ANTIFEMINISMO

Fé, gênero e política: como o conservadorismo religioso captura as mulheres 

Entre as mulheres que conquistaram expressivas votações no país estão candidatas que defendem pautas antifeministas

34% das candidaturas da eleição de 2026 eram de mulheres; apenas 5,17% se elegeram
34% das candidaturas da eleição de 2026 eram de mulheres; apenas 5,17% se elegeram | Crédito: Ilustração produzida com o auxílio de Inteligência Artificial

Esta reportagem integra uma série especial do Brasil de Fato que investiga como a extrema direita tem capturado mulheres por meio de discursos antifeministas. A série busca compreender os fatores que levam tantas mulheres a aderirem a ideias e projetos políticos que ameaçam seus próprios direitos já conquistados. 

A relação entre fé e política não é recente no Brasil. E, nas eleições de 2026, esse laço se expressou fortemente na atuação de mulheres que articulam redes religiosas, comunitárias e partidárias para ampliar a participação feminina no campo conservador político.

O último pleito foi marcado pelo maior número de candidaturas femininas da história das eleições brasileiras. O crescimento da presença de mulheres na disputa eleitoral, no entanto, não significa, por si só, um avanço na garantia dos direitos femininos ou no enfrentamento às desigualdades de gênero.

Isso porque a ampliação da representatividade não se traduz necessariamente em compromisso com uma agenda de igualdade. Entre as mulheres que conquistaram expressivas votações no país, estão candidatas identificadas com a direita conservadora e que defendem pautas antifeministas e questionam direitos historicamente conquistados pelas mulheres. O cenário mostra uma contradição importante: mulheres ocupam cada vez mais espaços de poder, mas nem todas as suas agendas representam avanços para o conjunto das mulheres.

Nesse cenário, a religião atua tanto como legitimadora da participação política das mulheres quanto como instrumento de reprodução de papéis tradicionais de gênero e de restrição de direitos. A disputa se concentra nos sentidos atribuídos à família, à maternidade, à sexualidade e ao lugar das mulheres na sociedade.

A ascensão das mulheres cristãs na política

A participação evangélica na política institucional ganhou visibilidade especialmente a partir da Assembleia Nacional Constituinte, em 1986, conforme aponta o artigo, “Evangélicos no Brasil – da redemocratização ao governo Lula”, da antropóloga e integrante do Laboratório de Pesquisas em Etnicidade, Cultura e Desenvolvimento (Laced) da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Raquel Sant’Ana. Desde então, parlamentares ligados a diferentes igrejas ampliaram sua presença no Congresso Nacional e nas disputas eleitorais, com atuação em temas como família, aborto, sexualidade e direitos reprodutivos.

O relatório da Casa Galileia destaca a construção de redes que combinam vínculos religiosos, formação política e articulação partidária. Na atualidade, entre as lideranças com maior projeção está Michelle Bolsonaro (PL), ex-primeira dama e eleita senadora pelo Distrito Federal no pleito de 2026, além de Damares Alves (Republicanos), que ganhou visibilidade nacional como ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos durante o governo Bolsonaro e, posteriormente, passou a atuar no Senado.

A ofensiva conservadora se deu por meio de iniciativas de formação e recrutamento de novas lideranças. Entre elas está o Movimento Mulheres Conservadoras, lançado em 2024, além de ações relacionadas ao chamado “Damarismo” e ao movimento Imparáveis. Cursos, mentorias e redes de apoio aproximam mulheres de organizações e partidos, apresentando a atuação pública como extensão de valores cultivados na vida religiosa, como fé, responsabilidade e compromisso com a família.

Na agenda conservadora, as principais pautas giram em torno da defesa do papel tradicional da mulher de ser esposa, mãe e dona de casa, além da oposição ao direito ao aborto. Em relação à gravidez decorrente de estupro, o relatório descreve propostas que priorizam o acompanhamento pré-natal, a estrutura hospitalar e a possibilidade de adoção, em oposição à interrupção da gestação.

Essa perspectiva coloca a proteção da vida desde a concepção no centro do debate e tende a subordinar a autonomia reprodutiva das mulheres à defesa do feto. A presença feminina nessas organizações evidencia, assim, uma disputa entre a ampliação da participação política das mulheres e a defesa de posições tradicionais sobre gênero e sexualidade.

