O governo do Catar negou, nesta quinta-feira (29), ter financiado atividades destinadas a interferir nas eleições parlamentares de Israel e acusou aliados do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu de promover uma campanha de desinformação. A reação ocorre depois que o Likud, partido do premiê israelense, passou a apontar suspeitas de envolvimento do Catar e da Turquia na mobilização de eleitores árabes, que ampliaram sua representação no Parlamento.
“Negamos categoricamente as alegações de que o Catar tenha interferido nas eleições israelenses ou financiado quaisquer atividades destinadas a influenciar seus resultados”, afirmou Majed al-Ansari, porta-voz do Ministério das Relações Exteriores catari.
Em comunicado, Al-Ansari criticou a utilização do país nas disputas políticas internas israelenses. “Acusam o Catar de comprar Benjamin Netanyahu, a esquerda política israelense e, agora, nesta última campanha, o voto árabe. Se essas alegações fossem verdadeiras, o Catar aparentemente seria dono de todo Israel”, ironizou.
O episódio ocorre em meio a outra investigação envolvendo o Catar, conhecida como Qatargate. Assessores próximos de Netanyahu são investigados por suspeitas de receber recursos para promover interesses cataris enquanto trabalhavam no gabinete do primeiro-ministro. Segundo a imprensa israelense, pagamentos milionários teriam sido realizados por atividades de relações públicas.
O porta-voz classificou as acusações de interferência como “ridículas e perigosas” e afirmou que o país não deve ser utilizado como bode expiatório para os fracassos políticos de dirigentes israelenses. Também cobrou que o próximo governo respeite o direito internacional e reconheça a autodeterminação palestina, incluindo a criação de um Estado independente nas fronteiras de 1967, com Jerusalém Oriental como capital.
As acusações surgiram após as eleições de terça-feira (27), nas quais os partidos de maioria árabe que representam principalmente os cidadãos palestinos de Israel registraram um crescimento expressivo. Com mais de 94% dos votos apurados, a Lista Conjunta e o Ra’am projetavam juntos 19 das 120 cadeiras do Knesset, o Parlamento israelense, contra dez conquistadas em 2022.
Apesar de o Likud aparecer como a maior legenda individual, o bloco de Netanyahu alcançava apenas 53 assentos, abaixo dos 61 necessários para formar governo. O principal grupo de oposição, liderado pelo ex-general Gadi Eisenkot, somava 48, tornando os partidos de representação palestina importantes para as negociações parlamentares.
Justiça determina investigação, mas polícia contesta denúncias de fraude
Nesta quinta-feira, a imprensa israelense informou que o Likud suspeita que recursos provenientes do Catar e da Turquia tenham financiado organizações responsáveis por estimular a participação eleitoral dos cidadãos árabes. O partido não apresentou publicamente provas do envolvimento dos dois países.
O presidente da Comissão Eleitoral Central, juiz Noam Sohlberg, determinou que o Shin Bet, serviço israelense de segurança interna, investigue suspeitas de financiamento estrangeiro e possível compra de votos. Em carta encaminhada ao diretor da agência, David Zini, o magistrado classificou as informações recebidas como graves, mas ressaltou que sua veracidade ainda não havia sido comprovada.
A determinação judicial não identifica Catar ou Turquia como responsáveis por irregularidades. A investigação deverá verificar se houve financiamento ilícito de atividades eleitorais, sem que isso signifique, por si só, a existência de fraude na contagem ou manipulação generalizada dos votos.
Segundo o jornal israelense Haaretz, autoridades policiais consideraram infundadas as acusações mais amplas do Likud de que os partidos árabes teriam roubado a eleição. A direção da Comissão Eleitoral também afirmou não ter conhecimento de irregularidades sistemáticas que comprometessem a votação.
O Likud, por sua vez, classificou o suposto financiamento estrangeiro como um ataque à democracia israelense e acusou os partidos de maioria árabe de tentar promover uma tomada de controle do Parlamento com apoio externo.
Gadi Eisenkot, principal adversário de Netanyahu nas eleições e ex-chefe das Forças Armadas israelenses entre 2015 e 2019, defendeu a apuração de qualquer suspeita de interferência estrangeira, mas advertiu contra a utilização política das denúncias para atrasar a posse do novo Parlamento, prevista para 10 de novembro.
Já Yair Golan, também ex-general e líder dos Democratas, partido de centro-esquerda sionista que integra a oposição, acusou Netanyahu de tentar deslegitimar o resultado eleitoral e criticou a contestação dos votos dos cidadãos palestinos.
Representantes da Lista Conjunta, aliança de partidos palestinos e da esquerda judaica, também denunciaram as acusações como uma tentativa de questionar a participação política dessa população.
Irã e Hezbollah também comentam futuro de Israel
Além da reação do Catar, outros atores políticos do Oriente Médio se manifestaram sobre as eleições israelenses, realizadas após três anos de massacre na Faixa de Gaza e em meio à continuidade das operações militares de Israel em países vizinhos.
Na segunda-feira (26), véspera da votação, o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores iraniano, Esmaeil Baghaei, afirmou que o resultado não alteraria a posição de Teerã sobre Israel. “Não faz diferença para nós quem, nessas eleições, assume o comando de um regime que não trouxe nada além de violência e massacres à nossa região”, declarou, segundo a agência AFP.
Baghaei também acusou Israel de cometer genocídio contra a população palestina e afirmou que o Irã continuará acompanhando os acontecimentos e defendendo seu território diante de eventuais ataques.
No Líbano, o secretário-geral do Hezbollah, Naim Qassem, afirmou na quarta-feira (28) que o movimento não considera relevante quem assumirá o governo israelense. “Não nos preocupamos com quem governa Israel, mas deve ficar absolutamente claro que não pode continuar sua ocupação e deve deixar nossa terra”, declarou, também segundo a AFP.
Qassem reiterou que o Hezbollah não aceitará discutir seu desarmamento enquanto Israel mantiver a ocupação de território libanês e realizar ataques contra o país.
Israel mantém posições militares no sul do Líbano e continua realizando operações na região. O país também ampliou sua presença militar em território sírio e participou de ataques contra o Irã ao lado dos Estados Unidos.

