O futuro que Vírus Carinhoso quer ajudar a construir com sua música tem uma referência dentro de casa: Joia, seu filho de 2 anos. Ao pensar na infância de uma criança negra no Brasil, o artista baiano encontra perguntas que atravessam tanto suas escolhas políticas quanto as composições de “Karkará”, disco em que reúne experiências de luto, paternidade e aproximação com a própria ancestralidade.
“Que infância quero dar para o meu filho?”, questiona, em entrevista à Rádio Brasil de Fato. “Enquanto criança negra, penso obviamente em como o racismo vai atravessar a vida dele, em que lugar a luta contra o racismo vai estar para a gente dar uma vida com dignidade para esses jovens e crianças negras que estão crescendo e vão herdar o nosso mundo.”
Criado no Subúrbio Ferroviário de Salvador, Vírus leva essa preocupação para um trabalho que combina sonoridades como pagodão baiano, samba-reggae e rap. As músicas aproximam sua história familiar de questões coletivas: o direito da juventude negra ao futuro, a presença das culturas africanas na formação de sua identidade e as condições para produzir arte a partir do território onde vive.
O álbum também marca uma mudança na relação do músico com o próprio trabalho. Depois de atravessar o luto pela morte da mãe e de um irmão, ele conta que precisou rever expectativas e crenças sobre sua produção e o mercado musical. Transformar essas experiências em música foi parte desse processo.
“Foram pensamentos que eu tive e que são inerentes a qualquer pessoa que tem perdas como essas, mas que eu precisava ressignificar e trazer para a minha arte de alguma forma.” Para o artista, o novo ciclo se define pela autonomia para produzir e pela busca de coerência entre o que vive, o que defende e o que canta.
Pais e filhos
A paternidade aparece no disco em duas perspectivas. Em “Carta aos Ancestrais”, Vírus escreve como pai, dirigindo versos a quem veio antes dele, ao filho e às gerações que ainda virão. A composição nasce de uma experiência pessoal, mas foi pensada para permanecer como um registro que seus descendentes possam encontrar.
“Essa é uma música para a posterioridade mesmo, sabe? Para quando eu tiver meus 60 anos e meu neto ou bisneto ouvir e falar: ‘Olha o que meu avô estava falando lá atrás’. A intenção é muito essa.”
Já em “Sunsum”, parceria com Sued Nunes, ele revisita sua experiência como filho e a relação com Xangô. Criado pela mãe, o músico conta que conheceu o pai, mas não teve sua presença constante. Caçula da família, encontrou nos irmãos e nos tios outras referências de cuidado.
A aproximação com uma religião de matriz africana, entre a adolescência e a juventude, ampliou essa compreensão da paternidade. A espiritualidade passou a fazer parte da maneira como reconhece os vínculos que o constituem.
“Durante a minha vida, ressignifiquei a paternidade em vários lugares”, afirma. “Comecei a me aproximar da religião de matriz africana e percebi que também tinha pai perante a minha espiritualidade.”
Essa busca por referências ancestrais também orientou a construção do álbum. Segundo Vírus, os adinkras, símbolos de origem Akan que expressam conceitos e valores, funcionaram como uma bússola durante a criação. Cada música foi associada a um deles.
O encontro entre símbolos e canções aconteceu por caminhos diferentes. Algumas faixas já estavam compostas quando o artista identificou uma relação entre seus versos e os significados dos adinkras. Outras nasceram da pesquisa sobre esses símbolos.
“Teve outras que nasceram a partir do ‘Adinkra’: vi o que significava e parei para compor a música pensando nisso. Os adinkras vieram muito no intuito de dar uma direção para esse lugar ancestral.”

Direito ao futuro
Em “Quando o Negro Voar”, o olhar para as próximas gerações encontra a denúncia da mortalidade da juventude negra. Para Vírus, tornar-se pai deu outra dimensão a uma preocupação que já fazia parte de sua vida e de sua atuação artística.
O músico relaciona o enfrentamento ao racismo às possibilidades concretas de uma criança crescer com dignidade. Ao falar sobre a disputa presidencial, explica que pensou na duração de um mandato a partir da idade do filho: quatro anos representam uma parte decisiva de sua infância.