Para a socióloga Maria José Rosado, docente aposentada da PUC-SP, pesquisadora do Laboratório de Antropologia da Religião da Unicamp, feminista de esquerda e fundadora da ONG Católicas pelo Direito de Decidir, discursos sobre família, maternidade e sexualidade foram apropriados por setores conservadores religiosos e políticos.

“Os discursos religiosos sobre família, maternidade, sexualidade, foram sequestrados pela direita religiosa, pela direita política e pela extrema direita. São, de fato, temas que mobilizam uma grande parte da população, especialmente da população feminina, e que respondem a uma concepção conservadora que ainda existe na sociedade de que o lugar das mulheres é a casa”, afirma.

A pesquisadora ressalta que defender a liberdade de escolha exige considerar as condições materiais que limitam a autonomia de muitas mulheres. Enquanto algumas podem optar por se dedicar ao cuidado familiar, outras precisam trabalhar para garantir a própria sobrevivência e a de seus familiares. Mulheres negras, indígenas e periféricas, destaca a pesquisadora, muitas vezes não têm condições de escolher ficar em casa e ainda enfrentam a desvalorização do trabalho doméstico e de cuidado.

Rosado também chama a atenção para as desigualdades raciais e de classe, que se somam às de gênero e afetam a remuneração e as condições de vida das mulheres. “Então, essa questão de como se vive a maternidade, a sexualidade e o lugar das mulheres na sociedade, de fato, tem que ser analisado tomando em consideração questões de raça e de classe”, afirma.

Maternidade, submissão e violência contra as mulheres

Segundo a professora, setores conservadores utilizam discursos religiosos para manter as mulheres em posições de submissão, reforçando a ideia de que a responsabilidade pela manutenção do casamento e da família recai principalmente sobre elas.

A socióloga critica interpretações religiosas que apresentam o sofrimento como parte da salvação e incentiva mulheres a permanecer em relacionamentos violentos em nome da indissolubilidade do matrimônio. Enquanto homens podem encontrar maior liberdade para deixar relacionamentos e manter outras relações, as mulheres enfrentam pressões para preservar o casamento e são mais julgadas por sua sexualidade.

Rosado relaciona essas desigualdades à concentração de poder político e econômico. Apesar de serem maioria na população brasileira, as mulheres continuam sub-representadas nos espaços de decisão, especialmente quando se consideram as desigualdades raciais e a herança colonial.

“Os discursos, as narrativas e o uso dos símbolos, dos cultos, dos rituais e dos próprios púlpitos são espaços e elementos da religião que, em uma boa parte, são utilizados politicamente num horizonte conservador e mesmo extremamente conservador, o que significa ser contra os direitos das mulheres”, expõe.

A crítica à apropriação conservadora dos discursos sobre a família não significa que maternidade e feminismo sejam incompatíveis. Para a pesquisadora, a questão central é diferenciar a escolha individual da obrigação social: ser mãe ou não deve fazer parte do projeto de vida de cada mulher.

“Quero lembrar também, e aliás refiro aqui a socióloga Jaqueline Pitanguy, feminista, que ultimamente tem lembrado a sociedade que o projeto feminista de sociedade inclui a defesa da família, da maternidade e de uma sexualidade livre e responsável. Isso é parte do projeto feminista”, pontua.

Ela reforça que o feminismo não exige que as mulheres neguem a maternidade ou a vida familiar, mas questiona a ideia de que todas devam ser mães. “O feminismo não é contra a maternidade, é contra essa vinculação, essa obrigatoriedade, essa ideia de que toda mulher tem que ser mãe. Ser mãe ou não é resultado de um projeto individual.”

Rosado também defende que o respeito à autonomia seja ensinado desde a infância, para que meninas e meninos aprendam a estabelecer limites e a respeitar os corpos dos outros. Para ela, nenhuma interpretação religiosa pode justificar a violência ou transformar a preservação do casamento em obrigação feminina.

Perspectivas críticas

Se o relatório da Casa Galileia observa a organização de lideranças conservadoras, a pesquisa “Mulheres evangélicas, política e cotidiano” (2022–2025), do Instituto de Estudos da Religião (Iser), apresenta outro ângulo: como mulheres evangélicas interpretam a política a partir de suas experiências e necessidades cotidianas.

