ATAQUE À CULTURA

Em Petrolina (PE), festival cultural é vítima de boicote de patrocinador e cria vaquinha online

O festival Beira de arte urbana está mantido e pede apoio; evento acontece desta sexta-feira (30) ao domingo(1º)

Durante o Beira Festival 2025, a grafiteira baiana Octa fez uma homenagem à artista popular Ana das Carrancas
Durante o Beira Festival 2025, a grafiteira baiana Octa fez uma homenagem à artista popular Ana das Carrancas | Crédito: Instagram da artista Octa

Um encontro de música, artes visuais e artesanatos para fortalecer o ambiente criativo no Vale do São Francisco. Essa é a proposta do Beira, festival que realiza sua 2ª edição nesta sexta-feira (30), sábado (31) e domingo (1º de novembro). As organizadoras estavam nos últimos ajustes quando receberam a notícia: uma das patrocinadoras decidiu retirar o apoio como forma de “punir” as produtoras por declararem apoio à reeleição de Lula (PT). Em Petrolina, 140 mil (67,8%) dos eleitores votaram pela continuidade do governo Lula, mais que o dobro dos 66,5 mil (32,2%) que votaram em Flávio Bolsonaro (PL).

Derrotados, bolsonaristas iniciaram uma campanha de perseguição, desfinanciamento e demissão contra trabalhadores, estabelecimentos e eventos de quem pensa diferente, sendo o Beira uma das vítimas deste movimento. A artista e produtora cultural conhecida como Kamaleoa, publicou nas redes sociais um trecho da mensagem recebida pela ex-patrocinadora responsável pela sonorização. “‘Estamos cancelando o apoio ao festival por causa do cenário político e pelo resultado das eleições’, foi a resposta que uma das patrocinadoras nos deu. (…) Não podemos colocar as nossas diferenças políticas acima da nossa humanidade, empatia e respeito”, reclamou a artista.

Ela continuou, comparando a movimentação bolsonarista a movimentos similares do passado, como o nazi-fascismo europeu. “Estamos vendo um movimento sistêmico de perseguição, boicote e demissão de pessoas que votaram em Lula. Não podemos normalizar algo que sabemos onde vai dar. Isso já aconteceu na Alemanha e na Itália [nos anos 1930 e 1940] e sabemos qual é o nome”, denuncia Kamaleoa. Nota divulgada no perfil do festival destaca que o Beira é um festival de arte “independente, realizado de forma comunitária e coletiva, com pessoas da região que acreditam na força da cultura hip hop e da arte”.

A solução encontrada pelos organizadores foi uma vaquinha online na plataforma Apoia.SE (clique aqui) com meta de R$ 12 mil, dos quais já foram arrecadados R$ 10,5 mil, restando apenas mais R$ 1.500. As doações sugeridas são de R$ 2 (sem premiação), R$ 50 (neste caso ganha um pacote de adesivos do festival), R$ 100 (agradecimento na ficha técnica do festival) e R$ 300 (nome no mural de honra do evento).

Também foi anunciada a iniciativa de uma feijoada com bingo, a ser realizada no domingo de encerramento das atividades. Pelo valor de R$ 35, as pessoas ganham feijoada e uma cartela para concorrer aos prêmios. As cartelas extras custam R$ 10. São seis prêmios: uma tatuagem no valor de até R$ 200 (Carla Tattoo); uma banda de carne de bode junto a uma grade de cerveja; um kit de duas camisas da loja Muralhashop; um kit de camisa e boné (Muralhashop); um quilo de queijo coalho e 500 ml de mel; e um voucher de R$ 50 em açaí ou sorvete (Supremus Açaiteria). O bingo acontece no domingo (1º), a partir das 11 horas, na praça do residencial Jardim São Paulo.

O grupo Careta Menina, de Juazeiro (BA), é formado apenas por mulheres e é um dos grupos de cultura popular que se apresenta no Beira Festival, em Petrolina (PE)
O grupo Careta Menina, de Juazeiro (BA), é formado apenas por mulheres e é um dos grupos de cultura popular que se apresenta no Beira Festival, em Petrolina (PE) | Crédito: Bárbara Guedes / Beira Festival

O Beira é um festival internacional de arte urbana cuja programação é totalmente gratuita e concentrada nos bairros de João de Deus e Jardim São Paulo, ambos na periferia de Petrolina. Os murais e grafittis criam uma galeria a céu aberto que fica de legado no território. Ao longo de três dias acontecem batalhas de MCs e de break dancing, shows musicais, performances artísticas e cortejos da cultura popular, feira de arte e artesanato com valorização de artista locais e oficinas gratuitas de grafitti e desenho. O festival se anuncia como um lugar de “encontro, criatividade e cultura feita pelo povo e para o povo”.

Programação

Nesta sexta-feira (3), o festival realiza oficinas de desenho realista com o artista Ravenko, pela manhã (9 horas ao meio-dia); e de grafitti com o coletivo Oxente Trip, à tarde (14 horas às 17 horas), ambos na praça da Juventude do João de Deus. No mesmo bairro, mas no Instituto Federal (IF Sertão), acontece a mesa de abertura do evento, com o tema “resistir na beira: arte, coletividade e caminhos para além das políticas públicas”, com contribuições de Graciele Castro, Jackson Vicente, Kamaleoa e Sávia Rodrigues, mediados por Lys Valentim.

No sábado, tanto na praça da Juventude (João de Deus) e na praça do residencial Jardim São Paulo, os artistas iniciam suas pinturas de murais a partir das nove da manhã. Às 15 horas têm início as batalhas de break e de MCs acompanhadas pelo DJ Ômega. Simultaneamente, mas às 16 horas, tem início a feirinha de artes e artesanatos. Às 16h30 acontece um encontro de performances artísticas, transformando o espaço público em palco para “Maria Pitú” (encenada por Fernanda Luz), “Incorporo a Proteção” (Lys Valentim), “Lar de Idades” (Mel Nascimento) e “Moreré na Piracema” (Oraci Terra).

As apresentações musicais no sábado iniciam às 18 horas, com Katarina Laviny e o Sertão Pé Quente; seguidos por Ramone MC e Thress MC às 19 horas; Baile Adubado tocando às 20 horas; Maripoza às 21 horas; e Cabelo de Serpente se apresentando a partir das 22 horas, para encerrar a noite. No domingo (1º), um cortejo a partir das 16h30 reúne o Batuque Mulher, a Careta Menina, o grupo mexicano Morena Morena, o Boi Virado e o Bacuri. Às 18h30 se apresenta o Coco Barra de Saia; seguido, às 19h30, pelo Coco Kaaporã; às 20h30 tem a Batalha de Tag; e o show de encerramento do festival é com o Samba di Malê (a partir das 21h30).

Editado por: Vinícius Sobreira

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