Na segunda-feira (26), um grupo seleto no WhatsApp com pais e mães do Colégio Anchieta — instituição privada tradicional de Porto Alegre — entrou em polvorosa. O motivo? Uma funcionária da escola foi trabalhar com uma camisa vermelha. A roupa foi associada ao vencedor das eleições, Lula (PT). O ato foi tão bárbaro para esses pais que uma mãe fotografou a trabalhadora, enviou uma foto com o rosto dela visível no grupo de WhatsApp e afirmou que iria acionar a direção do colégio sobre o caso. Outra mãe respondeu à foto dizendo: “A B S U R D O”.
O caso do Colégio Anchieta não é isolado. Nesta semana, após a virada de Lula sobre Flávio Bolsonaro (PL) no segundo turno das eleições, uma ala de apoiadores do candidato derrotado tomou uma posição “inquisitória” contra supostos petistas e esquerdistas.
O primeiro movimento se deu nas redes sociais com pessoas, e até parlamentares, convocando apoiadores de Flávio a boicotarem estabelecimentos comerciais favoráveis a Lula e a demitirem funcionários que “fizeram o L”. A Comissão de Cidadania e Direitos Humanos (CCDH) da Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul encaminhou ao Ministério Público estadual (MPRS) um pedido de apuração de denúncias de perseguição política, discriminação e retaliações contra trabalhadores e empresas.

O caso do Colégio Anchieta foi denunciado ao Sul21 por um pai. Ele, que preferiu não se identificar por conta de possíveis represálias, conta que as mensagens são de um grupo de WhatsApp com pais e mães de direita.
O que este pai descreve é um “caça às bruxas”. Além do caso da funcionária fotografada, ele relata combinações entre os integrantes desse grupo para observar quem estava de vermelho nas dependências do Anchieta e fotografá-los. Ainda, estaria circulando uma lista de professores, em especial do ensino médio, que se manifestaram politicamente nas redes sociais a favor de Lula.
“Esse clima se montou ali dentro. E agora fica essa quase inquisição por esse grupo de pais”, comenta o entrevistado. “Eu estou indignado com o comportamento desses pais. Eu acho que passou do limite”.
Ele relata que o clima no colégio durante e após as eleições foi “horrível”. Por exemplo, outro pai chegou a reclamar no grupo do WhatsApp da instalação de postes vermelhos natalinos na avenida Nilo Peçanha, que passa em frente ao Anchieta. Este pai afirmava que a decoração era um “jogo sujo e mentiroso da esquerda” por ter as mesmas cores do PT.
“A gente sabe os valores que o colégio tem e tinha, até porque mudou muito também. Só que o clima está horrível”, conta o denunciante. “É asqueroso”.
Procurado pelo Sul21, o Colégio Anchieta informou que os canais institucionais da direção com os pais são o e-mail e o aplicativo Layers. Portanto, eles não teriam gerência sobre o que ocorre nos grupos de WhatsApp.
“Esses são os meios oficiais utilizados para o envio e o recebimento de informações relacionadas à rotina escolar e às comunicações da Instituição. Outras ferramentas, plataformas ou meios de contato não são caracterizados como canais institucionais de comunicação do Colégio”, ressalta a nota enviada à reportagem.
O Sul21 também questionou se terá qualquer investigação interna sobre o que foi denunciado à reportagem. E a resposta é que não, não haverá apuração sobre os casos.

No Instituto Estadual Rio Branco, na Capital, a vereadora Mariana Lescano (PP) foi atrás de professores que estariam promovendo uma “doutrinação petista” e coagindo os alunos em sala de aula. Inclusive, a parlamentar foi à escola para discutir com a diretora.
Essa ação, divulgada com orgulho pela vereadora nas redes sociais, teve como reação um protesto de uma dezena de estudantes do Rio Branco. “Eles ficaram extremamente magoadinhos”, disse Mariana em resposta nas redes sociais.
Depois, um ato maior em frente ao Rio Branco foi convocado, com apoio de universitários, pais e mães dos alunos. Mariana Lescano, então, passou na frente do protesto e filmou os estudantes (todos menores de idade). Ela também zombou de um estudante que foi com um cartaz de “Juventude Antifascista” por estar atravessando a rua de mão dada com a mãe, que tinha adesivos do Lula na bolsa.
Segundo a deputada Luciana Genro (PSOL), titular da Comissão de Cidadania e Direitos Humanos da Assembleia, o caso do Rio Branco será levado à mesa. Os alunos do Instituto Estadual irão relatar na Comissão o ocorrido. A deputada estadual Sofia Cavedon (PT), por sua vez, disse que, junto ao Cpers Sindicato, informou o Ministério Público Federal (MPF) sobre o ocorrido.
Ameaças contra estudantes da UFSM