Coordenado por Lívia Reis, doutora em Ciências Sociais, pesquisadora e coordenadora da área de Religião e Política do Iser, o estudo ouviu mais de 180 mulheres de diferentes regiões do Brasil ao longo de quatro edições anuais. A maioria das participantes era preta ou parda e pertencia às classes populares. Foram entrevistadas novas participantes a cada edição, e não as mesmas mulheres acompanhadas individualmente durante os quatro anos.

O levantamento mostra que a identidade religiosa é importante, mas não determina sozinha o voto. As participantes também consideram as propostas dos candidatos, a honestidade, a confiança e o histórico de corrupção. Algumas desconfiam de políticos que frequentam igrejas apenas durante campanhas eleitorais ou utilizam o púlpito para fazer propaganda.

Para Reis, compreender essas escolhas exige reconhecer que as mulheres não apenas reproduzem ensinamentos religiosos: elas os interpretam, selecionam e adaptam às circunstâncias da vida cotidiana.

“A primeira coisa a dizer é que elas selecionam, o tempo todo, e isso não é inconsistência nem ‘falsa consciência’. É o que qualquer pessoa faz com qualquer tradição. As mulheres são a maioria nas igrejas evangélicas e a vida religiosa delas é feita de negociações cotidianas: aceitam a chefia masculina no princípio e a relativizam na prática; usam a autoridade do pastor para disciplinar um marido violento ou alcoólatra; constroem na igreja espaços de liderança, de renda e de circulação que não teriam fora dela. A antropologia já mostrou há tempos que agência não é só resistência nos termos do feminismo. Há agência dentro da adesão religiosa e é ela que explica porque a doutrina não é vivida como um pacote fechado”, afirma.

A pesquisadora destaca que a experiência concreta influencia quais ensinamentos ganham importância e quais são relativizados. Violência, abandono, instabilidade familiar e preocupação com os filhos são questões que podem encontrar na igreja uma linguagem para serem compreendidas e uma comunidade para enfrentá-las.

Essa relação ajuda a entender porque o discurso de cuidado utilizado por lideranças como Michelle Bolsonaro (PL) e Damares Alves (Republicanos) encontra ressonância entre parte das fiéis. A influência religiosa sobre o voto, observa Reis, não depende apenas da indicação explícita de candidatos por pastores, mas também de valores e referências morais compartilhados.

Tensão entre convicções religiosas, julgamento moral e legislação

A pesquisa identificou diferentes posições sobre a relação entre religião e política. Em 2025, 51,1% das participantes consideravam possível conciliá-las, enquanto 40% preferiam que permanecessem separadas. Na mesma edição, 57% se declararam favoráveis ao aborto nos casos permitidos pela legislação brasileira, e aproximadamente 67% defenderam que as igrejas acolhessem mulheres que abortaram, em vez de julgá-las. Por outro lado, metade concordou com a possibilidade de prisão de mulheres que interrompem a gravidez fora das condições permitidas por lei.

Os dados evidenciam tensões entre convicções religiosas, julgamento moral, legislação e acolhimento. A pesquisa também registrou que 63% consideravam possível ser cristã e feminista, enquanto 64% afirmavam que as mulheres têm menos direitos do que os homens. Além disso, 85% apoiavam leis de combate à violência contra as mulheres.

As respostas mostram que posições sobre gênero não formam blocos fechados. Uma mulher pode defender valores tradicionais na família e, ao mesmo tempo, reivindicar autonomia para trabalhar, administrar o próprio dinheiro e tomar decisões sobre a própria vida.

O levantamento também identificou que 60% das participantes frequentavam a igreja até quatro vezes por semana em 2025. Para muitas, o espaço religioso representa convivência, pertencimento e apoio, embora também possa ser marcado por julgamentos e falta de acolhimento.

A pesquisa aponta ainda uma tensão em torno da chamada “ideologia de gênero”: mesmo entre mulheres preocupadas com o tema e com a proteção das crianças, há reconhecimento da importância da educação sexual nas escolas como forma de prevenir abusos, inclusive os cometidos dentro de casa.

No campo político institucional, o levantamento aponta que 80% das mulheres que votaram em Bolsonaro em 2018 mantiveram o voto em 2022. Em relação a Lula, apontou que percepções associadas ao seu governo, como corrupção, alimentam avaliações negativas. Segundo ela, apenas 20% das mulheres votaram em Haddad, em 2018, e em Lula, em 2022.

