Eleições nos EUA

Após perder primárias para candidato pró-Palestina, democrata pró-Israel declara apoio a republicano e gera revolta no partido: ‘Traição desprezível’

Haley Stevens recebeu doações milionárias do lobby sionista para disputar vaga no Senado pelo Estado do Michigan

Deputada democrata Haley Stevens declarou apoio a candidato republicano
Rep. Haley Stevens (D) endorses Republican Senate nominee Senator Mike Rogers (R) while speaking to the press outside the Perfecting Church in Detroit, Michigan, on November 1, 2026. (Photo by Zach D Roberts/NurPhoto) (Photo by Zach D Roberts / NurPhoto via AFP) | Crédito: Zach D Roberts/AFP

A deputada democrata dos Estados Unidos Haley Stevens declarou nesta segunda-feira (02) seu apoio oficial ao candidato republicano ao Senado, Mike Rogers, a apenas dois dias das eleições de meio de mandato (midterms) no país. A decisão provocou um fortes reações da cúpula do Partido Democrata e deve bagunçar a corrida eleitoral no Estado do Michigan.

O líder da minoria democrata no Senado, Chuck Schumer, reagiu de forma contundente ao posicionamento da deputada e classificou sua conduta como uma “traição desprezível”.

A parlamentar, que foi derrotada nas primárias democratas de agosto pelo médico e ex-secretário de Saúde pública Abdul El-Sayed, candidato progressista de origem egípcia e crítico contundente da ofensiva militar israelense na Faixa de Gaza, apareceu ao lado do rival republicano durante um culto em uma igreja na cidade de Detroit.

O movimento da parlamentar expõe seus vínculos com o lobby sionista na política estadunidense, já que ela preferiu apoiar o rival para evitar a vitória de um candidato pró-Palestina.

Durante a disputa interna das primárias, a candidatura de Haley Stevens recebeu dezenas de milhões de dólares em financiamento direto de super PACs (comitês de ação política) afiliados ao Comitê de Assuntos Públicos Americano-Israelense (AIPAC, na sigla em inglês), o principal grupo de pressão pró-Israel em Washington. Segundo a ferramente de análise de dados Track AIPAC, Stevens recebeu cerca de 35 milhões de fundos sionistas durante a campanha das primárias.

O objetivo da vultosa injeção de recursos era justamente conter o avanço de El-Sayed, que tem denunciado os crimes de guerra no território palestino e a cumplicidade de Washington com o governo de Benjamin Netanyahu.

A escalada do conflito entre os dois políticos intensificou-se às vésperas da votação, após a veiculação de uma propaganda produzida pelo Rebellion PAC, grupo independente alinhado a El-Sayed, que relacionou os bilhões de dólares enviados em assistência militar a Israel com o aumento do custo de vida e a perda do poder de compra das famílias trabalhadoras estadunidenses.

Stevens classificou o anúncio como “antissemita” e exigiu retratações públicas de El-Sayed. Embora o candidato tenha esclarecido que a peça não tenha sido produzida por sua campanha e reiterado que seu foco estava nas pautas econômicas de Michigan, a deputada utilizou o episódio como justificativa para abandonar a candidatura oficial da legenda.

Ao anunciar a aliança com o republicano Mike Rogers na saída do culto em Detroit, Stevens gravou um vídeo publicado em suas redes sociais alegando ter sido declarada “persona non grata” na campanha democrata. Contudo, a deputada estadual Debbie Dingell desmentiu a versão, explicando que pediu o afastamento de Stevens das agendas públicas conjuntas apenas para conter o clima de atrito desnecessário alimentado pela parlamentar a poucos dias do pleito.

Reação imediata

A decisão de Haley Stevens provocou forte indignação entre lideranças nacionais e locais do Partido Democrata, que tentam manter o controle do Senado em uma disputa acirrada em Michigan.

A deputada e ex-chefe da Câmara dos Representantes Nancy Pelosi também criticou a decisão, afirmando que Stevens “escolheu trair de maneira perigosa a saúde, as liberdades e o futuro das família do Michigan com esse apoio horrível”.

Em nota oficial, o presidente do Comitê Nacional Democrata (DNC), Ken Martin, repudiou as manobras da parlamentar e destacou o caráter divisionista do ato.

“A decepcionante decisão de Haley Stevens de fazer campanha para Mike Rogers, um aliado de Donald Trump que se alinha a projetos de retirada de direitos da classe trabalhadora, representa uma traição direta aos valores do Partido Democrata. No momento em que a legenda está unida na defesa das famílias de Michigan, rejeitamos categoricamente essas tentativas de semear divisões em nossa base”, declarou o dirigente.

O presidente do Partido Democrata em Michigan, Curtis Hertel, reforçou as críticas e apontou o esvaziamento político da deputada. “A escolha de Haley Stevens de se alinhar publicamente a Rogers demonstra que ela abandonou tudo o que afirmava defender ao longo de sua trajetória pública. Não permitiremos que distrações de última hora desviem nossa mobilização”, afirmou Hertel, ressaltando que o nome da deputada não figurará mais nos quadros futuros da agremiação no estado.

Debandada no gabinete

O anúncio da aliança com a extrema direita republicana desencadeou uma crise imediata no próprio gabinete parlamentar de Stevens. O chefe de gabinete da deputada, Justin German, que atuava com a parlamentar há oito anos, anunciou o pedido de demissão coletiva ao lado de diversos assessores diretos e diretores de comunicação da equipe.

“Estamos chocados e de coração partido com a decisão da deputada de apoiar Mike Rogers. Esta eleição é decisiva demais para que se promovam divisões ou se fique em cima do muro”, afirmou German em comunicado oficial transmitido à imprensa estadunidense.

Paralelamente, uma coalizão formada por organizações da sociedade civil e movimentos populares, entre eles a IfNotNow (grupo de judeus estadunidenses pelo fim do apartheid em Gaza), a MPower Action (organização de defesa de direitos de muçulmanos) e a Our Revolution, enviou uma representação formal ao líder da bancada democrata na Câmara dos Representantes, Hakeem Jeffries, exigindo punições severas contra a parlamentar.

As entidades solicitam a expulsão imediata de Haley Stevens da bancada e a remoção de todas as suas cadeiras em comissões parlamentares. “Stevens traiu o Partido Democrata e seus eleitores ao orquestrar uma manobra de última hora destinada a sabotar a candidatura ao Senado. Integrantes do Congresso que utilizam seus cargos para impulsionar adversários partidários e enfraquecer candidaturas progressistas não podem continuar usufruindo dos privilégios da bancada”, destacaram as organizações na representação.

Enquanto a base democrata repudia o apoio ao rival, o ex-presidente Donald Trump e o presidente da Câmara dos Representantes, o republicano Mike Johnson, celebraram publicamente o movimento de Stevens durante comício em Iowa.

Trump qualificou a atitude da deputada como um gesto de “coragem e bravura quase sem precedentes”, convidando-a abertamente a se filiar ao Partido Republicano após o encerramento de seu mandato no Congresso.

Editado por: Lucas Estanislau

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