A derrota eleitoral de Flávio Bolsonaro (PL) para Luiz Inácio Lula da Silva (PT) desencadeou uma onda de acusações de fraude, discursos antidemocráticos e apelos à intervenção dos Estados Unidos entre apoiadores da extrema direita brasileira. Nesta quarta-feira (28), o senador desembarcou em Miami, na Flórida, com a esposa e as duas filhas, após deixar o Brasil e descumprir uma determinação do Supremo Tribunal Federal (STF) para entregar seus passaportes à Polícia Federal.
Flávio cruzou a fronteira com a Argentina por terra na noite de terça-feira (27), embarcou em um avião particular com destino ao Equador e seguiu para os Estados Unidos. A chegada ocorreu às 10h24, no aeroporto executivo de Opa-locka, na região de Miami. A viagem aconteceu depois de o senador afirmar publicamente que permaneceria no Brasil para organizar a oposição ao governo Lula.
Nos EUA, o senador divulgou carta se auto declarando o verdadeiro presidente eleito do Brasil e questionando o resultado das urnas. Na sequência, voltou atrás na auto declaração como presidente, mas seguiu sem reconhecer o resultado.
O resultado das urnas foi anunciado no domingo (25), quando Lula venceu o segundo turno com 51,79% dos votos válidos, contra 48,21% de Flávio, uma diferença de aproximadamente 4,4 milhões de votos. O candidato derrotado, no entanto, anunciou que não reconheceria o resultado e que pediria a anulação da eleição, alegando irregularidades relacionadas à decisão do ministro Cristiano Zanin, do STF, de estender o horário de votação até as 19h em razão de problemas no deslocamento de eleitores.
Da certeza da vitória à acusação de fraude
Monitoramentos de grupos de WhatsApp, comentários no Instagram e vídeos no YouTube, reunidos pelo Brasil de Fato MG por meio do Radar Mevo, nos dias da eleição, mostram a mudança de discurso entre apoiadores da direita ao longo da votação e da apuração.
Antes do encerramento das urnas, a vitória de Flávio era tratada como certa. Ao votar em Belo Horizonte, o deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) afirmou que sequer cogitava a possibilidade de derrota e projetou um resultado de 54% a 46% para seu candidato.
A decisão de estender a votação, contudo, mudou o tom das mensagens. Segundo o levantamento, as menções a termos como “golpe”, “roubo” e “fraude” nos grupos de direita passaram de 7,3 para 74,1 por mil mensagens. A decisão foi associada a supostas manobras do ministro Cristiano Zanin e comparada, em publicações, a medidas adotadas na Venezuela de Nicolás Maduro.
Durante a apuração, a expectativa de vitória deu lugar a justificativas sucessivas para a derrota. Inicialmente, apoiadores afirmavam que ainda faltava a contagem dos votos do Sul. Em seguida, as mensagens passaram a responsabilizar o Nordeste pelo resultado, até que começaram a circular questionamentos sobre as urnas e pedidos para anular o pleito.
Após o resultado, pedidos de “anulação” se multiplicaram
Após o resultado, as menções à palavra “anulação” se multiplicaram por cinco nos grupos monitorados. No YouTube, vídeos sobre supostas fraudes eleitorais e irregularidades nas urnas acumularam 7,3 milhões de visualizações no período analisado, contra 800 mil visualizações na base de comparação de três dias.
Apelos à força e mobilização nas ruas
A reação também incluiu mensagens que colocavam em dúvida a legitimidade das eleições e defendiam saídas fora das regras democráticas. Entre 18h24 e 19h32 do domingo, circularam em grupos de direita três textos, afirmando que não haveria saída democrática pelo voto e que “só resta o caminho da força”, com referências às Forças Armadas ou à mobilização popular.
Outras mensagens convocaram a população a parar o país caso Flávio perdesse, mencionaram a possibilidade de guerra civil e questionaram a atuação dos militares. Nos comentários de publicações de Carlos Bolsonaro, Gustavo Gayer e do advogado Jeffrey Chiquini, o levantamento identificou manifestações na mesma direção.
Apesar da circulação desse conteúdo, o monitoramento também registrou mensagens pedindo que os apoiadores não seguissem agitadores e afirmando que ninguém queria repetir os atos de 8 de janeiro de 2023. As menções à fraude cresceram após o resultado, mas não houve aumento equivalente nos chamados para manifestações de rua, nas referências às Forças Armadas ou aos caminhoneiros.
Na segunda-feira (26), a contestação eleitoral ganhou novos contornos, com a circulação de mensagens que pediam um “protesto pacífico” pela anulação da votação.
Nikolas Ferreira concentra engajamento
Nas redes sociais, Nikolas Ferreira se destacou como um dos principais porta-vozes da reação bolsonarista. Segundo o levantamento, quatro publicações do deputado no Instagram somaram 13,6 milhões de curtidas no período analisado. Entre elas, estavam postagens com as frases “Isso é urgente mesmo” e “O Brasil não vai ceder”.
Nos comentários, usuários passaram a pedir ajuda ao presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, com mensagens como “Trump help”, além de comparações entre o Brasil e a Venezuela.
Estados Unidos entram no centro da reação
Com a derrota eleitoral e a contestação do resultado, os Estados Unidos passaram a ocupar espaço central no discurso de apoiadores de Flávio Bolsonaro. Mensagens sobre Trump e o governo norte-americano se multiplicaram nos grupos monitorados, enquanto usuários do Instagram passaram a pedir publicamente a intervenção do presidente dos EUA.
A chegada de Flávio a Miami deu uma dimensão concreta a essa aproximação. Na terça-feira (27), o Departamento de Estado norte-americano afirmou que permitiria a entrada do senador e de seus familiares e que concederia vistos aos quatro. Trump também declarou que autorizaria a entrada da família, embora tenha afirmado inicialmente não saber onde o senador estava.
A viagem ocorreu após uma decisão do ministro Alexandre de Moraes, do STF, que determinou a entrega dos passaportes de Flávio no âmbito de uma investigação sobre suspeita de lavagem de dinheiro envolvendo o senador e o advogado Willer Tomaz. Ambos negam irregularidades. A Polícia Federal cancelou os documentos após o descumprimento da ordem judicial.
Base bolsonarista reage à saída do senador
Em grupos públicos de apoiadores de Bolsonaro no Facebook, a notícia da chegada de Flávio aos Estados Unidos provocou reações contraditórias. Parte dos usuários tratou a viagem como uma medida de proteção diante do que considera perseguição política. Outros interpretaram a saída como uma oportunidade para que o senador acompanhasse de longe a situação do país.
“Flavio faz bem sair do País, corre risco de vida”, escreveu um usuário identificado como Marco Antonio Costa. Outra participante afirmou que o senador teria ido “ver a destruição do nosso país de camarote em outro país”.
Também houve manifestações de apoio à tese de fraude eleitoral. Em resposta a uma publicação que perguntava se continuavam apoiando Flávio após a derrota, usuários afirmaram que o resultado havia sido roubado e que o senador seria o verdadeiro presidente eleito.
As mensagens reproduzem a narrativa de que a derrota não teria sido legítima, embora não apresentem evidências que comprovem fraude nas urnas.

