A 72ª Feira do Livro de Porto Alegre, que tem como tema “Essência que faz histórias”, começou na sexta-feira (30), na praça da Alfândega, no Centro Histórico da Capital. Considerada a maior feira literária a céu aberto da América Latina, segue até 15 de novembro, com mais de 700 atividades gratuitas, entre literatura, música, debates e programação para diferentes idades.
A cerimônia de abertura, realizada no Teatro Petrobras Carlos Urbim, teve participação da cantora Luiza Barbosa e reuniu, entre as protagonistas, três mulheres: Roseni Siqueira Kohlmann, primeira mulher a presidir a Câmara Rio-Grandense do Livro (CRL); a escritora Martha Medeiros, patrona da edição anterior; e Heloisa Pires Lima, escritora, antropóloga e educadora escolhida como patrona deste ano.
Lima é a primeira mulher negra a ocupar o posto em mais de sete décadas de história da feira e a décima mulher a assumir o patronato. A escolha foi destacada na cerimônia como um marco de representatividade e reconhecimento da literatura negra.
Ao abrir a solenidade, Kohlmann compartilhou sua relação afetiva com o evento. Lembrou que, ainda criança, frequentava a feira acompanhada pelo pai e pelas irmãs, e cada uma podia escolher um livro para levar para casa.
“Quando eu era criança, meu pai me trazia à Feira, eu e as minhas irmãs. E cada uma de nós tinha o direito de escolher um livro. E mesmo que fosse apenas um exemplar, aquela escolha tinha um significado. Muitos anos depois eu entendi. Meu pai, ele estava dando a oportunidade de descobrir outros mundos, conhecer personagens, encontrar histórias que de alguma forma também falassem sobre nós”, recordou.
Para a presidente da CRL, garantir o acesso à leitura desde a infância exige mais do que dizer às crianças que ler é importante. “Não basta dizer a uma criança que ler é importante. Precisamos garantir que ela possa chegar a um livro, escolher uma história e ter oportunidade de levá-lo para casa.”
Kohlmann também destacou que, nesta edição, crianças e adolescentes poderão sair da feira com pelo menos um livro, graças à parceria com apoiadores. “Porque às vezes justamente aquela primeira leitura que desperta uma paixão é capaz de transformar a vida de alguém”, disse.
Sobre a escolha de Lima, ressaltou a importância de ampliar a presença de personagens negros na literatura infantil e juvenil. “A autora de ‘Histórias da Preta’, Heloisa nos lembra da importância de uma literatura em que as crianças e adolescentes negros possam se reconhecer, compreender as suas histórias e encontrar referências para construir o seu próprio futuro.”
Na sequência, Medeiros destacou a trajetória de Lima e a importância da escolha para a história da feira. “Essa feira vai nos dar a grande oportunidade de conhecer mais profundamente a obra desta educadora, pesquisadora e escritora que nasceu em Porto Alegre, estudou em São Paulo e que escreve para todos os públicos, incluindo um trabalho importantíssimo dedicado à literatura infantil juvenil”, afirmou.
Medeiros também ressaltou o protagonismo de personagens negras nas obras da nova patrona. “Heloisa, entre outros tantos méritos, dá protagonismo a personagens negras em suas histórias, valorizando assim a cultura afro-brasileira e sua representatividade.”
Ao se despedir do posto, agradeceu pela experiência na edição anterior e destacou o significado histórico da sucessora. “É uma honra para Porto Alegre te ter aqui, perto de nós, como a décima mulher a assumir o patronato do principal evento cultural do nosso estado, sendo a primeira patrona negra, como já foi mencionado.” Ao final da homenagem, entregou simbolicamente a chave da Feira do Livro a Lima.
Diversidade de origens na literatura
Ao assumir o patronato, Lima falou sobre a responsabilidade dos livros na formação do imaginário de crianças e adolescentes e defendeu maior diversidade de referências na literatura. “Nas diferentes infâncias, a gente pensa na qualidade desse imaginário que está em formação. Então, um livro é capaz de oferecer uma série de elementos para o imaginário. E o imaginário ajuda a perceber a realidade.”
A escritora, que reúne cerca de 40 títulos e atua também como editora, pesquisadora e consultora de projetos, apontou a predominância de referências europeias nas prateleiras. “Eu tenho uma origem continental africana, dentro de todas as nuances que ela possa ter, mas na prateleira de livros a gente tem a prevalência de uma origem continental europeia, há muito pouco tempo asiática e outras tantas que ainda não chegaram”, observou.
A patrona alertou que o incentivo à leitura precisa considerar também o conteúdo das obras. “Porque não adianta nada a gente incentivar a leitura se os livros forem absolutamente racistas. Para quê?”, questionou.
