O uso da linguagem da cultura pop com a entrada dos fandoms foi elemento importante na campanha do segundo turno do presidente reeleito, Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Com eles, a comunicação atingiu de forma viral e eficiente o público jovem. Os fandoms (reinos de fãs, em tradução livre) são versões digitais dos fã-clubes, comunidades formadas por pessoas que compartilham uma paixão por um tema, livro de ficção, artista, celebridade ou influencer.
Logo após o primeiro turno, em que Flávio Bolsonaro (PL) superou Lula, diversos perfis de fandoms que acumulam milhões de seguidores colocaram suas redes à disposição da campanha do presidente.
Ao É de Manhã, da Rádio Brasil de Fato, Adriana Amaral, professora, pesquisadora da Universidade Federal Fluminense (UFF) e coordenadora do Laboratório Cultpop, avalia que, na história da luta política, não é a primeira vez que a juventude encabeça mobilizações, mas que, agora, há um elemento novo que é o ambiente digital. “A gente lembra lá do Maio de 1968, da luta pelos direitos civis, isso já era uma prática. Se a gente pensar, por exemplo, em festivais de música como o Woodstock, sempre teve uma articulação entre a cultura popular daquele momento, da juventude e a política. Só que agora a gente tem a partir dessa organização dos fandoms, na internet, a partir do final dos anos 1990”, afirma.
Amaral conta que, quando identificou o movimento logo após o primeiro turno, ela e sua equipe se debruçaram sobre o fenômeno, que virou um relatório recém-lançado sobre o envolvimento dos fandoms na eleição presidencial.
A pesquisadora destaca que as comunidades são bastante heterogêneas com relação à visão de mundo, mas que, no caso do Brasil e nessas eleições, houve uma unificação em torno de uma causa. “Quem dominou isso foram os fandoms de música, especificamente o fandom do BTS, que é muito importante pela mobilização, que eles já veem nas letras de música, no que o grupo passa, e também os fandoms de divas pop, que também são artistas mulheres que se posicionam”, explica.
Adriana Amaral também aponta que esses grupos são formados majoritariamente por mulheres e minorias em direitos, como LGBT+ e pessoas negras. “Essas pessoas entenderam que as questões de identidade delas são identidades políticas também. Então, essa coalizão entre identidade, cultura e política fez todo sentido na cabeça das pessoas e gerou essa mobilização”, avalia.
Segundo a professora, a organização digital dos fandoms acontece há muito tempo em torno das agendas dos artistas que os unem nessas comunidades. O Exército do Lula, criado pelo deputado federal André Janones (Rede-MG), inclusive, usou algumas dessas técnicas que a professora define como “gamificação” aplicada à política. “São esses processos de bônus, de pontos, de tarefas: ‘Ah, hoje a tarefa, a missão é tal’. Isso é muito da cultura dos games, dessa cultura do digital. Eu tenho aqui o aplicativo da academia, eu tenho o aplicativo de fazer o curso de inglês, e todos eles funcionam por essa tática de gamificação”, explica.
Para ouvir e assistir
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