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Fim da apuração em Israel confirma avanço histórico palestino, mas deixa futuro governo em aberto; veja lista

Com 19 cadeiras conquistadas, partidos de maioria árabe quase dobram bancada; Netanyahu fica sem maioria parlamentar

Ativistas da esquerda israelense protestam em frente à casa de Gadi Eisenkot, líder da oposição, em Herzliya, na quinta-feira (29), para exigir a formação de um governo com a participação dos partidos de maioria árabe.
Ativistas da esquerda israelense protestam em frente à casa de Gadi Eisenkot, líder da oposição, em Herzliya, na quinta-feira (29), para exigir a formação de um governo com a participação dos partidos de maioria árabe. | Crédito: Jack Guez/AFP

A apuração das eleições parlamentares de Israel foi concluída nesta sexta-feira (30) com um avanço histórico dos partidos de representação palestina e sem maioria definida para a formação do próximo governo. As duas listas de maioria árabe conquistaram juntas 19 das 120 cadeiras do Knesset, quase o dobro das dez obtidas em 2022, enquanto o bloco do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu perdeu a maioria parlamentar que sustentava seu governo.

O grupo formado pelo Likud e seus aliados de direita, extrema direita e partidos religiosos conquistou 53 cadeiras, oito abaixo das 61 necessárias para governar. A oposição, liderada pelo ex-general Gadi Eisenkot, obteve 48. Os outros 19 assentos ficaram com a Lista Conjunta e o Ra’am, que podem desempenhar um papel importante nas negociações para a composição de um novo governo.

O resultado representa um recorde para os partidos de maioria árabe, que representam principalmente os cidadãos palestinos de Israel. A Lista Conjunta, aliança formada por Hadash, Ta’al e Balad, conquistou 11 cadeiras, enquanto o Ra’am, de orientação islâmica conservadora, elegeu oito deputados. Juntos, superaram o recorde anterior de 15 parlamentares, registrado em 2020, e ampliaram sua bancada em 90% em relação à eleição passada.

A participação eleitoral também cresceu. Segundo a Comissão Eleitoral Central, 77,9% dos eleitores compareceram às urnas, em um dos maiores índices registrados nas últimas décadas. A mobilização dos cidadãos palestinos de Israel contribuiu para o fortalecimento das duas listas, que receberam aproximadamente 837 mil votos.

Apesar de continuar como o maior partido individual, com 27 deputados, o Likud não conseguiu preservar a maioria de sua coalizão. O bloco de Netanyahu perdeu 11 cadeiras em relação às 64 conquistadas nas eleições de 2022, enquanto o primeiro-ministro tenta negociar sua permanência no cargo.

Os resultados ainda passarão por verificações formais antes de serem apresentados ao presidente Isaac Herzog, em 4 de novembro. A posse do novo Parlamento está prevista para 10 de novembro, mas a formação do governo está em aberto e deve ser objeto de negociações nas próximas semanas.

Bancada palestina quase dobra e ganha peso nas negociações

O crescimento da representação palestina é um dos principais acontecimentos das eleições israelenses. A Lista Conjunta reúne diferentes correntes políticas, entre elas a esquerda judaico-árabe e o nacionalismo palestino, enquanto o Ra’am adota uma orientação religiosa conservadora e uma estratégia mais aberta à participação em coalizões governamentais.

As duas formações representam principalmente uma população que possui cidadania israelense, mas enfrenta desigualdades e discriminação. Além do genocídio em Gaza e da ocupação dos territórios palestinos, a insegurança e a violência nas comunidades árabes de Israel estiveram entre as principais preocupações desse eleitorado durante a campanha.

A soma das 48 cadeiras da oposição com os 19 deputados das listas de maioria árabe alcançaria 67 assentos, acima da maioria exigida para formar governo. Entretanto, essa possibilidade depende de acordos entre partidos que apresentam diferenças políticas importantes.

Lideranças da Lista Conjunta, incluindo Yousef Jabareen e Ahmad Tibi, manifestaram disposição para negociar com a oposição e contribuir para a substituição de Netanyahu. Mansour Abbas, presidente do Ra’am, também mantém uma postura aberta ao diálogo parlamentar.

