MEMÓRIA A SALVO

Justiça do Trabalho devolve 1,4 mil fotografias restauradas a famílias atingidas pela enchente no Vale do Taquari

Fotos encharcadas pela cheia de 2023 foram recuperadas por servidores da Divisão de Perícias e entregues em Encantado

Participantes da cerimônia de entrega posam com os álbuns de fotografias restauradas, na Vara do Trabalho de Encantado
Participantes da cerimônia de entrega posam com os álbuns de fotografias restauradas, na Vara do Trabalho de Encantado | Crédito: TRT-RS

Famílias de Encantado, Roca Sales, Lajeado e Arroio do Meio receberam, na sexta-feira (23), 1.483 fotografias restauradas pela Justiça do Trabalho gaúcha. As imagens tinham sido danificadas pela água e pela lama da enchente de setembro de 2023 no Vale do Taquari. A cerimônia de entrega ocorreu na sede da Vara do Trabalho de Encantado, e o trabalho foi conduzido pela Divisão de Perícias do Tribunal Regional do Trabalho da 4ª Região.

O acervo reúne registros de casamentos, batizados, aniversários e encontros de família. Segundo o Tribunal, muitas das imagens são as únicas lembranças visuais de pessoas falecidas ou de casas destruídas pelas águas. As famílias receberam as fotografias em formato impresso, em álbuns, e em formato digital, em pendrive.

Famílias acompanham a cerimônia de entrega das fotografias restauradas, na Vara do Trabalho de Encantado | Crédito: TRT-RS

A enchente e as fotos no meio do barro

A tragédia que atingiu o Vale do Taquari em setembro de 2023 deixou 51 mortos e 108 municípios afetados, segundo boletim da Defesa Civil do Rio Grande do Sul de 5 de outubro daquele ano. O mesmo balanço registrava 22.283 pessoas desalojadas. O Ministério Público do Rio Grande do Sul, em relatório sobre sua atuação em 2023, contabiliza 52 mortes.

Foi nesse cenário que Mariana Fachini voltou à casa da família, em uma das cidades atingidas. “Quando cheguei à casa depois da enchente, foi um choque. A gente precisava pular por cima das coisas que estavam espalhadas na rua para conseguir chegar até a casa. Parecia uma cena de guerra. “Quando chegamos, quase nada tinha sobrado, até a garagem havia caído”, relata.

No meio da destruição, ela encontrou pratos da avó, já falecida, e passou a recolher o que não estava quebrado. “Foi quando comecei a encontrar fotografias no meio do barro. Eu pegava todas as que conseguia encontrar e colocava em uma sacola plástica que tinha comigo, com a esperança de conseguir lavá-las e salvar pelo menos algumas lembranças da nossa família”, conta.

A campanha e a coleta

Segundo o chefe da Divisão de Perícias, Marcelo Lucca, a ideia surgiu logo depois das cheias, durante as mobilizações que arrecadavam roupas, alimentos e material de construção. A equipe, que trabalha diariamente com documentos e tratamento de imagens, avaliou que essa competência técnica poderia servir às vítimas. “Roupa e comida se repõem. A fotografia do avô, do casamento ou do primeiro aniversário do filho não tem segunda via”, afirma.

A iniciativa teve autorização da Presidência do Tribunal e apoio da Corregedoria Regional e da Secretaria de Comunicação Social, que divulgou a campanha na região. As unidades da Justiça do Trabalho de Lajeado, Encantado, Estrela, Nova Prata e Bento Gonçalves passaram a receber o material, acondicionado em caixas e envelopes fornecidos pelo próprio Tribunal e encaminhado a Porto Alegre.

Mariana e a mãe souberam da campanha por uma publicação no Facebook e levaram as fotografias encontradas no barro até Encantado. Em poucos dias, o Tribunal recebeu mais de 2.300 fotografias, de acordo com Lucca, e precisou encerrar a coleta para conseguir tratar cada imagem com cuidado. O material foi entregue por cinco pessoas, cada uma representando um conjunto maior de familiares e amigos de diferentes cidades do Vale do Taquari. Uma mesma caixa chegava a reunir imagens de várias gerações e de várias casas.

Mariana Fachini mostra as fotografias restauradas da família, entre elas imagens da avó e da tia, ambas falecidas | Crédito: TRT-RS

Como as imagens foram recuperadas

A restauração teve duas etapas. A primeira foi física: as fotografias foram lavadas com água destilada, esterilizadas sob luz ultravioleta e secas naturalmente em sala de baixa umidade, procedimento que interrompe a degradação e elimina fungos e bactérias. Na segunda, cada imagem foi digitalizada em alta resolução e reconstruída por meio de editores de imagem e de recursos de inteligência artificial.

Todos os 12 servidores da Divisão de Perícias participaram, de forma direta ou indireta, segundo Lucca. O trabalho ocorreu nas janelas de agenda, como atividade complementar à rotina pericial, sem deslocar ninguém de suas funções, e somou o equivalente a cerca de seis meses de horas de trabalho. As perícias dos processos judiciais seguiram em andamento normal durante todo o período, informa o Tribunal.

