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Os significados da vitória de Lula para o futuro do Brasil, do Sul Global e do Mundo

A eleição significou esperança para todos na luta nesse momento contra o avanço da extrema direita em todo mundo

Lula abraça apoiadores durante a comemoração de seu aniversário. 27/10/2026.
Lula abraça apoiadores durante a comemoração de seu aniversário. 27/10/2026. | Crédito: Pablo Porciuncula/AFP)

A virada eleitoral espetacular de Lula no segundo turno das eleições no Brasil contrariou 99% das previsões e probabilidades apontadas pela grande mídia e institutos de pesquisas, que indicavam uma vitória quase certa do candidato da extrema direita. Flávio Bolsonaro já negociava a montagem do seu ministério.

O mundo se surpreendeu quando as urnas foram abertas, pois Lula bateu seu próprio recorde, alcançando 64 milhões de votos, quatro milhões a mais comparado a seu recorde anterior, atingido no segundo turno de 2022. A campanha de Lula conseguiu derrubar a abstenção, como também virou votos em centenas de cidades, mobilizando 10 milhões de eleitores a mais, comparado ao primeiro turno.

Essa vitória aqueceu a esperança de quem está lutando contra a extrema direita em todo mundo, elevou a admiração global à figura lendária de Lula e à resiliência do Partido dos Trabalhadores (PT), instigando a curiosidade sobre como o Brasil conseguiu interromper uma onda reacionária que estava avançando em toda a América do Sul sob o comando da Casa Branca. Ao mesmo tempo, o resultado da eleição presidencial no Brasil reforçou a frente que se articula no Sul Global por meio de parcerias estratégicas para diminuir o poder do império de chantagear e explorar países da periferia. 

Em 2026, a Casa Branca ficou para trás na corrida industrial tecnológica com a China em vários nichos estratégicos, sofreu uma grave derrota militar contra o Irã e agora uma derrota política no maior país da América Latina. Soma-se a esse processo o fato de que a Otan/Ucrânia está longe de retomar o controle da situação no leste europeu, e que a Europa sofre as consequências amargas de uma aposta totalmente equivocada em romper com os russos. Reparem que China, Brasil, Rússia e Irã são países do Brics, o que aponta que essa articulação estratégica de países do sul global está dando demonstrações significativas de força na disputa contra o imperialismo ocidental em distintas dimensões. São estados-nações que estão demonstrando capacidade de impor outro desenho na geopolítica global para o próximo período. 

Mas temos a obrigação de alertar que, na atual etapa histórica reacionária, as respostas do imperialismo ocidental (G7, liderado pelos EUA) serão cada vez mais agressivas, e a instabilidade política será parte do quotidiano dos povos em todo mundo, gerando insatisfação popular permanente, que pode ser capturada em muitos momentos por forças de extrema direita que estão em ascensão. O xadrez global está sendo jogado, reviravoltas acontecem em espaços curtos de tempo, a disputa pelo futuro está em aberto e quem errar na análise concreta da realidade e na elaboração tática poderá ficar pelo caminho… 

Lula Tetra: Brasil em perspectiva

Numa perspectiva conjuntural, precisamos comemorar a vitória no segundo turno da frente ampla formada em torno de Lula, com a predominância de pautas populares (o fim da escala 6×1 foi o carro-chefe) e com mobilização de massas. Esse último elemento precisa ser bem analisado, pois as 64 milhões de pessoas que votaram em Lula expressaram o desejo de futuro da juventude que assumiu a campanha nas ruas e nas redes, mas também o reconhecimento afetuoso de uma velha guarda geracional, que é detentora de uma memória histórica de ter testemunhado como o Brasil mudou para melhor depois dos governos do PT. O êxito da campanha de Lula foi conseguir alertar o povo brasileiro para o perigo de perder ao mesmo tempo a janela do futuro e as conquistas do passado, movendo assim imensas frações da sociedade brasileira para impedir que uma candidatura sem passado e sem futuro sentasse na cadeira da presidência da República com amplos poderes no Congresso e no STF. 

Mas, ao fazermos uma análise não só dos fatos que envolveram a disputa no segundo turno, mas também observarmos, para além da conjuntura imediata, todo o fenômeno, precisamos reconhecer que, embora a extrema direita não conseguiu retomar a presidência do Brasil, eles venceram com uma larga vantagem as disputas mais importantes que estavam colocadas no primeiro turno. 

