O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) foi o mais votado na cidade do Rio no 2º turno nas eleições, com 1.898.391 votos (51,54%). Nas favelas cariocas, Lula também obteve vantagem sobre o adversário Flávio Bolsonaro (PL). Nesse recorte, a votação mais expressiva foi registrada na Rocinha, onde Lula chegou a 71,8% das urnas, contra 28,2% de Flávio Bolsonaro.
O levantamento é da empresa especializada em pesquisas Ipse Global, com base nos resultados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) nos locais de votação mais próximos dos moradores, a menos de 200 metros da favela. A análise contabiliza 59 seções, nas quais votaram 24.537 eleitores.
Historicamente, a favela da Rocinha dá vitória ao PT nas disputas presidenciais, especialmente contra o bolsonarismo. A votação de Lula na maior comunidade do país em número de habitantes tem superado a registrada no município há 20 anos. Essa margem aumentou de 10 pontos em 2006 para 20 a 23 pontos de 2018 a 2026.
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Para o diretor-executivo da Ipse Global, Leonardo Magalhães, o perfil do eleitorado ajuda a explicar essa trajetória. “O eleitorado que vota nas seções eleitorais das escolas da Rocinha é muito diferente do da cidade. É um eleitorado popular e jovem. Só 3,9% têm ensino superior, contra 19,4% no Rio, metade não passou do ensino fundamental e há bem menos idosos”, aponta.
“Em 2002 a Rocinha votou no Lula exatamente como o resto da cidade. Já a partir de 2006 passou a votar mais no PT que o resto do Rio, acompanhando o realinhamento do voto que aconteceu no país inteiro. Essa diferença cresceu até chegar a 20 pontos depois de 2018. Já em 2026, Lula teve 71,8% ali, contra 51,5% na cidade”, completa a análise ao Brasil de Fato.
Favela faz o L
Diferente da cidade, Lula venceu na Rocinha no primeiro turno, mas o desempenho ficou abaixo do esperado por lideranças comunitárias que acompanham há anos a votação na comunidade. Com a possibilidade da extrema direita voltar ao poder e fazer cortes em programas sociais, diversos movimentos populares intensificaram uma campanha espontânea para aumentar a participação dos moradores no processo eleitoral.
Uma das articuladoras foi a Lene da Rocinha, da coordenação do Movimento Brasil Popular no Rio. “Fomos para a rua conversar com o morador, amigos, parentes, vizinhos, panfletar com a juventude do MST, conscientizar de que a gente precisava reeleger nosso querido Lula. Ele é sempre muito bem votado na Rocinha. Fizemos uma grande passeata no dia 24 [véspera da eleição] e foi a coisa mais linda, tanto é que subiram os votos devido a essa mobilização”, conta ao Brasil de Fato.

Em um recorte mais amplo, Lula teve mais votos que Flávio Bolsonaro em todas as favelas da capital (51,5%), abrangendo 1.057 territórios, localizados nos Complexos do Alemão e da Penha, Maré, Cidade de Deus, Rio das Pedras, Gardênia Azul, Rocinha e Jacarezinho, por exemplo.
“Nossa conversa com os moradores para virar votos era a revolta de poder ver o Brasil retroceder, voltar à fome de 2022, a vontade de vencer os bolsonaristas e nos tornar livres do pesadelo de ver nossas crianças e idosos voltarem a passar necessidades”, diz Lene.
Organização popular
A estratégia para “quebrar a apatia” com a eleição foi conjunta nas ruas e nas redes, lembrando de conquistas como Minha Casa, Minha Vida, Bolsa Família, Luz para Todos, Desenrola, Samu, Pé-de-meia, Mais Médicos e Farmácia Popular.
Um dos temas mais conversados com a população foram as políticas públicas, como o PAC das Favelas, que poderiam ser canceladas com a chegada de um governo sem compromisso com as demandas populares. Para o líder comunitário Xaolin da Rocinha, a vitória de Lula representa a continuidade do diálogo para importantes investimentos.
“O povo percebeu que a democracia estava em risco e a favela poderia perder vários programas se elegesse um governo desconhecido e antidemocrático. A população entendeu e votou em massa. Demos como exemplo a falta do saneamento nos subbairros da favela, que o dinheiro já está liberado pelo governo federal e que poderia ser perdido”, pontuou.
Na véspera da votação, a favela organizou um ato de apoio à reeleição de Lula. A passeata se concentrou na Rua 1 e desceu até a Estrada da Gávea, com participação massiva dos moradores, movimentos sociais, estudantis, sindicais, além de parlamentares e lideranças.
“A partir dessa decisão, não deixaríamos a extrema direita derrotar a democracia. Além de utilizar as redes sociais, também alugamos um carro de som para convocar a população e o resultado foi positivo”, completa Xaolin, que foi presidente da associação de moradores.
Entre as organizações comunitárias presentes estavam Rocinha Resiste, Museu Sankofa, Casa de Cultura da Rocinha, Rocinha sem Fronteiras, Bando Cultural Favelados, Jornal Fala Roça, Associação Mercado Popular (Camelódromo), Centro Cultural da Rua Três e Morro pela Arte.
A Rocinha vai comemorar o feito neste sábado (31) com uma feijoada em homenagem “ao cidadão do mundo chamado Lula e também à própria Rocinha, uma favela cidadã, integrada à cidade, cosmopolita e de paz”, diz Xaolin.

