AGROBIODIVERSIDADE

Pesquisa identifica hortaliças não convencionais com potencial de adaptação às mudanças climáticas no RS

Estudo com agricultores identificou 30 espécies resistentes e capazes de se recuperar após extremos climáticos

Atividade de campo do NEA PancPop promove a troca de conhecimentos e experiências sobre o cultivo de plantas alimentícias não convencionais (PANCs)
Atividade de campo do NEA PancPop promove a troca de conhecimentos e experiências sobre o cultivo de plantas alimentícias não convencionais (PANCs) | Crédito: Acervo/NEA PancPop

Enquanto as enchentes de 2024 devastavam lavouras e comprometiam a produção de alimentos no Rio Grande do Sul, algumas plantas apresentavam capacidade de resistência e recuperação. Cultivadas em uma propriedade rural de São Lourenço do Sul, 30 espécies de plantas alimentícias não convencionais (PANCs) demonstraram alto desempenho diante das adversidades climáticas. O resultado faz parte de uma pesquisa desenvolvida pelo Núcleo de Estudos em Agroecologia PancPop (NEA PancPop), vinculado à Universidade Federal do Rio Grande (Furg), e aponta caminhos para uma agricultura mais diversificada e preparada para enfrentar as mudanças climáticas.

O estudo acompanhou, entre 2023 e 2024, o desenvolvimento de 42 espécies de PANCs. Durante o período, as plantas enfrentaram estiagens, chuvas intensas, vendavais, temperaturas de até 39,6 °C e episódios de geadas. Além das 30 espécies que apresentaram alto desempenho em resistência e resiliência climática, outras avaliações identificaram 31 espécies com melhor adaptação considerando o conjunto dos critérios analisados. Quinze delas obtiveram avaliações elevadas em todos os quesitos.

Os resultados reforçam a importância da agrobiodiversidade e dos conhecimentos acumulados por agricultores familiares e camponeses diante de um cenário de eventos climáticos cada vez mais extremos. Para a coordenadora do NEA PancPop e professora da Furg, Jaqueline Durigon, as PANCs representam uma possibilidade concreta de construir outros modelos de produção de alimentos.

“A Agroecologia é praticada por povos e comunidades tradicionais e camponeses, e o Brasil é referência no mundo em pesquisa, ensino e extensão rural nessa área. No cenário atual, as PANCs têm se destacado como estratégias fundamentais para uma ‘outra agricultura’, muito mais eficiente, mais inteligente e sustentável. Isso porque, além de serem altamente produtivas, com grande valor nutricional, essas plantas são tolerantes a doenças e pragas e capazes de resistir ou se recuperarem após eventos climáticos adversos”, afirma.

Diversidade como resposta à crise climática

A pesquisa também ajuda a compreender por que a diversificação dos cultivos é uma estratégia importante para enfrentar as mudanças climáticas. Diferentemente dos sistemas baseados na concentração da produção em poucas espécies, os sistemas biodiversos ampliam as possibilidades de alimentação e reduzem a dependência de uma única cultura.

O professor da Furg Carlos Alberto Seifert Jr., conhecido como Jajá, destaca a importância da diversidade para a manutenção da produção.

“As PANCs fazem sentido no contexto de sistemas biodiversos para a promoção da resiliência climática e da resistência climática, porque é só com uma grande diversidade de espécies que a gente consegue construir essa perspectiva de que uma espécie apoia outra ou garante uma produção diante da perda de capacidade produtiva de outra. Não faz nenhum sentido pensar a produção das PANCs numa lógica de monocultura, até porque é essa lógica que tem mostrado alta vulnerabilidade aos eventos climáticos adversos”, avalia.

Entre as espécies observadas, o jambu, tradicionalmente utilizado em regiões tropicais do Brasil, mas ainda pouco explorado no Rio Grande do Sul, apresentou bom desempenho mesmo diante do frio e das geadas. Já o tupinambor, planta da mesma família do girassol que produz estruturas subterrâneas comestíveis, demonstrou capacidade de recuperação após vendavais, mantendo índices elevados de produtividade.

A araruta também apresentou bons resultados, segundo Durigon.

“A pesquisa científica em Agroecologia é capaz de apontar caminhos para a agricultura no Brasil e no mundo e é isso que observamos nessa pesquisa. Enquanto grande parte do Rio Grande do Sul sofria com as enchentes de 2024 e eventos climáticos adversos, com grande comprometimento da safra de hortaliças, nós registramos altos índices de produtividade para algumas espécies de PANCs, como o tupinambor e a araruta, e uma ampla variedade de oferta de folhosas nas feiras locais”, destaca a professora.

Agricultores são parte da pesquisa e da resistência

O trabalho desenvolvido em São Lourenço do Sul envolveu pesquisadores da Furg, da Universidade Federal de Pelotas (UFPel), da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), por meio da unidade Hortaliças, além da participação direta de agricultores familiares. A aproximação entre conhecimento científico e experiências camponesas é uma das características do trabalho do NEA PancPop.

Para a agricultora Neusa Fischer, participante do núcleo, o cultivo dessas espécies representa novas possibilidades tanto para a produção quanto para a alimentação da família.

“Eu me encontrei nas PANCs. Estou sempre buscando aprender mais a respeito destas plantas maravilhosas. Mas sei que são muito mais resistentes que as convencionais. Outra vantagem é que tem muitas que nascem espontaneamente, são rústicas. Aguentam muito mais tempo na terra sem estragar, depois de completar o ciclo. Se adaptam às mudanças climáticas com facilidade”, relata.

Fischer conta que, mesmo depois de tempestades violentas, muitas plantas conseguem rebrotar e voltar a fornecer alimentos em poucos dias. A diversidade também permite aproveitar pequenos espaços, combinando espécies com características diferentes. Parte da produção é comercializada na feira aos sábados, contribuindo para a renda familiar.

A experiência demonstra que a valorização das PANCs não se limita à descoberta de novas alternativas de cultivo. Também envolve o reconhecimento dos conhecimentos tradicionais, a conservação da agrobiodiversidade e o fortalecimento da soberania alimentar.

Conhecimento precisa se transformar em política pública

Apesar dos resultados, os pesquisadores alertam que ainda são insuficientes as políticas públicas voltadas ao apoio e à manutenção de sistemas produtivos biodiversos. Para Seifert Jr., os agricultores que conservam e cultivam essas espécies desempenham uma função social estratégica, que precisa ser reconhecida.

“A gente precisa reconhecer nos agricultores que mantêm esses sistemas um papel social, porque eles conservam uma diversidade de espécies que pode ser estratégica para garantir o nosso futuro e a capacidade de fornecer alimento diverso e de qualidade nesse presente de adversidades climáticas e num futuro incerto”, afirma.

O trabalho do NEA PancPop já contribui para ampliar a presença das PANCs nas feiras locais e sua inserção em políticas institucionais, como o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA), criando novas possibilidades de comercialização e geração de renda para as famílias agricultoras.

Segundo Durigon, as PANCs têm se tornado um verdadeiro “seguro produtivo”. Novas pesquisas do núcleo também investigam a utilização dessas plantas na elaboração de produtos alimentícios e fitoterápicos.

Mais do que identificar espécies capazes de enfrentar condições climáticas adversas, a experiência de São Lourenço do Sul coloca em evidência uma questão central para o futuro da alimentação: a necessidade de diversificar a agricultura, fortalecer a produção camponesa e reconhecer que a biodiversidade é parte fundamental da capacidade de produzir alimentos em um planeta cada vez mais sujeito a extremos climáticos.

Editado por: Marcelo Ferreira

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