Se não, vejamos: O PL (sigla liderada pela família Bolsonaro) conquistou o maior número de estados, elegendo 6 governadores. Conseguiu formar a maior bancada partidária da Câmara Federal (121 deputados), aumentando a sua votação para essa casa em 41,9%, saltando de 18,2 milhões de votos para 25,8 milhões em relação a 2022. O Partido Liberal também liderou a votação para as assembleias legislativas, teve 22,7 milhões de votos para deputados estaduais e distritais, um crescimento de quase 70%, ante os 13,4 milhões de votos conquistados em 2022. 

O PT elegeu 4 governadores, e a segunda maior bancada da Câmara de Deputados (70 deputados). Sua votação foi de 13,2 milhões para 14,7 milhões, um aumento de apenas 11%. Ao compararmos o crescimento das bancadas em número de deputados, o PT teve um crescimento de 2 deputados; o PL cresceu 22. Para as assembleias legislativas, o PT obteve em 2022 cerca de 13,4 milhões de votos e aumentou sua votação em 2026 para 15,5 milhões de votos, uma variação de 15%. 

No caso do Senado, o PL novamente liderou, elegendo 19 senadores. No total, a sua bancada fica com 28 senadores. Mas, se somarmos os aliados do mesmo espectro político, eleitos por outros partidos, o número tende a 43 senadores. Lembrando que, com 27 senadores, é possível abrir uma CPI; com 41, se elege o presidente da casa. Com esse mesmo número, é possível barrar uma indicação do presidente ao STF, e com 54 senadores, é possível aprovar o impeachment de um ministro do STF. Reparem que, a depender do tema e dos interesses em questão, o Senado está praticamente interditado para tramitação de projetos do governo, bem como as condições para uma ofensiva golpista estão mais facilitadas. 

Os números mostram um avanço avassalador da extrema direita em todas as estruturas de poder legislativo do país entre 2022 e 2026. O que não nos autoriza dizer que a vitória de Lula foi uma “revolução democrática” que enterrou a extrema direita no país; pelo contrário, o levante que proporcionou a virada no segundo turno foi uma façanha defensiva da resistência à extrema direita, que evitou momentaneamente o avanço de uma contra-revolução que ainda está em curso. Até porque o resultado eleitoral do segundo turno revela que o Brasil segue dividido politicamente e que metade da sociedade brasileira deliberadamente quis entregar o país para o candidato de Trump. 

Então não é difícil prever que os próximos quatro anos serão de tensões, turbulência e dificuldades para garantir a governabilidade. Lula foi reeleito, mas a correlação de forças no Congresso Nacional piorou substancialmente. Enquanto escrevemos esse artigo, a patronal aliada da extrema direita iniciou um movimento para demitir trabalhadores petistas. Além disso, a notícia de que Flavio Bolsonaro fugiu para os EUA já está em toda a imprensa brasileira. Até agora o presidente Donald Trump não reconheceu oficialmente o resultado das eleições no Brasil e todos os sinais emitidos apontam que a família Bolsonaro, em parceria com o governo estadunidense, vai trabalhar permanentemente para desestabilizar o governo brasileiro, criando um ambiente de golpismo latente. 

A situação colocada indica que não haverá paz no Brasil. A polarização ainda está na ordem do dia. O governo vai ser obrigado a organizar uma articulação ampla no Congresso, que tem custos políticos desagradáveis para aprovar projetos. Mas não poderá contar somente com movimentações institucionais; será absolutamente necessário organizar um plano de mobilização permanente nas ruas e nas redes. A experiência bem-sucedida do canal “Exército do Lula” precisa ser incorporada ao cotidiano do governo, em conjunto com a participação popular. Assim como o processo de mobilização em torno do fim da escala 6×1 também foi um diálogo muito exitoso do governo com a classe trabalhadora brasileira, uma frente ampla, liderada pela esquerda, precisa atuar em unidade permanente com Lula na presidência, em torno de pautas populares que têm a simpatia das amplas massas para conseguir colocar o congresso na defensiva. Isso significa que figuras ligadas à articulação nas redes e com movimentos populares nas ruas, como Janones e Guilherme Boulos, precisam fazer parte do próximo governo para aprimorar o poder de comunicação e mobilização. Como também, as bancadas dos partidos de esquerda precisam ter a maturidade política em saber fazer o bom combate, mas com a flexibilidade tática necessária para proteger o governo de derrotas fatais. 