Por sua vez, a figura de Michelle Bolsonaro (PL), pesquisada em todos os anos da investigação, esteve sempre associada a valores positivos, enquanto Rosângela Lula da Silva, a Janja, que passou a ser pesquisada em 2023, é frequentemente associada a valores negativos. 

No caso da ex-primeira dama, só em 2025 um atributo negativo é mencionado, quando entrevistadas criticam o fato de ela não ter tido “ações de destaque”. Nos demais anos da pesquisa, Michelle é considerada “exemplar”, “cristã virtuosa”, “elegante” e “forte”. “Sua trajetória pessoal, sua forma de se apresentar como mulher, mãe, esposa e cristã e gestos como ajoelhar-se em eventos públicos aproximam sua atuação política de uma linguagem religiosa reconhecível pelas entrevistadas”, destaca a pesquisa.

Diferentemente de Michelle (PL), que construiu sua imagem pública em diálogo com o eleitorado evangélico e pautas conservadoras, a atual primeira-dama Janja apresenta uma atuação política vinculada à autonomia das mulheres, agendas sociais, além de defender a diversidade religiosa. 

A disputa pela representação feminina no campo conservador

Para Reis, a participação das mulheres na política institucional está relacionada à possibilidade de construir uma identidade pública reconhecida socialmente. Em um campo historicamente dominado por homens, a religião pode oferecer legitimidade para que mulheres reivindiquem espaço em nome da família, das crianças e dos valores que defendem.

“A religião é o que torna essa disputa possível para mulheres. A política institucional é um campo masculino e a identidade religiosa oferece às mulheres uma forma legitimada de presença pública: a mulher que sempre foi responsável pelo cuidado da casa também pode reivindicar mais direitos em nome da família, das crianças e dos valores. Não é por acaso que a representação feminina conservadora cresceu junto com a presença evangélica no Congresso Nacional. A religião funciona como uma identidade política: ela diz de onde essa mulher fala e por quem”, afirma.

Reis diferencia lideranças com vínculos efetivos com comunidades religiosas de uma nova geração que utiliza a identidade cristã principalmente como posicionamento no conflito político. Michelle Bolsonaro (PL) e Damares Alves (PL), por exemplo, têm vida religiosa ativa e são conhecidas nas igrejas. Já para parte da nova geração, identificar-se como cristã funciona como marcador político, sem necessariamente pressupor vínculos permanentes com uma comunidade religiosa.

Essa diferença ajuda a compreender os conflitos dentro da própria direita. Segundo a pesquisadora, o processo de radicalização vem se desenvolvendo desde a década de 2010, ganhou força em 2018 e teve nos discursos religiosos um importante vetor de sustentação.

Pânico moral

Em 2022, a direita conservadora cristã mobilizou pânicos morais em torno de temas como a chamada “ideologia de gênero”, o “banheiro unissex” e o “kit gay”, explorando o medo e a desinformação para fortalecer sua agenda política. Em 2026, esse discurso ganhou novos contornos, articulado a uma agenda denominada “anti-identitária” ou “anti-woke”, vinculada ao circuito transnacional da nova direita e direcionada ao enfrentamento do feminismo e dos direitos das mulheres. 

O avanço dessa ofensiva se expressou na atuação de mulheres eleitas que reproduzem discursos antifeministas. É o caso de Eduarda Campopiano (PL), que nega a existência do feminicídio, contribuindo para a deslegitimação da violência de gênero e das políticas de enfrentamento a esse tipo de crime. Campopiano foi eleita deputada estadual mais votada de São Paulo nas eleições deste ano, com 1.956.238 votos. 

“Negar o feminicídio não é só uma opinião sobre um crime, é a recusa da categoria que o Estado usa para nomear a violência contra mulheres. Esse discurso não precisa de mediadores como pastores ou padres. Ele circula pelas redes”, explica.

Para Reis, a saída de Jair Bolsonaro do centro da disputa abriu uma corrida por sua sucessão simbólica. Nesse cenário, o conflito e a radicalização se tornam estratégias para conquistar visibilidade. A pesquisadora avalia que mulheres que atacam o feminismo ou negam a violência de gênero podem conferir uma aparência de legitimidade a discursos que, quando expressos por homens, encontram maior resistência.