Entre os partidos de oposição, o ex-general Yair Golan, líder dos Democratas, defendeu publicamente a cooperação com as legendas de maioria árabe. Outros dirigentes, porém, rejeitaram durante a campanha a participação dessas forças em uma coalizão.

O Likud tenta questionar a legitimidade do voto árabe. Após as eleições, o partido de Netanyahu acusou essas legendas de fraude e levantou suspeitas de financiamento estrangeiro, apontando Catar e Turquia. As alegações de irregularidades generalizadas foram contestadas por autoridades eleitorais e policiais israelenses, que afirmaram não haver elementos capazes de comprometer a validade da votação.

Confira a distribuição das 120 cadeiras do Knesset, conforme a apuração concluída nesta sexta-feira (30):

Bloco de Netanyahu – 53 cadeiras

  • Likud, de Benjamin Netanyahu: 27
  • Otzma Yehudit, de Itamar Ben-Gvir: 7
  • Judaísmo Unido da Torá: 7
  • Shas: 6
  • Sionismo Religioso, de Bezalel Smotrich: 6

Bloco de oposição – 48 cadeiras

  • Yashar, de Gadi Eisenkot: 21
  • B’Yachad, de Naftali Bennett e Yair Lapid: 12
  • Democratas, de Yair Golan: 8
  • Yisrael Beiteinu, de Avigdor Lieberman: 7

Partidos de maioria árabe – 19 cadeiras

  • Lista Conjunta, liderada por Yousef Jabareen: 11
  • Ra’am, de Mansour Abbas: 8

Os agrupamentos representam os alinhamentos eleitorais, não coalizões governamentais formalmente constituídas. A Lista Conjunta e o Ra’am também possuem diferenças políticas e não atuam necessariamente como um bloco único.

Após a certificação dos resultados, o presidente Isaac Herzog deverá consultar as legendas e indicar o parlamentar com melhores condições de formar uma coalizão. O escolhido terá inicialmente 28 dias para reunir os apoios necessários, prazo que poderá ser prorrogado por até 14 dias.

Caso as negociações fracassem, Israel poderá enfrentar novas eleições. Até a posse de um novo governo, Netanyahu permanece no cargo.

O que o resultado pode mudar para os palestinos?

O fortalecimento dos partidos de representação palestina não significa necessariamente uma mudança na política israelense para Gaza e a Cisjordânia. Netanyahu e Eisenkot, os dois principais adversários na disputa, rejeitam a criação de um Estado palestino independente e defendem a manutenção do controle israelense de segurança sobre os territórios ocupados.

As principais diferenças entre os dois aparecem na condução política do governo, na relação com as instituições israelenses e em determinados aspectos da expansão dos assentamentos na Cisjordânia. Eisenkot se opõe a alguns projetos de colonização, mas admite o crescimento de assentamentos autorizados pela legislação israelense, embora considerados ilegais pelo direito internacional.

Para os cidadãos palestinos de Israel, o crescimento da representação parlamentar pode ampliar as possibilidades de negociação sobre igualdade de direitos, combate à discriminação, segurança e investimentos nas comunidades. A transformação dessa presença em políticas concretas, entretanto, dependerá da composição do próximo governo e de suas prioridades.

A ofensiva contra Gaza e a expansão da ocupação israelense na Cisjordânia continuam sendo questões centrais para a população palestina. Em julho de 2024, a Corte Internacional de Justiça considerou ilegal a presença continuada de Israel no território palestino ocupado e afirmou que o país tem a obrigação de encerrá-la.

Em entrevista ao BdF Entrevista, Yoáv Goldring, do Partido Comunista de Israel, avaliou que a orientação sionista dos principais partidos de oposição limita a possibilidade de mudanças profundas na política para os palestinos, mesmo com uma eventual saída de Netanyahu. Segundo ele, a rejeição à participação dos partidos árabes também dificulta a formação de uma maioria alternativa no Parlamento.

Para Goldring, uma mudança de governo poderia representar diferenças na condução da ofensiva contra Gaza, mas não necessariamente o fim da ocupação ou da expansão dos assentamentos. “Estamos escolhendo entre o mal e o pior”, resumiu, ao comparar a continuidade de Netanyahu com a possibilidade de um governo liderado por Eisenkot.

Editado por: Gia Matheus Almeida

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