O médico Abdul El-Sayed, candidato do Partido Democrata ao Senado dos Estados Unidos (EUA) pelo Michigan, chega à eleição de meio de mandato desta terça-feira (3) na liderança da disputa. Se derrotar o republicano Mike Rogers, ex-agente da Polícia Federal estadunidense (FBI) e ex-deputado, El-Sayed será o primeiro muçulmano a ocupar uma cadeira no Senado do país.
Pesquisa do The New York Times em parceria com a Universidade Siena, realizada entre 23 de outubro e 1º de novembro, aponta 53% das intenções de voto para El-Sayed, contra 42% de Rogers. O democrata é um dos nomes da ala mais progressista do partido e defende o fim da ajuda militar dos EUA a Israel.
A vaga em disputa é hoje ocupada por um senador democrata que não vai concorrer à reeleição, e nenhum republicano se elege para essa cadeira desde 1994. Para retomar o controle do Senado, os democratas precisam de um ganho líquido de quatro cadeiras. Uma derrota no Michigan, estado que votou em Joe Biden em 2020 e em Donald Trump em 2024, obrigaria o partido a conquistar cinco.
Saúde pública e taxação dos ricos
Filho de imigrantes egípcios, El-Sayed nasceu em Rochester Hills, no Michigan, em 1984. O candidato é formado em medicina pela Universidade Columbia e foi diretor-executivo do Departamento de Saúde de Detroit. Em 2018, tentou a candidatura ao governo do estado, mas perdeu as primárias para Gretchen Whitmer, hoje governadora em segundo mandato.
Com o lema “dinheiro fora da política, dinheiro no seu bolso, Medicare para todos”, o candidato defende saúde pública gratuita, a taxação de grandes fortunas e o fim do Serviço de Imigração e Fiscalização Aduaneira (ICE).
Apesar do apoio do grupo de parlamentares de esquerda conhecido como Squad, que inclui a deputada Alexandria Ocasio-Cortez, El-Sayed rejeita o rótulo de socialista.
“Eu acredito no capitalismo, mas acredito que o capitalismo tem que ser regulado. […] Eu acredito que os bilionários deveriam pagar sua parte para que nossas crianças possam ir para boas escolas. Não é tão radical”, argumentou em entrevista à CNN.
Gaza no centro da campanha
El-Sayed classifica como genocídio a ofensiva israelense na Faixa de Gaza, iniciada após os ataques de 7 de outubro de 2023, e defende o fim do envio de recursos militares dos EUA a Israel. Segundo o projeto Custos da Guerra, da Universidade Brown, a ajuda militar estadunidense ao país chegou a cerca de US$ 21 bilhões entre outubro de 2023 e setembro de 2025.
“Eu acredito em direitos iguais à paz, dignidade e autodeterminação tanto para judeus israelenses quanto para palestinos. Mas acho que a nossa responsabilidade, acima de tudo, é usar o dinheiro dos nossos impostos aqui no Michigan para proporcionar saúde, escolas e estradas, em vez de enviá-lo a um governo estrangeiro que pode usá-lo em forma de bombas e tanques para destruir infraestrutura, escolas e hospitais lá”, declarou à imprensa estadunidense.
Rogers, apoiado por Trump, rejeita qualquer corte na ajuda militar e trata a aliança com Israel como questão de segurança nacional. O tema tem peso especial no Michigan, que abriga uma das maiores comunidades árabes dos EUA. Nas primárias democratas de 2024, mais de 100 mil eleitores do estado votaram como “não comprometidos” em protesto contra o apoio do então presidente Joe Biden à ofensiva israelense.
Ataques de Trump
Nas primárias de agosto, El-Sayed derrotou a deputada Haley Stevens, apoiada pela cúpula democrata e pelo lobby pró-Israel. Segundo a imprensa estadunidense, o Comitê de Assuntos Públicos Estadunidense-Israelense (Aipac) gastou mais de US$ 30 milhões na campanha contra o progressista.
Na reta final, o candidato virou alvo de Trump, que o chamou de “jihadista”, questionou sua lealdade aos EUA e o acusou de estar ao lado de terroristas, em declarações apontadas como islamofóbicas. Rogers repetiu a acusação de que o democrata teria laços com a Irmandade Muçulmana, o que El-Sayed nega.
O ex-presidente Barack Obama, que no passado foi classificado por El-Sayed como “bastante centrista e moderado”, participou de um comício ao lado do candidato em Detroit. “Temos clareza sobre a escolha nesta eleição. Abdul está lutando por mudanças reais, que acabarão com esta guerra, tirarão o dinheiro da política e o devolverão para o seu bolso”, afirmou Obama.
‘Traição desprezível’
Derrotada nas primárias pelo candidato pró-Palestina, a democrata pró-Israel Haley Stevens declarou apoio ao republicano Mike Rogers a dois dias da eleição e provocou revolta no próprio partido. No domingo (1º), a deputada apareceu ao lado de Rogers na saída de um culto e anunciou a decisão.
“Eu não pertenço à campanha do Abdul. Quem somos como povo do Michigan não é ódio, e não é o que estamos recebendo do nosso candidato democrata agora”, disse Stevens em vídeo publicado no X.
O líder democrata no Senado, Chuck Schumer, classificou o gesto como uma “traição desprezível”. O presidente do Partido Democrata no Michigan, Curtis Hertel, afirmou que a deputada “abandonou tudo aquilo com que diz se importar”. Segundo a BBC, parte da equipe de Stevens se demitiu logo após o anúncio.
A briga entre os dois se agravou nos últimos dias, depois que Stevens cobrou de El-Sayed que denunciasse um anúncio de um grupo progressista externo à campanha que relacionava o apoio dos EUA a Israel à alta dos preços. O candidato criticou a peça e disse não ter relação com ela. Stevens participaria de um ato com El-Sayed no domingo, mas ele teria pedido que ela não fosse. “Abdul deixou claro que eu não era bem-vinda na campanha dele”, reclamou.
Trump comemorou a adesão em comício no Iowa. “Eu adoraria que ela se juntasse ao Partido Republicano”, provocou o presidente. El-Sayed minimizou o episódio. “No fim das contas, eu não penso em Haley Stevens. Nada disso importa”, respondeu o candidato a jornalistas, dizendo estar concentrado nos problemas da população do estado.
Vantagem democrata em outros estados
A pesquisa do The New York Times mostra candidatos democratas à frente em outros seis estados. No Texas, onde os republicanos dominam as cadeiras do Senado há mais de três décadas, o deputado estadual James Talarico tem 50%, contra 43% do procurador-geral Ken Paxton, que recebeu mais de US$ 150 milhões do bilionário Elon Musk.
No Maine, Jackson (D) soma 51%, contra 45% de Collins (R). No Ohio, Brown (D) tem 49%, e Husted (R), 44%. No Kansas, Hamilton (D) marca 49%, contra 44% de Marshall (R). As disputas mais apertadas estão no Alasca, onde Peltola (D) tem 48% e Sullivan (R), 46%, e no Iowa, com 48% para Turek (D) e 47% para Hinson (R).