“Meu filho tem 2 anos, daqui a 4 anos ele vai ter 6. É uma grande parte da infância dele.”
A preocupação individual se conecta, em sua avaliação, à defesa da democracia, da soberania e do futuro do país. Na música, esse posicionamento se traduz no compromisso de denunciar a violência e contribuir para que outras gerações encontrem condições diferentes das que marcaram sua trajetória.
“Quando faço uma música denunciando a mortalidade de jovens negros e pergunto quando o negro vai voar, é a minha forma de colaborar para que isso não continue e cesse em algum momento.”
O artista reconhece que o racismo não desaparecerá em poucos anos, mas defende a necessidade de agir sobre suas consequências no presente. A expectativa é que o filho e outras crianças negras possam crescer sem repetir as experiências de violência e exclusão vividas por quem veio antes.
“O meu compromisso enquanto artista e agente cultural é esse: denunciar, mostrar e propor mudanças a partir disso.”
Ao explicar seu apoio a Lula, Vírus também destaca o papel das políticas públicas na vida da população baiana e na possibilidade de realizar projetos culturais. Como exemplo, cita a turnê de “Karkará”, que, segundo ele, teve apoio do Fazcultura, programa do governo da Bahia.
“São esse tipo de políticas públicas que fazem diferença na vida do jovem negro e do agente cultural.”
Bahia diversa
A Bahia que Vírus apresenta em “Karkará” reúne referências que nem sempre cabem em uma única classificação musical. Depois de um show em São Paulo, ele ouviu de uma pessoa da plateia que era difícil identificar se a apresentação era rock, pagodão, samba-reggae ou uma mistura de tudo isso. A dúvida correspondia justamente à proposta do trabalho.
“É mostrar essa diversidade criativa dentro da Bahia, mostrar que a gente não faz uma coisa só, né? A gente não faz só axé, só pagodão ou só samba-reggae.”
O músico entende essa experimentação como uma forma de dar continuidade à produção de quem veio antes. As referências do território aparecem a partir de sua escuta como soteropolitano e dos encontros que marcaram sua trajetória.
“Na minha produção musical, busco sempre trazer a identidade sonora da Bahia, mas com a minha cara, com o que eu gosto enquanto soteropolitano. Eu gosto dessa mistura e mesclagem de ritmos, isso me atrai na produção musical.”
As participações de Urias, Sued Nunes e Vandal seguem uma lógica semelhante. Segundo Vírus, são artistas que admira e com quem mantém relações que ultrapassam o trabalho em estúdio. A escolha de cada parceria esteve ligada tanto à história compartilhada quanto ao que a música pedia.
“Para além da parceria artística, são pessoas com quem troco, converso e falo sobre a vida. Para mim, fez muito sentido ser cada um ali em cada música específica.”
Em “Aya”, a colaboração com Urias surgiu depois de uma mudança de planos. A cantora havia sido convidada para outra faixa, que acabou ficando fora do disco. Enquanto isso, Vírus retomou uma composição antiga e começou a experimentar um arranjo no violão.
Acostumado a produzir em programas de áudio, ele conta que aquela foi a primeira música de sua autoria que conseguiu tocar no instrumento. A experiência renovou sua vontade de gravá-la. Depois, encaminhou a ideia a um instrumentista profissional, responsável por desenvolver o arranjo, e convidou Urias para cantar o refrão.
O encerramento do álbum fica com “Letrado Baiano”, ao lado de Vandal. Depois de compartilhar experiências tão pessoais, o artista prefere deixar aberta a maneira como cada ouvinte vai se relacionar com as canções.
“A arte tem esse poder da singularidade: ser algo singular, mas que afeta as pessoas de forma plural. Eu posso ter escrito um verso com uma intenção explícita, mas, quando você escuta, sente outra coisa.”
Para os palcos, Vírus anuncia a continuidade da circulação do trabalho pelo interior da Bahia, com passagens por Juazeiro, Alagoinhas e Cachoeira, e a presença de convidados especiais. Para quem encontra o disco, o convite é construir uma relação própria com aquilo que ele compartilha: “Então escute o que você sente e leve para você.”

