O Estado cubano sofreu perdas superiores a 8 bilhões de dólares entre 1º de março de 2025 e 28 de fevereiro de 2026 em consequência do bloqueio estadunidense. É o que aponta o relatório apresentado por Cuba à Assembleia Geral das Nações Unidas, que, na última quarta-feira (28), aprovou, pela 34ª vez consecutiva, a resolução “Necessidade de pôr fim ao bloqueio econômico, comercial e financeiro imposto pelos Estados Unidos da América contra Cuba”.
Com o título “Cuba não é uma ameaça, o bloqueio sim”, o governo cubano disponibilizou um site que explica, de maneira didática, como essa política afeta o dia a dia da população. Entre os dados apresentados, a plataforma informa que atualmente o país enfrenta “mais de 20 horas de cortes de energia elétrica, em média, em todo o território nacional”.
O site também apresenta as graves dificuldades enfrentadas pela população cubana em diferentes áreas. Na saúde, cerca de 100 mil pacientes, entre eles 12 mil crianças, estão na fila de espera por cirurgias devido aos obstáculos para realizar esses procedimentos no atual contexto de asfixia energética.
O documento aponta ainda que a taxa de recuperação de pacientes com câncer caiu de 85% para 65%. São centenas de vidas que poderiam ser salvas em outras circunstâncias. A isso se soma a situação de cerca de 32 mil mulheres grávidas que estão em risco devido à instabilidade no acesso aos serviços de pré-natal, segundo alertou o coordenador residente do Sistema das Nações Unidas em Cuba.
Como são calculados os prejuízos do bloqueio?
Desde 1992, a Assembleia Geral da ONU aprova, ano após ano e por ampla maioria, uma resolução que pede o fim do bloqueio. Junto com o projeto de resolução, Cuba apresenta uma análise detalhada dos efeitos dessa política sobre sua economia.
O relatório é coordenado pelo Ministério das Relações Exteriores de Cuba (Minrex), com a participação do Ministério da Economia e Planejamento (MEP), do Escritório Nacional de Estatística e Informação (ONEI) e de outros órgãos oficiais.
O objetivo é calcular quanto o país perde em danos materiais, receitas que deixa de receber e gastos adicionais que precisa assumir por causa do bloqueio. Para isso, o relatório analisa um período que geralmente vai de março do ano anterior a fevereiro do ano em que é apresentado.
Entre os prejuízos estão as receitas de exportações, que Cuba não consegue concretizar. Isso acontece, por exemplo, quando Washington pressiona outro país a deixar de contratar serviços médicos cubanos ou quando uma empresa estrangeira desiste de comprar produtos da ilha por medo de represálias estadunidenses.
O bloqueio também encarece o transporte de mercadorias. As sanções contra empresas que comercializam com Cuba ou contra navios que fazem escala em seus portos aumentam os custos de transporte marítimo, seguros e armazenamento. Com isso, o país pode chegar a pagar até três vezes mais para transportar seus produtos.
As restrições também dificultam as operações financeiras. Como enfrenta obstáculos para acessar o sistema bancário estadunidense e utilizar o dólar no comércio internacional, Cuba precisa recorrer a intermediários e realizar operações em outras moedas, como euros, yuans ou francos suíços. Isso provoca perdas com a conversão de moedas, comissões mais altas e dificuldades para encontrar bancos dispostos a trabalhar com o país por medo das sanções de Washington.
Outro problema é a compra de tecnologia, máquinas, medicamentos e peças de reposição. Cuba também não pode adquirir determinados produtos fabricados em terceiros países que contenham mais de 10% de componentes estadunidenses. Isso porque Washington ameaça sancionar as empresas que decidirem vendê-los à ilha. Com isso, Cuba é obrigada a buscar alternativas, muitas vezes mais caras, ou fica até mesmo impedida de adquirir peças de reposição. O relatório busca calcular as perdas econômicas provocadas por esses obstáculos.
Bloqueio ou embargo?
Os Estados Unidos se referem às medidas contra Cuba como um “embargo”, termo também frequentemente utilizado pela imprensa liberal. Com essa denominação, Washington apresenta as restrições como uma decisão soberana e bilateral entre os dois países, destinada a limitar o comércio de empresas e indivíduos estadunidenses com a ilha.
Cuba, por sua vez, sustenta que essas medidas têm caráter extraterritorial. Por meio de leis como a Torricelli e a Helms-Burton, Washington busca dificultar também o comércio da ilha com terceiros países e isolá-la internacionalmente. Portanto, os efeitos dessas medidas vão muito além de uma decisão estritamente bilateral.
No âmbito do direito internacional e das Nações Unidas, utiliza-se o conceito de “medidas coercitivas unilaterais” (MCU), que se refere às sanções econômicas impostas por um Estado contra outro sem o respaldo do Conselho de Segurança. Trata-se de medidas de pressão de um Estado sobre outro.
O caráter extraterritorial dessas restrições ficou evidente nas decisões adotadas por Washington contra Cuba desde o início deste ano. Em 29 de janeiro, ao impor a asfixia energética contra a ilha, os Estados Unidos ameaçaram sancionar qualquer país ou entidade que vendesse ou fornecesse petróleo a Cuba.
A mesma lógica foi aplicada com a ampliação das chamadas “sanções secundárias”, por meio das quais Washington estendeu suas ameaças a empresas não estadunidenses que pretendam manter relações econômicas com a ilha.