“E esse caminho premia quem radicaliza, porque é o conflito, não a mediação, que dá visibilidade. Uma mulher que ataca o feminismo ou que nega o feminicídio tem uma eficácia que um homem dizendo a mesma coisa não tem, pois ela parece autorizar o discurso. Por isso essas candidatas são um ativo para o campo, e por isso a disputa por visibilidade entre elas é tão feroz. Elas competem para ser a voz feminina legítima de uma agenda que, no limite, retira das mulheres o vocabulário para falar de si mesmas”, afirma.

Mudanças no perfil religioso do país

A pesquisa “Religião e Vida Pública no Brasil”, realizada pelo Instituto de Estudos da Religião (Iser) em parceria com a Quaest, aponta que 50% dos brasileiros se declaram católicos, 29% evangélicos e 14% afirmam não ter religião. O levantamento também identificou que 54% se consideram conservadores, enquanto 24% se definem como progressistas.

Os resultados indicam, porém, que o pertencimento religioso não determina automaticamente as posições políticas. As opiniões sobre questões sociais e econômicas não se organizam necessariamente em blocos fixos de direita e esquerda. Segundo o Iser, 73% dos entrevistados consideram a Bíblia ou seus versículos uma fonte de ensinamentos para a vida.

A pesquisa também apontou que 90% rejeitam campanhas eleitorais dentro de espaços religiosos e 83% são contrários à indicação de candidatos por lideranças religiosas. Os dados apontam uma diferença entre a influência da fé sobre valores e escolhas pessoais e o apoio explícito à propaganda eleitoral nos templos.

O levantamento aponta que 54% dos entrevistados se definem como conservadores, e 24% progressistas. De acordo com o relatório, há apoio de 78% à proteção aos povos indígenas, de 75% ao Bolsa Família e de 66% à taxação dos mais ricos. Em relação ao aborto, 45% dos entrevistados são contra punir e prender mulheres que fazem aborto. 

Realizado entre 14 de janeiro e 10 de fevereiro de 2026, o levantamento ouviu presencialmente 15 mil pessoas com 16 anos ou mais, em 412 municípios brasileiros.

É nesse contexto que se insere a articulação de mulheres evangélicas conservadoras. O relatório “Mulheres Evangélicas Conservadoras nas Eleições de 2026”, da Casa Galileia, analisa como lideranças femininas organizam redes de mobilização, formação política e defesa de pautas alinhadas ao campo conservador.

A luta por espaço na política

A participação feminina na política brasileira ainda enfrenta obstáculos relacionados ao machismo estrutural, à distribuição de recursos e à visibilidade das candidaturas. A legislação eleitoral estabelece um mínimo de 30% e um máximo de 70% de candidaturas de cada gênero nas eleições proporcionais, mas a regra não eliminou as desigualdades nas condições de disputa.

Para as eleições de 2026, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) considerou 7.165 candidaturas femininas entre 20.560 registros no cálculo utilizado para orientar a distribuição dos recursos eleitorais. O número corresponde a 34,85% do total considerado nesse recorte. O TSE informou ainda que 369 mulheres foram eleitas no primeiro turno de 2026, 61 a mais que em 2022. O PL, partido da família Bolsonaro, elegeu a maior bancada da Câmara dos Deputados em 2026, com 121 deputados federais – entre eles, 22 mulheres. Para o Senado, elegeu três senadoras: Michelle Bolsonaro e Bia Kicis, pelo Distrito Federal, e Caroline de Toni, por Santa Catarina. 

Em meio às barreiras à participação feminina, a religião oferece a algumas candidatas uma forma de legitimação pública. A mulher historicamente responsabilizada pelo cuidado da casa e da família pode transformar essa posição em argumento para reivindicar espaço político. A contradição está na combinação entre a conquista de visibilidade e a defesa de pautas que podem ameaçar seus próprios direitos conquistados. As redes religiosas podem oferecer liderança, renda, circulação e apoio, mas também reproduzir estruturas que mantêm a autoridade masculina.

A disputa em torno da fé e da política também envolve os sentidos atribuídos à família, à maternidade, ao cuidado e à autonomia. Para a socióloga Maria José Rosado, a religião não pode servir de justificativa para a violência ou para a submissão feminina.

“Não há discurso religioso que possa justificar a violência contra as mulheres. Não existe. Isso são distorções de um discurso, uma narrativa, que deve ser sempre uma narrativa de compreensão, de diálogo, de respeito e de amor. As religiões se propõem a ser assim. E, portanto, isso tem que ser resgatado sempre das religiões”, conclui.

Editado por: Katia Marko

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