VOZES E TERRITÓRIOS

Tambor é símbolo de identidade, memória e resistência para comunidade negra, destaca Nina Fola

Percussionista e pesquisadora destaca o papel do instrumento na cultura e na educação de jovens negros

A pesquisadora e percussionista Nina Fola é a convidada do podcast “Igualdade e Cultura Negra, Vozes e Territórios”, apresentado por Iya Vera Soares
A pesquisadora e percussionista Nina Fola é a convidada do podcast “Igualdade e Cultura Negra, Vozes e Territórios”, apresentado por Iya Vera Soares | Crédito: Katia Marko

O tambor ocupa um lugar central na preservação da memória, da identidade e dos conhecimentos das comunidades negras. A avaliação é da pesquisadora e percussionista Nina Fola, convidada do podcast “Igualdade e Cultura Negra, Vozes e Territórios”, iniciativa que reúne debates sobre a história, a cultura e as lutas da população negra no Rio Grande do Sul.

O sexto episódio, com o tema Tambores sagrados: comunicação e resistência, vai ar nesta quinta-feira (29), às 19h. Apresentado por Iyá Vera Soares, o programa pode ser assistido no YouTube da TV Josimo, do Brasil de Fato RS e nacional e no Vida no Sul. O podcast também será exibido nas sextas-feiras, às 11h, na TV Mais.

Durante a conversa, Nina Fola destacou que sua relação com os tambores ultrapassa a dimensão musical. Para ela, dentro da tradição de matriz africana, o tambor é compreendido como um ser de axé e um elemento de comunicação entre diferentes dimensões da existência.

“Ele não é um instrumento, ele é um ente, ele é como nós, ele é um ser de axé”, afirmou a percussionista. Segundo Nina, o toque do tambor possui uma dimensão comunitária e está ligado não apenas às pessoas, mas também aos ancestrais e à própria tradição.

A pesquisadora também esclareceu que há uma distinção entre seu papel como percussionista e a função ritual do alabê. Nina diz que, apesar de conhecer e praticar vários toques, sua conexão com o instrumento está ligada à sua formação como mulher de terreiro e ao aprendizado constante dentro da tradição.

O tambor é descrito não apenas como um objeto de natureza espiritual, mas também como um meio de comunicação histórica. Antes do surgimento de tecnologias como celulares e GPS, o som dos instrumentos auxiliava as pessoas a encontrar os locais onde os batuques ocorriam. Nina acredita que essa habilidade de comunicação evidencia o poder do tambor como um meio de ligação entre a comunidade e o território.

Instrumento de educação

Outro ponto destacado pela percussionista foi o potencial educativo do tambor, especialmente para crianças e jovens negros. Segundo Nina, a musicalidade pode ser utilizada como ferramenta de aproximação das novas gerações com suas comunidades, suas histórias e suas tradições.

Ela argumenta que músicas, idiomas, mitos, fábulas, cantigas e a prática musical em si podem ajudar a reforçar a identidade de crianças e jovens. A proposta também surge como alternativa ao distanciamento provocado pelo uso excessivo das telas e pela falta de contato presencial com as comunidades.

A discussão também abordou a relação entre educação, escola e terreiro. Nina ponderou que o tambor não necessariamente precisa ser levado para dentro da escola como objeto religioso, mas que a instituição de ensino pode aprender com formas de transmissão de conhecimento presentes nas comunidades tradicionais.

Para ela, práticas como cantar, dançar, tocar e aprender coletivamente podem contribuir para novas formas de aprendizagem. No terreiro, segundo a pesquisadora, diferentes conhecimentos não são necessariamente separados em disciplinas, mas trabalhados de maneira integrada.

Conhecimento ancestral e universidade

Nina também falou sobre sua trajetória acadêmica, que inclui mestrado e doutorado. Segundo ela, sua formação universitária foi importante para desenvolver técnicas de pesquisa, leitura e escrita, mas os conhecimentos sobre sua tradição foram construídos principalmente ao longo de décadas de vivência no terreiro.

A pesquisadora defendeu que os conhecimentos das comunidades tradicionais não devem ser considerados inferiores ao conhecimento acadêmico. Para ela, os terreiros preservaram saberes que resistiram à violência colonial e continuam sendo espaços de educação, pertencimento e construção de identidade.

Nesse contexto, Nina também chamou atenção para episódios históricos e contemporâneos de violência contra comunidades de terreiro. Ela citou a apreensão de tambores e afirmou que ainda existem casos de invasão e violência contra terreiros por parte do Estado.

Para a percussionista, fortalecer esses espaços é também uma forma de combater o racismo religioso e ampliar a autoestima de crianças e jovens negros. Os terreiros, segundo ela, podem oferecer acolhimento, identidade e perspectivas de vida para as novas gerações.

Resistência cultural

Ao longo do episódio, o tambor aparece como símbolo de resistência diante das tentativas históricas de deslegitimar práticas e conhecimentos de matriz africana. Nina defende que as próprias comunidades devem encontrar maneiras de atualizar suas práticas sem abandonar seus fundamentos.

A pesquisadora resume essa perspectiva ao defender o tambor como uma ferramenta capaz de contribuir para a transformação social. Para ela, a valorização dos conhecimentos tradicionais pode ajudar a questionar estruturas de discriminação e ampliar o reconhecimento da cultura negra na sociedade.

O projeto Igualdade e Cultura Negra: Vozes e Territórios é uma realização do Instituto Cultural Padre Josimo (ICPJ), por meio do Termo de Fomento nº 973281 do Ministério da Igualdade Racial do Governo Federal, com correalização do Brasil de Fato RS. Em 12 episódios, percorre temas como visão de mundo africana, saúde pública, mudanças climáticas, ervas medicinais, economia solidária, cooperativismo negro, cultura ancestral e educação de matriz africana. Cada programa parte de uma conversa com uma convidada ou convidado que atua diretamente com o tema abordado, unindo vivência de terreiro, produção acadêmica e militância política.

Editado por: Katia Marko

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