Lima também destacou a importância da feira para além do Rio Grande do Sul. “O Rio Grande do Sul tem muitos acertos e um deles é exatamente a Feira do Livro de Porto Alegre. Ela tem muito a ensinar para outras feiras que existem no Brasil afora e fora também do Brasil.”
Representatividade e políticas públicas
A secretária municipal de Cultura de Porto Alegre e futura secretária estadual de Cultura, Liliana Cardoso Duarte, destacou a diversidade cultural presente na feira e relacionou a literatura à própria trajetória.
“A Feira do Livro talvez seja um dos espaços mais democráticos e étnicos do nosso estado e do nosso município. Onde nos encontramos açorianos, portugueses, índios, negros, italianos, alemães, tantas etnias que forjaram a identidade cultural da nossa cidade e do nosso estado”, afirmou.
Duarte lembrou que sua relação com a leitura começou pela oralidade, com histórias contadas pela família. Também recordou que, ainda criança, criou uma apresentação teatral inspirada em “Alice no País das Maravilhas”. “Eu fui pela primeira vez a Alice preta dessa história, porque imaginava ser a grandeza, o protagonismo daquela jovem menina lá pelos seus nove, dez anos de idade.” Ela encerrou a fala declamando um poema de Oliveira Silveira.
Representando o Ministério da Cultura, o diretor do Departamento de Livro, Leitura, Literatura e Bibliotecas (DLLLB), Jeferson Assunção, classificou a feira como referência nacional. “Esta que é a mãe das Feiras do Livro, uma inspiração para tantos eventos literários, tantas Feiras do Livro no nosso país, a partir aqui do Rio Grande do Sul, mas que isso se alastrou, um modelo de relação com o livro, a leitura e a literatura, um modelo popular.”
Assunção destacou a gratuidade do evento e defendeu a formação de leitores com capacidade crítica. “É preciso escolas que saibam formar leitores, mas não apenas leitores funcionais, não apenas leitores de uma perspectiva técnica, mas de uma perspectiva crítica, de uma ampliação de repertórios, uma leitura estética, uma leitura com rebatimento em como a gente compreende a sociedade, uma leitura que também aprofunde a própria ideia de democracia”, defendeu.
Já o secretário de Articulação Intersetorial e com os Sistemas de Ensino do Ministério da Educação (MEC), Gregório Durlo Grisa, destacou a retomada do Ministério da Cultura no governo Lula e os investimentos federais em cultura e educação. Também apresentou iniciativas para ampliar o acesso aos livros.
Segundo Grisa, o Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE) compra 213 milhões de livros por ano, com orçamento de R$ 2,7 bilhões destinado a obras didáticas e literárias por meio do Programa Nacional do Livro e do Material Didático (PNLD). Ele também mencionou o PNLD Equidade, voltado à diversidade de escritores e editoras brasileiras.
O secretário apresentou ainda a plataforma MEC Livros, biblioteca digital do governo federal lançada em abril de 2026. De acordo com ele, a ferramenta registrou 1,3 milhão de acessos e cerca de 1 milhão de empréstimos desde a inauguração. São cerca de 26 mil exemplares, sendo 1,8 mil de domínio público e o restante disponibilizado por meio de contratos com editoras. O acesso é gratuito, por meio da conta Gov.br. Segundo Grisa, o livro mais acessado na plataforma é “A Cabeça do Santo”, da escritora cearense Socorro Acioli.
Grisa também criticou a circulação de informações falsas sobre a Lei Rouanet, afirmando que a legislação, há mais de três décadas, garante investimentos em cultura no Brasil. Para ele, parte do tempo que os brasileiros passam no celular — cerca de nove horas, segundo o secretário — pode ser direcionada à leitura.
Ao relacionar literatura e democracia, defendeu o livro como instrumento de enfrentamento à desinformação. “Virar a página da mentira, virar a página da vulgaridade de fake news que tanto circula em uma abundância maior que a verdade, é uma oportunidade única”, afirmou. O secretário também destacou o papel social da leitura: “A leitura não só emancipa o sujeito como ela emancipa a sociedade.”
Também participaram da cerimônia o prefeito de Porto Alegre, Sebastião Melo (MDB); o presidente da Câmara Municipal, Moisés Barboza (PSDB); e o secretário estadual da Cultura, André Kryszczun, além de representantes das instituições patrocinadoras e colaboradoras da feira.

Porto Alegre lidera acesso a livros e feiras literárias
A feira ocorre em uma cidade com índices expressivos de acesso à literatura. Segundo a pesquisa “Cultura nas Capitais”, divulgada em 2025, 72% dos moradores de Porto Alegre tiveram contato com um livro nos 12 meses anteriores ao levantamento, diante de uma média de 62% entre as capitais brasileiras.
