A fuga de Flávio Bolsonaro (PL) para os Estados Unidos e a carta golpista divulgada nesta quarta-feira (28), na qual ele se intitula “presidente eleito”, são uma combinação que não pegou bem nem mesmo para aliados. Legendas como União Brasil e PSD divulgaram posicionamentos, ratificando o resultado das eleições e afastando qualquer tipo de ilação de fraude nas urnas. O presidente do PL, Valdemar Costa Neto, também reprovou a carta de Flávio, reconheceu a vitória de Lula e afirmou: “Queremos tocar o país para frente.”
Ao Conexão BdF, da Rádio Brasil de Fato, o cientista político Paulo Roberto de Souza destaca o isolamento de Flávio, parafraseando um jargão de 2018 que ficou bastante conhecido na esquerda quando Jair Bolsonaro venceu: “Soltaram a mão do Flávio”. Souza destaca também um prenúncio da disputa do espólio do bolsonarismo, como a declaração do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), de que “é preciso respeitar o resultado das urnas”, já se movimentando para o centro e se apresentando como caminho possível para a direita em 2030.
O analista pondera que, como era previsto, o perdedor das eleições fosse Lula ou Flávio, iria enfraquecer o seu campo político. “Já temos quase um consenso no PL e nos aliados, notadamente Tarcísio de Freitas, dizendo que as eleições são limpas. A família Bolsonaro não vai deixar de ser tão importante nesse ciclo ainda. Com certeza, o candidato da direita em 2030 vai precisar ter ainda alguma legitimação da família Bolsonaro, que vai diminuir, mas ficará em torno de 15% desse eleitorado. Mas é fato que perdem protagonismo e poder de decisão”, avalia.
Na visão de Souza, o grande desafio da direita é formar lideranças democráticas e competitivas. “O PSD do Kassab tentou fazer isso com Ratinho Jr. e Eduardo Leite. No final das contas, tomou uma rasteira do Caiado, que não podemos dizer que é um exemplo de grande democrata. Tarcísio foi outra aposta do Kassab, mas se mostrou muito mais fiel ao bolsonarismo”, avalia.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) chamou de “vergonhosa” a postura de Flávio, mas optou por se afastar do caso e disse confiar que a Justiça irá resolver. Para o cientista político, Lula buscou arrefecer os ânimos.
“É uma postura de desintoxicação do discurso que apareceu por parte da extrema direita, de que atuação contra o bolsonarismo no Judiciário são de aliados do presidente Lula. Todas as encrencas produzidas pela extrema direita — por exemplo, a tentativa de golpe do 8 de janeiro — foram lidas as condenações como se aliados do Lula tivessem feito a condenação. O caso do INSS e do Banco Master, eles [bolsonaristas] também dizem que é um problema do governo Lula, mesmo ele combatendo”, argumenta.
Trump não é eterno
Segundo Eduardo Ribeiro Moreira, professor de direito constitucional na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), os desdobramentos jurídicos sobre as ações de Flávio Bolsonaro passam pela relação com o governo Donald Trump e pelo fato de que o senador abandonou o país com seu mandato ainda vigente. “O presidente daquele país, Donald Trump, tem exercício de soberania e pode classificar a entrada dele [Flávio] de diversos tipos. Então, não devemos nos ater ao tipo de asilo que pode ser concedido, porque ele pode modificar o status depois de acordo com a legislação americana”, avalia.
Com relação ao exercício de senador, o professor observa que, não apenas pela ausência no Congresso, mas pelo teor da carta escrita, ele poderá perder o cargo.
“A carta passa a mensagem de que a gente vive em um regime de exceção, fato inequivocadamente sem lastro algum, já que a democracia brasileira, com todos os seus tropeços, sobrevive na regularidade constitucional plena nos seus quase 40 anos”, reforça.
O especialista alerta que, daqui a dois anos, com as eleições presidenciais estadunidenses, esse cenário poderá sofrer uma mudança drástica, e isso poderá impactar não apenas Flávio, como o irmão dele, Eduardo Bolsonaro, e os foragidos Alexandre Ramagem e Willer Tomaz. “Uma eventual mudança na eleição dos EUA, o status de proteção desses foragidos da justiça brasileira pode modificar. Não é algo seguro em termos de longevidade. Claro que dificulta o trabalho da Justiça brasileira, mas os processos seguem. Nesse momento, o ex-candidato Flávio Bolsonaro encontra-se na condição de investigado”, destaca.
Moreira também não acredita em uma mudança substancial na relação diplomática entre Brasil e EUA. “A relação entre os dois países transcende esse acobertamento das autoridades que passaram lá viver, e é uma matéria muito sensível para os cuidados do Itamaraty e para os órgãos americanos responsáveis”, afirma.
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