Um ano depois da Operação Contenção nos complexos da Penha e do Alemão — a ação policial com o maior número de mortes da história do país —, as apurações conduzidas no Rio de Janeiro continuam sem responder à pergunta central sobre o massacre que deixou 121 mortos em outubro de 2025: quem planejou e autorizou as ordens que resultaram no rastro de sangue na zona norte carioca?
Em 17 de dezembro de 2025, o Núcleo de Controle Externo da Atividade Policial do Ministério Público Federal no Rio de Janeiro (MPF/RJ) enviou a Representação nº 01/2025 ao Procurador-Geral da República. O documento pede formalmente a abertura de um Incidente de Deslocamento de Competência (IDC) no Superior Tribunal de Justiça (STJ) para transferir inquéritos e processos para a esfera federal.
O parecer assinado pelo MPF mostra que o próprio Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro (MPRJ) tem uma limitação direta de imparcialidade no caso: promotores do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) estiveram presentes nas reuniões de planejamento tático da operação, na Sala de Comando e Controle. Como participou do desenho da ação, o órgão estadual enfrenta um conflito para apurar a responsabilidade da cúpula do governo.
Além disso, a Defensoria Pública teve o acesso negado ao Instituto Médico-Legal (IML) durante as primeiras perícias nos corpos, o que impediu o acompanhamento independente dos exames.
Apesar da gravidade dos fatos apontados pelo MPF, a representação aguarda uma decisão final da Procuradoria-Geral da República (PGR), em Brasília, sem que o pedido tenha sido levado ao STJ.
Projeções eleitorais
Para o diretor técnico da Rede de Atenção a Pessoas Afetadas pela Violência de Estado (Raave), Guilherme Pimentel, a investigação precisa alcançar os articuladores da Operação Contenção e não os desvios individuais de conduta. “Os comandantes políticos dessa operação precisam ser incluídos, para sabermos o que foi ordenado, o que estava sendo dialogado, isso precisa ser incluído e somente as investigações federais serão capazes de incluir as cadeias de comando”, defendeu em entrevista ao Brasil de Fato. A Raave é a principal autora do pedido de federalização ao MPF.
Para Pimentel, a finalidade da operação foi eleitoral e esses objetivos foram alcançados. Classificada pelo governo estadual como um “sucesso de segurança pública”, a megaoperação serviu de vitrine política para os principais nomes envolvidos na sua coordenação.
Os ex-secretários de Polícia Civil e de Polícia Militar do governo Cláudio Castro — Felipe Curi (PP) e o coronel Marcelo de Menezes (PL) — usaram ostensivamente a operação durante a campanha eleitoral de 2026. Curi conquistou uma vaga na Câmara dos Deputados com 133.626 votos, enquanto Menezes foi eleito deputado estadual com 46.700 votos. O delegado Bernardo Leal (PP), que atuava na Divisão de Repressão a Entorpecentes (DRE) e acabou ferido durante a incursão, também garantiu um mandato na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj), obtendo 57.254 votos.
Juntos, os chefes da operação somaram cerca de 237 mil votos. Movimentos sociais e entidades como a Iniciativa Direito à Memória e Justiça Racial (IDMJ-Racial) apontam que o resultado consolida um quadro de “policialização da política”, em que operações altamente letais são exploradas para angariar votos, enquanto a rotina de violência em territórios periféricos é tratada com naturalidade pelo eleitorado.
Perguntas sem resposta e indícios de execuções
As autoridades estaduais justificam a falta de imagens decisivas alegando que as baterias dos equipamentos descarregaram durante a ação na Serra da Misericórdia, de acordo com reportagem da Agência Brasil. Ainda assim, a apuração oficial no Rio já colheu 255 depoimentos de policiais e analisou mais de 4 mil horas de gravações das câmeras corporais, o caso segue sem conclusão.
Do total de 121 mortos laudos e vídeos gravados por moradores, incorporados ao pedido do MPF para federalização, indicam situações incompatíveis com um confronto comum:
- Corpo decapitado: Registros em vídeo mostram o cadáver de Yago Ravel Rodrigues Rosário localizado na mata com a cabeça decepada e presa a um galho de árvore. Moradores relataram que ele havia se rendido antes dos disparos.
- Marcas de tortura: Fotos captadas na comunidade mostram um corpo com os dedos cortados e registros de um policial civil carregando um facão de grande porte no colete durante a operação.
- Mortes sob custódia: Vídeos gravados durante o resgate do delegado ferido mostram um homem algemado já sem vida em um beco. Em outro ponto da mata, mais de 15 pessoas aparecem rendidas sob controle da tropa; horas depois, o mesmo local registrava corpos empilhados.
- Investigação contra moradores: Em vez de isolar o local das mortes, o Estado deixou dezenas de corpos na área verde. Quando os próprios moradores recolheram os mortos para a Praça São Lucas, a Polícia Civil abriu inquérito na 22ª DP para investigar a comunidade por “fraude processual”. A medida foi criticada pela Organização das Nações Unidas (ONU), que atribuiu o problema à omissão das autoridades na preservação da cena dos crimes.
O relatório do MPF inclui ainda a Convenção Americana sobre os Direitos Humanos (CADH), incorporada pelo Decreto nº 678/92. A convenção determina que toda pessoa detida deve ser conduzida à presença de um juiz e sua liberdade pode ser condicionada a garantias que assegurem o seu comparecimento em juízo. No entanto, o documento lembra que apenas 17 prisões, entre as 99 realizadas, estavam entre os 100 mandados de prisão expedidos.
O impacto nas famílias
Para além das travas judiciais, a falta de respostas afeta diretamente a rotina das famílias dos mortos. A psicóloga e professora na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) Aline Hoepers destaca que o abandono institucional agrava a dor de mães e companheiras.
“A escuta sensível que realizamos junto às mulheres acompanhadas pela Raave expõe o quanto o sofrimento vivido por elas é intensificado pelo desamparo estatal — seja pela ausência e morosidade das respostas, seja por discursos que proclamam as chacinas como operações de sucesso”, disse a também integrante da Raave ao Brasil de Fato.
Hoepers enfatiza que a dor compartilhada dessas mulheres se transforma em mobilização por direitos e memória. “Elas manifestam não apenas uma dor singular pela perda de um ente querido, mas também uma dor coletiva e compartilhada, que clama por justiça diante dessas violências. Por tudo isso, a federalização se traduz como uma rota juridicamente importante para produzir celeridade e seriedade, além de proporcionar maior amparo a essas famílias”, defende.
A reportagem procurou o Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro, o Ministério Público Federal e a Procuradoria Geral da República para se manifestarem e não houve retorno até o fechamento desta matéria. O espaço segue aberto para manifestação.