O estudo também apontou que 39% dos porto-alegrenses foram a alguma feira literária recentemente. A média entre as capitais brasileiras foi de 21%.
A pesquisa ouviu 19,5 mil pessoas nas 26 capitais estaduais e no Distrito Federal, sendo 600 em Porto Alegre. O trabalho de campo foi realizado pelo Datafolha.
Em depoimento ao Brasil de Fato, Ana Maria de Souza, diretora da Biblioteca Pública do Estado e do Departamento do Livro, Leitura e Literatura do Rio Grande do Sul, destacou a escolha de Lima como patrona. “Essa feira, a céu aberto, uma das maiores da América Latina, que encanta a cidade, a cidade fica mais alegre nesses 15 dias da Feira do Livro. E esse ano com a patrona, a primeira mulher negra escritora, que está aqui sendo patrona da Feira do Livro. Então, para a gente é um motivo de bastante orgulho e para nós, na Secretaria da Cultura, mais ainda.”
Souza mencionou atividades gratuitas da Secretaria Estadual da Cultura, como o estande do Prêmio Minuano, com empréstimo de livros e cadastro de usuários, desafios literários e encontros com autores missioneiros.
Ela também ressaltou a presença de escritores gaúchos em premiações e a relação do estado com a literatura. “Porto Alegre, o Rio Grande do Sul como um todo, tem uma relação muito íntima com a cultura como um todo e com a literatura em especial. Veja só, basta a gente ver quantos autores que o Rio Grande do Sul exporta, exportou no passado e tem exportado agora. Muitos autores gaúchos estão sendo premiados. E o povo gaúcho gosta muito de escrever também”, declarou.
Segundo a diretora, as bibliotecas têm registrado aumento no número de leitores e de pessoas que retiram livros emprestados. “Nós nas bibliotecas, tanto na Biblioteca Pública do Estado, que eu dirijo, e nas bibliotecas municipais do estado, temos visto um número crescente de leitores, de pessoas retirando livros emprestados.”
Livrarias estreiam na feira e destacam diversidade
A edição deste ano também marca a estreia de novos expositores, entre eles a TAG Livros e a Livraria Baleia. Representante da TAG Livros, Laura Viola contou que participar do evento era um desejo antigo da empresa, que tem sede em Porto Alegre e associados em diferentes regiões do país. “Pra gente é muito especial, sempre foi um sonho participar da Feira do Livro. Somos de Porto Alegre, apesar de termos associados do Brasil inteiro. Dentro da TAG tinha muito aquela memória de infância, de vir pra feira, comprar um monte de livro, ou enfim, conhecer um monte de livro”, expôs.
Segundo Viola, a empresa, que tinha atuação concentrada no ambiente digital, decidiu investir em uma feira física e escolheu o evento de sua cidade para estrear.
Já Nanni Rios, da Livraria Baleia, destacou as dificuldades enfrentadas por pequenos estabelecimentos para participar da feira, mas também a alegria de apresentar o trabalho ao público. “É um grande sonho para a Baleia estar na Feira do Livro, esse evento um dos mais importantes da nossa cidade. É uma trajetória bastante exigente estar aqui na feira, porque a gente tem todo o trâmite da Câmara do Livro e para uma livraria pequena que convive com as outras livrarias maiores é um pouquinho desigual (…) Mas passado as exigências, a gente chega aqui muito feliz. Porque é isso, poder estar em contato com o público no meio da praça, com tudo que a rua oferece, para poder mostrar para muito mais gente a curadoria que a gente faz na loja. É uma grande alegria”, afirmou.
Rios também relacionou a estreia da livraria à escolha de Lima como patrona e à ampliação da representatividade na feira. “A gente chega num momento em que muita coisa está sendo desacomodada para o bem de todo mundo. Então, no momento em que a gente vê mulheres virando patronas, como foi o caso, a gente teve Jeferson Tenório que foi o primeiro patrono negro faz muito pouco tempo e agora pela primeira vez uma patrona negra que escreve para as infâncias. Isso é muito incrível.”
Para a livreira, a literatura também contribui para enfrentar a desinformação e desenvolver a capacidade crítica dos leitores. “Ela cria camadas de sensibilidade no ser humano, ela cria camadas de entendimento, ela te faz ficar um pouco mais desconfiado com o que cai nas tuas mãos. Então eu acho que tem todo um ganho para quem lê para uma questão de civilidade. A gente fica mais esperto, a gente consegue se mexer melhor no mundo.”


