualquer país que “venda ou forneça petróleo” à ilha.

Em maio, a Casa Branca ampliou as chamadas “sanções secundárias”, que ameaçam punir empresas e entidades estrangeiras que mantenham relações comerciais com o Estado cubano, aprofundando o caráter extraterritorial do bloqueio. Em julho, a Assembleia Geral já havia derrotado os EUA e incluído na pauta a denúncia de que o bloqueio está provocando uma crise humanitária na ilha.

‘O senhor mente novamente’

O primeiro dia de debates, na terça-feira (27), terminou com um confronto entre as delegações dos dois países. O momento de maior tensão foi o discurso do embaixador dos Estados Unidos na ONU, Mike Waltz, que afirmou que o “bloqueio não existe”. Waltz também acusou o líder revolucionário Fidel Castro de ter enviado “milhares de homossexuais, cristãos, afro-cubanos e outros para campos de concentração”. A delegação cubana levantou uma questão de ordem, acusou o embaixador de mentir e cobrou que ele se concentrasse no tema em debate.

Depois de uma troca de falas com o presidente da Assembleia Geral, Khalilur Rahman, de Bangladesh, Rodríguez se dirigiu diretamente ao representante estadunidense. “Senhor Waltz, o senhor mente novamente. Espero que tenha um desempenho melhor em seus próximos cargos políticos no Conselho de Segurança Nacional, porque aqui, nas Nações Unidas, seu desempenho é muito fraco. Informe-se melhor sobre o texto que tem em mãos antes de vir lê-lo”, afirmou o chanceler.

Críticas ao bloqueio

No primeiro dia de debates, países como Brasil, China, Canadá, Angola, Rússia, Irã, Etiópia e Gabão condenaram o bloqueio. Em nome dos 121 países do Movimento dos Países Não Alinhados, o representante de Uganda na ONU, Adonia Ayebare, lamentou que as medidas tenham se intensificado nos últimos meses, apesar do apoio da maioria da comunidade internacional ao fim do bloqueio, e classificou as sanções como uma forma de punição coletiva.

A representante do Uruguai, Laura Dupuy Lasserre, falou em nome do Grupo dos 77 mais China (G77+China), a maior coalizão de países em desenvolvimento da ONU. “Os danos diretos e indiretos são enormes em todos os setores críticos da economia, como energia, saúde e agricultura”, afirmou. Segundo ela, o grupo também se preocupa com a ampliação do caráter extraterritorial do bloqueio, especialmente com a aplicação plena do Título III da Lei Helms-Burton.

A diplomata destacou os efeitos humanitários das restrições ao fornecimento de combustível. “A falta de eletricidade e o comprometimento de serviços públicos essenciais afetam hospitais, escolas, sistemas de abastecimento de água e saneamento, transporte público, produção de alimentos e outras infraestruturas críticas”, disse.

Editado por: Geisa Marques

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