Não houve tempo padrão de restauração. Nos casos mais simples, a fotografia precisava apenas de higienização, digitalização e pequenos ajustes, o que se resolvia em minutos. Nos mais complexos, com perda de emulsão, manchas de lama e rasgos, a reconstrução de uma única imagem consumiu horas, e algumas passaram por mais de uma rodada de revisão.

O papel da inteligência artificial

Segundo Lucca, a inteligência artificial foi usada para tarefas como remover manchas, recompor pequenas áreas perdidas, recuperar nitidez e corrigir cores desbotadas. “A inteligência artificial entrou como ferramenta, não como autora”, afirma. Ele explica que, quando um rosto, um objeto ou um fundo estava perdido por completo, a equipe não pediu à ferramenta que imaginasse o conteúdo. Essas fotografias foram classificadas como não recuperáveis.

A fidelidade às imagens originais, de acordo com o chefe da Divisão, foi garantida pela revisão humana. Cada imagem processada foi comparada, detalhe por detalhe, com a digitalização original, feita antes de qualquer intervenção e preservada como referência. Lucca lembra que a Divisão trabalha identificando imagens manipuladas em processos judiciais. “O critério, em cada caso, foi devolver o que a foto era, e não o que ela poderia ter sido”, diz.

As fotografias que não puderam ser restauradas

Das mais de 2.300 fotografias recebidas, 1.483 foram recuperadas. As demais chegaram em estado em que a imagem já não existia. Segundo Lucca, a água e a lama dissolveram a emulsão fotográfica, a camada que carrega a imagem, e em muitos casos restou apenas o papel-base, manchado ou colado a outras fotos. “Não se trata de limitação de técnica ou de ferramenta; a imagem simplesmente deixou de existir”, explica.

Essas fotografias também foram higienizadas, secas e acondicionadas, e voltaram às famílias em uma caixa própria. Para a Divisão, o pedaço de papel continua sendo um objeto da história de cada família, e cabe a ela decidir o que fazer com ele.

A cerimônia

A entrega contou com a presença da corregedora regional, desembargadora Maria Madalena Telesca. “Nenhuma iniciativa é capaz de apagar a dor ou reparar todas as perdas causadas por aquela tragédia, mas cada gesto de solidariedade e de cuidado pode contribuir para a reconstrução”, declarou. Lucca, por sua vez, resumiu o sentido do trabalho: “Não eram apenas papéis danificados, eram memórias de uma vida inteira, e elas confiaram a nós a tarefa de tentar salvá-las”.

Também estiveram presentes o secretário adjunto de planejamento urbano de Arroio do Meio, Rodrigo Valentim; a vice-presidente da subseção da Ordem dos Advogados do Brasil em Encantado, Clarice Bos Conzatti; a secretária de governança de Encantado, Sabrina Dadalt Guedes; e a diretora-geral do Tribunal, Rejane Carvalho Donis.

Mariana Fachini enviou as fotos sem avisar a família. “Fiquei muito feliz e emocionada, porque a gente já não tinha nenhuma esperança de conseguir recuperar aquelas fotografias”, conta. Ela relata que, ao chegar à cerimônia, não imaginava a recepção, com jornalistas e pessoas querendo entrevistá-la, e por isso precisou contar à família o que tinha feito, para que todos assistissem à reportagem na televisão. “Meu pai ficou muito emocionado com a notícia. Foi uma surpresa para todos nós”, diz.

“Fiquei muito feliz e emocionada, porque a gente já não tinha nenhuma esperança de conseguir recuperar aquelas fotografias”, conta Mariana Fachini | Crédito: TRT-RS

Nas imagens recuperadas aparecem, segundo ela, “praticamente toda a nossa família, desde os meus bisavós até parentes mais distantes”, incluindo a avó e a tia, já falecidas. “Essas fotografias representam tudo para nós. A nossa família sempre gostou muito de tirar fotos, e tínhamos muitas. Adorávamos sentar juntos e olhar os álbuns, relembrar os momentos e recordar as histórias por trás de cada fotografia”, relata. Para ela, receber as imagens de volta “ajuda a matar um pouquinho da saudade” e é “como ter de volta um pedacinho da nossa história, da nossa família e de pessoas que continuam sendo muito importantes para nós, mesmo não estando mais aqui”.

O que vem a seguir

Segundo Lucca, a próxima etapa é institucional. A Divisão pleiteia que o Tribunal transforme a experiência em um programa permanente, para que o serviço de recuperação de fotografias e documentos pessoais possa ser acionado sempre que uma localidade for atingida por evento climático com decreto de situação de emergência ou de calamidade pública. Ele afirma que, em 2023, a procura superou a capacidade da equipe, e a coleta precisou ser encerrada em poucos dias.

O trabalho também deixou resultados dentro da Divisão. “Os servidores aprenderam a usar ferramentas em uma experiência prática para chegar a esse resultado. As famílias recebem de volta as suas memórias e o Tribunal recebe uma equipe mais qualificada”, afirma Lucca. Segundo ele, o tratamento de imagens digitais faz parte do cotidiano pericial e exige atualização constante, e os servidores saem do projeto mais preparados para as demandas de prova digital dos processos.

Editado por: Katia Marko

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