Na Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), a situação é mais séria. O Diretório Central dos Estudantes (DCE) denunciou ameaças de violência compartilhadas em um grupo de WhatsApp dos estudantes da turma 118 de Agronomia.
Uma das mensagens divulgadas nas redes sociais diz que se o PT ganhasse a eleição (como ganhou) e tivesse uma guerra do Brasil com os Estados Unidos (que não teve), a pessoa que enviou a mensagem iria “mata[r] os daqui”. Outra mensagem fala em “gasta[r] um pente de bala” contra pessoas de esquerda.
Ainda, sobraram ataques ao Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST). As mensagens acusam os integrantes do MST de roubar terra e o mensageiro diz que integrante do MST “eu mato”.
Douglas Jardim, coordenador geral do DCE da UFSM e estudante de Relações Públicas na universidade, diz que são ao menos 30 prints com mensagens violentas e ofensivas, enviadas no grupo da turma de Agronomia. “O que chegou até a gente foram prints específicos de matar, declarações no dia das eleições e também outras ameaças depois”, relata Jardim.
O DCE foi à público denunciar as ameaças e acionou a Reitoria da universidade sobre o assunto. “A partir do momento em que um estudante afirma que pretende matar outras pessoas e utilizar violência no ambiente acadêmico, a situação ultrapassa qualquer limite do debate político. Ameaça de morte não é ‘brincadeira’ nem ‘fato isolado’ é crime! Uma ameaça concreta à integridade de toda a comunidade”, afirma a nota do Diretório.
“Desde que surgiram as mensagens, a gente tem feito uma mobilização solicitando da universidade que os estudantes que fizeram essas manifestações fossem suspensos, ou uma suspensão cautelar enquanto a apuração esteja ocorrendo”, comenta Jardim.
O DCE protocolou uma denúncia junto à Reitoria, cobrou providências e pediu um reforço na segurança do campus universitário. Ao Sul21, a UFSM comunicou que o caso foi levado à polícia e que a universidade criou uma comissão interna para apurar a situação. Em nota, a Reitoria manifestou repúdio às ameaças e pediu que pessoas com informações sobre o ocorrido enviem à Ouvidoria.
“Os materiais foram encaminhados à Polícia Federal. Ainda, o Gabinete da Reitoria determinou a criação de uma comissão específica que atuará no processo de investigação, identificação, verificação da vinculação com a UFSM, escuta dos envolvidos(as) e posterior abertura de processo administrativo disciplinar”, informa a nota.
Mas, Douglas Jardim reforça que essa ação não foi a única do que ele descreve como um sentimento favorável à direita radical que vem crescendo na UFSM e em Santa Maria. No dia 6 de outubro, dois dias depois do primeiro turno, runas neonazistas apareceram desenhadas no banheiro do Centro de Ciências Naturais e Exatas.
De um dia para o outro, segundo o coordenador do DCE, sete runas neonazistas como aquela surgiram em outros prédios do campus. De prontidão, o Diretório acionou a Reitoria sobre os desenhos, mas Douglas entende que o gabinete não deu resposta “na mesma intensidade que os problemas que estavam postos pediam”.
A situação das mensagens, para ele, é “mais um dos gestos que já vem acontecendo desde que a primeira runa surgiu na universidade”. Para o estudante, em razão dos casos anteriores, as mensagens mais recentes acabaram provocando, em vez de medo, um sentimento de organização.
Agora, o DCE aguarda o resultado da investigação interna. Quando o processo administrativo for concluído, o Diretório irá entregar o material da apuração da UFSM à Polícia Federal.