Na dimensão estratégica que envolve um projeto de futuro para o desenvolvimento do país, o governo Lula precisa focar em programas que avançam na superação da dependência tecno-industrial do Brasil, para gerar milhões de empregos especializados com bons salários. Isso significa ampliar e fortalecer as atuais missões do programa Nova Indústria Brasil em parceria com países do Sul Global, incluindo a construção de uma infraestrutura digital nacional para competir com as plataformas estrangeiras. O país que criou o PIX pode também desenvolver redes sociais e plataformas para comércio e logística com qualidade igual ou superior às que operam hoje no país e que estão interferindo em nossas questões internas para satisfazer os interesses americanos. 

Dar hierarquia à questão nacional e saber envolver o povo brasileiro na defesa de nossos recursos naturais e de nossa soberania será outro desafio que não poderá falhar. Isso também significa envolver nessa frente ampla em construção, setores das forças armadas e da segurança pública, simpaticos à construção de um projeto nacional para o país, ainda que hoje essas frações militares sejam minoritárias. Não podemos negligenciar por mais nenhum minuto a elaboração de uma política que dialogue com setores das forças militares “não bolsonaristas” da ativa e da reserva para iniciativas comuns, construindo uma nova relação que crie as condições não só para projetos de desenvolvimento nacional, mas para isolar ou mitigar qualquer possibilidade de reações golpistas influenciadas pela Casa Branca. 

A posição do Brasil no tabuleiro global

Como já assinalamos, Lula venceu a eleição presidencial, mas terá que lidar com um congresso ainda mais hostil, com um numero imenso de parlamentares alinhados com os interesses estadunidenses e da grande burguesia brasileira. Mas como se não bastasse, a situação fica ainda mais preocupante, pois o Brasil está políticamente isolado na America Latina, contando com poucos governos aliados. Será praticamente impossível articular a curto prazo um movimento de integração regional capaz de fazer frente aos interesses do imperialismo ocidental na região. Pelo contrário, o Brasil está ainda mais vulnerável a possíveis ofensivas que podem desestabilizar politicamente o país no proximo periodo, o que nos obriga a buscar articulações ainda mais sólidas para além da America Latina. 

A próxima presidencia do Brics estará sob a liderança da China, gerando uma expectativa promissora para o avanço de projetos que podem fortalecer as relações entre os países do Sul Global. O proximo governo Lula precisa se apoiar nessa articulação para acumular forças no cenário internacional, mas também para impulsionar iniciativas de cooperação que impulsione o desenvolvimento tecnoindustrial do Brasil. Estamos diante de muitas ameaças perigosas, mas também de janelas de oportunidades únicas no tempo histórico em que vivemos, no qual podemos ampliar nossa capacidade de liderar nichos economicos estratégicos na fronteira tecnológica e diminuir a drenagem de riqueza que sai do Brasil para enriquecer o norte global. Ampliando as oportunidades de gerar mais qualidade de vida para o povo brasileiro, especialmente para as novas gerações que desejam arrancar alegria do futuro. 

Nos próximos dias, teremos o resultado eleitoral em países que formam o núcleo dirigente do imperialismo ocidental ( EUA e Israel). Donald Trump e Beijamim Netanyahu vão estar sob o julgamento de estadunidenses e israelenses, protestos significativos são vistos nas ruas desses dois países, expressando que a insatisfação popular cresceu, mas não é possível afirmar se o resultado será desfavorável ao ponto de bloquear as iniciativas desses países no cenário global. Além disso, no final de novembro haverá também eleições na Espanha, que é um dos poucos países europeus que tem questionado os abusos dos EUA, os absurdos promovidos por Israel e as guerras promovidas pela Otan. A eleição de Lula no Brasil significou esperança para todos que estão lutando nesse momento contra o avanço da extrema direita em todo mundo. Esperamos que os ventos da resistência que sopraram no Brasil possam inspirar vitórias que ajudem a modificar o tabuleiro global e impor derrotas ainda mais expressivas para as forças que comandam o imperialismo. 

* Gibran Jordão é historiador, mestrando do programa de história comparada da UFRJ e analista de geopolítica. 

Editado por: Gia Matheus Almeida

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