VOTO É SECRETO

O assédio eleitoral é o ovo da serpente

A democracia não termina quando as urnas são fechadas, precisa ser defendida todos os dias

Valter Campanato / Agência Brasil
Como ficam os estados brasileiros após as eleições? | Crédito: Valter Campanato / Agência Brasil

As eleições acabaram no último domingo, com a vitória histórica de Lula, que conquistou seu quarto mandato presidencial em uma decisão soberana do povo brasileiro. Uma vitória da democracia sobre aqueles que jamais esconderam seu desprezo por ela, confirmada pela fuga do candidato derrotado logo após a proclamação do resultado.

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As eleições acabaram, mas o assédio eleitoral não. Nos dias seguintes ao pleito, o Ministério Público do Trabalho (MPT) já contabilizava milhares de denúncias de assédio eleitoral em todo o país. Mesmo depois da votação, continuaram surgindo manifestações de patrões, políticos e influenciadores da extrema direita que defendem demissões, boicotes e outras retaliações contra trabalhadores por suas preferências políticas. Manifestações que partem, é claro, dos setores inconformados com a derrota nas urnas.

As eleições acabaram, mas a luta contra o fascismo não. Você sabe como a perseguição econômica aos judeus ganhou força na Alemanha nazista? Em 1933, o regime organizou um boicote nacional contra estabelecimentos comerciais e profissionais judeus. Foi o início de uma política sistemática de exclusão que, nos anos seguintes, culminaria no Holocausto.

É importante reconhecer esse mecanismo perigoso: identificar pessoas por suas convicções ou por sua identidade, expô-las publicamente e tentar privá-las de sua forma de se expressar ou ganhar a vida. É assim que a intolerância começa a ganhar aparência de normalidade.

As eleições acabaram, mas a polarização da sociedade não. A democracia pressupõe o respeito a quem pensa diferente, mas esse respeito não pode servir de desculpa para aceitar a perseguição. O filósofo Karl Popper já alertava para o paradoxo da tolerância: uma sociedade que tolera sem limites a intolerância pode acabar destruindo as próprias condições que tornam possível a convivência.

As eleições acabaram, mas continuam bombando nas redes sociais manifestações de intolerantes que propõe expor, perseguir e boicotar trabalhadores, figuras públicas e instituições que se posicionaram contra o bolsonarismo e os milicianos. Discordar é um direito. Organizar perseguições contra quem discorda é outra coisa. E isso nós não vamos tolerar.

Nenhum trabalhador pode ser obrigado a revelar seu voto, muito menos sofrer ameaças, constrangimentos ou perder o emprego por suas escolhas políticas. Qualquer cidadão pode denunciar o assédio eleitoral diretamente ao Ministério Público do Trabalho. Conte também com a estrutura jurídica do seu Sindicato para enfrentar qualquer forma de constrangimento político no local de trabalho. É importante guardar mensagens, áudios, capturas de tela e contatos de testemunhas para agilizar as investigações das denúncias.

A democracia não termina quando as urnas são fechadas, precisa ser defendida todos os dias. O ovo da serpente não pode ser tratado como simples divergência política. É preciso esmagá-lo antes que a víbora nasça e o mal se torne banal.

*Márcio Ayer é presidente do Sindicato dos Comerciários do Rio de Janeiro, Miguel Pereira e Paty do Alferes. Secretário Nacional de Comércio e Serviços da CTB.

**Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil de Fato.

Editado por: Vivian Virissimo

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