Virada histórica

Internacionalizemos a Esperança: as eleições brasileiras como marco global da reação à extrema direita

Pressões internacionais e de bigtechs não foram suficientes para frear a mobilização nas redes e nas ruas

Multidão participa de festa da vitória em Brasília, após resultado do segundo turno
Multidão participa de festa da vitória em Brasília, após resultado do segundo turno | Crédito: Rafa Neddermeyer/Agência Brasil

O dia 25 de outubro de 2026 foi um dia de resultados históricos. Eleito em segundo turno, Luiz Inácio Lula da Silva recebeu a maior votação já obtida por um presidenciável no país, totalizando mais de 64 milhões de votos. O recorde anterior, diga-se, pertencia ao próprio Lula quando, em 2022, obteve mais de 60 milhões de votos do eleitorado. Além disso, assistimos pela primeira vez a uma virada: Lula, que terminou o primeiro turno atrás de Flávio Bolsonaro, terminou o processo eleitoral como o candidato vitorioso, somando mais de 10 milhões de votos a sua votação de primeiro turno, num processo histórico de mobilização popular nas ruas e nas redes.

A vitória eleitoral foi resultado direto do engajamento social. Movimentos orgânicos, inicialmente puxados por estudantes da Universidade Federal Fluminense em Niterói e depois em todo o país, foram se alastrando. Grupos em redes sociais foram se articulando, somando-se ao esforço de parlamentares eleitos, a maioria de esquerda, e de figuras públicas que rejeitavam o retorno de um Bolsonaro ao poder no Brasil. Uma campanha que em sua primeira etapa foi marcada pelo formalismo e distanciamento, foi tomada de povo.

O impacto da vitória de Lula não se fez sentir apenas no Brasil. Afinal, a mobilização popular que garantiu a vitória do então presidente reeleito derrotou não só Flávio Bolsonaro, mas também os interesses declarados de Donald Trump, da extrema direita global e o poder econômico de capitalistas nacionais e internacionais, de empresas de transporte que deliberadamente reduziram a frota de ônibus intermunicipais em estados como Sergipe até a Meta, em flagrante intervencionismo no processo eleitoral brasileiro. Tudo isso num contexto global de ascensão da extrema direita na América Latina, em alinhamento aos interesses estadunidenses para a região, e no mundo.

O reconhecimento da vitória de Lula pela comunidade internacional ocorreu de pronto. Na América do Sul, apenas o subserviente Milei não parabenizou o presidente reeleito. Líderes da Índia, França, Espanha, Canadá, Paraguai, dentre outros, prontamente felicitaram Lula, sinalizando a legitimidade internacional do pleito eleitoral brasileiro. Donald Trump, refletindo a articulação da extrema direita brasileira junto a sua administração, classificou as eleições de “estranhas”, mas ressaltou que não se envolveria.

A atuação do governo Trump em prol da vitória de governos alinhados aos interesses estadunidenses tem uma dimensão geopolítica concreta. Na América Latina, Trump taxou grupos criminosos atuantes no Brasil como organizações terroristas e implementou o Escudo das Américas, iniciativa que busca impor a visão estadunidense ao combate ao crime organizado na região. Portanto, a fuga de Flávio Bolsonaro para os Estados Unidos, com apoio do governo argentino de Javier Milei e da administração Trump, é reflexo desse movimento.

O governo Trump imprime à política externa estadunidense o movimento mais amplo da extrema direita na política internacional, que envolve desde a articulação na Organização das Nações Unidas (ONU) a partir do chamado Consenso de Genebra até configuração em redes como a Conferência de Ação Política Conservadora (CPAC, por sua sigla em inglês), passando por uma agenda abertamente predatória do ponto de vista ambiental e de uso de recursos naturais.

Ainda em 23 de outubro, um mapeamento identificou uma rede de interesses estrangeiros em favor de Flávio Bolsonaro. Eram 431 atores estrangeiros através de fontes abertas que atuavam na rede de apoio ao candidato do PL, dentre os quais 12 chefes de governo, 86 empresas, 62 organizações, 26 órgãos de governo, 30 fundos, 18 veículos de comunicação e plataformas, além de 8 partidos. As motivações para o apoio certamente são diversas, mas a presença de alguns nomes conhecidos da extrema direita global sinaliza que, para além de objetivos econômicos, o alinhamento ideológico não é elemento menor. Nomes como JD Vance, vice-presidente dos EUA, Benjamin Netanyahu, primeiro-ministro de Israel, e Viktor Orbán, ex-primeiro-ministro da Hungria aparecem na lista. Ao seu lado, aparecem Peter Thiel e Steve Bannon, expoentes na extrema direita estadunidense.

Foi nesse contexto que a vitória de Lula foi recebida pela sociedade civil e por movimentos de esquerda ao redor do mundo como um marco na resistência à extrema direita, ao imperialismo estadunidense e ao poder econômico das bigtechs. Nas redes sociais, uma série de vídeos exaltando a reação do povo brasileiro surgiram. O primeiro-ministro da Espanha, Pedro Sánchez, foi direto: se o Brasil pôde, a Espanha pode. Também na França e nos Estados Unidos o sucesso eleitoral serviu de inspiração, sendo visto como o começo de uma possível reversão da onda reacionária.

O bolsonarismo não acabou. Expressão mais evidente da extrema direita no Brasil, trata-se de fenômeno político que vai além da família Bolsonaro. Sua forte presença no Congresso Nacional na próxima legislatura reflete as dimensões de sua infiltração na sociedade. Todavia, o revés sofrido pela extrema direita no pleito eleitoral abre uma janela fundamental para ação política. Mais uma vez sem uma liderança evidente, o bolsonarismo estará, por ora, desarticulado. O período necessário para a reorganização da extrema direita é o sinal para ação das forças populares. Da mesma forma que existe uma articulação da extrema direita, de consequências políticas sensíveis, é preciso que os movimentos populares e democráticos avancem também um projeto alternativo de futuro.

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Nesse momento, vencida a primeira parte da disputa, é hora de reivindicar o internacionalismo. É preciso ter em evidência que o projeto de futuro que construímos não se sustenta estrito a nossas fronteiras. O que a experiência brasileira nos ensinou foi que, à esquerda, política se faz para além dos gabinetes, algo que parece ter sido esquecido por alguns de nossos representantes eleitos que, mesmo agora, defendem que Lula traia o clamor das ruas que salvou sua campanha e imponha um arrocho fiscal em aceno ao mercado financeiro.

É preciso encarar o abismo e disputar o horizonte. E a mobilização social que assistimos no segundo turno das eleições de 2026 é prova de que o anseio por mudança tem direção: para frente, contra o retrocesso reacionário.

*Jorge Oliveira Rodrigues é doutorando em Relações Internacionais pelo PPGRI San Tiago Dantas (UNESP, UNICAMP, PUC-SP). Pesquisador do Grupo de Estudos de Defesa e Segurança Internacional (GEDES-RJ).

**Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil de Fato.

Editado por: Juliana Passos

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