A vitória de Luiz Inácio Lula da Silva no segundo turno das eleições 2026 preserva a trajetória de um Brasil que decide seu destino e participa da construção de uma ordem internacional menos desigual.
Para mim, a vitória sobre Flávio Bolsonaro representa também uma derrota do projeto de subordinação da política externa brasileira às prioridades dos Estados Unidos e de “Israel”. As urnas renovaram a responsabilidade de transformar autonomia diplomática em desenvolvimento, solidariedade e defesa da paz.
Segundo o Tribunal Superior Eleitoral, Lula recebeu 64.256.232 votos, equivalentes a 51,79% dos válidos, contra 59.826.041 de Flávio, ou 48,21%. A vantagem foi de 4.430.191 votos. No primeiro turno, o presidente havia ficado atrás, com 45,16% diante dos 47,03% do adversário. A reversão dessa desvantagem expressa a capacidade de reação de uma candidatura que voltou a mobilizar a sociedade e ampliou sua votação em mais de 10 milhões de votos entre os turnos.
A vitória de Lula fortalece uma política externa comprometida com o Sul Global, voltada para a ampliação de parcerias econômicas, científicas e culturais, e a defesa de instituições internacionais que representem melhor os países em desenvolvimento.
O fortalecimento do Brics ocupa posição central nessa estratégia. Na presidência brasileira do grupo, em 2025, a cooperação do Sul Global e a reforma da governança internacional estiveram entre as prioridades, com o novo mandato oferecendo as condições para aprofundar essa agenda, ampliar alternativas de financiamento ao desenvolvimento e promover cooperação tecnológica.
Entre brasileiros que votaram em países do Brics, Lula venceu na China continental, com 73,67%, e na Rússia, com 64,52%. Também foi majoritário na Índia, no Irã e no Egito, onde alcançou 78,95%. Não houve vitória uniforme no bloco: Flávio Bolsonaro venceu na África do Sul e nos Emirados Árabes Unidos. Esses resultados expressam escolhas de eleitores brasileiros, não das populações ou dos governos desses países.
Na Palestina, o resultado adquiriu significado político especial. Lula conquistou mil votos, ou 95,60%, contra apenas 46 de Flávio. Embora o voto tenha múltiplas motivações, vejo nessa preferência tão expressiva uma afinidade com a defesa dos direitos palestinos sustentada pelo presidente.
Em “Israel”, Flávio, defensor do alinhamento ao governo genocida de Benjamin Netanyahu, recebeu 699 votos (80,8%) contra 166 de Lula (19,2%), evidenciando o contraste entre os dois eleitorados brasileiros.
Relações brasileiras
A relação de Lula com a Palestina tem história. Em 2010, seu governo reconheceu o Estado palestino nas fronteiras de 1967. Como examino em meu livro “Palestina: do mito da terra prometida à terra da resistência”, reconhecer a autodeterminação palestina significa tratar esse povo como sujeito de direitos e de soberania.
Diante da devastação de Gaza, Lula denunciou o genocídio palestino, condenou a cumplicidade das potências ocidentais e exigiu uma reação internacional. Ao enfrentar a impunidade de “Israel”, reafirmou que nenhum Estado está acima do direito internacional.
O novo mandato de Lula deve fortalecer essa posição e convertê-la em iniciativas diplomáticas, comerciais e militares mais efetivas. A solidariedade precisa produzir consequências políticas para enfrentar a impunidade do regime sionista, que permite a continuidade da violência, e sustentar o direito palestino à liberdade e à soberania.
O Mercosul é outro eixo indispensável. O Brasil terá maior capacidade de negociação internacional se fortalecer a integração com seus vizinhos, desenvolver cadeias produtivas regionais e ampliar a infraestrutura que conecta nossos países.
Essa orientação também permite ao Brasil contribuir para a mediação de conflitos. Nossa força diplomática depende da credibilidade para conversar com partes adversárias, apresentar propostas e sustentar o direito internacional. A paz requer iniciativas que reduzam tensões e protejam populações atingidas pelas guerras.
O esforço brasileiro em torno do programa nuclear iraniano demonstra essa possibilidade. Em 17 de maio de 2010, Brasil, Turquia e Irã firmaram a Declaração de Teerã. A proposta previa o depósito de 1.200 quilos de urânio pouco enriquecido iraniano na Turquia, em troca de 120 quilos de combustível para o reator de pesquisas de Teerã, utilizado para fins médicos. O entendimento procurava criar confiança e abrir caminho para uma solução negociada.
A declaração não resolveu o contencioso e é distinta do acordo nuclear de 2015. Demonstrou, porém, que países do Sul Global podem formular alternativas diplomáticas para impasses internacionais. Essa experiência deve inspirar novos esforços pela negociação, pela não proliferação e pelo uso pacífico da energia nuclear.
A vitória de Lula deve abrir uma nova etapa de afirmação soberana. Vai fortalecer o Brics e o Mercosul, ampliar a cooperação com o Sul Global e transformar a solidariedade à Palestina em ação política.
A solidariedade à Palestina e o diálogo com o Irã integram uma política externa que deve servir à soberania brasileira e à construção da paz. O mandato renovado precisa transformar essa possibilidade em ação.
*Sayid Marcos Tenório é historiador e analista de geopolítica do Oriente Médio, fundador do Instituto Brasil-Palestina (Ibraspal) e autor de “Palestina: do mito da terra prometida à terra da resistência”.
**Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil de Fato.

