VIVÊNCIA

Habitar o sublime? Trouxeste a chave?

Tamboreiros e cantantes conduzem a roda de Quicumbi na praça, em Cachoeira do Sul

Coroação da Rainha Ginga Lair Vidal
Coroação da Rainha Ginga Lair Vidal | Crédito: Kauã Mello

Há algum tempo venho pensando, imaginariamente, em momentos que temos acesso a outra dimensão. Falo disso procurando evitar romantizações, porém habitar o sublime é algo que nos é facultado ao longo da vida. Talvez isso seja o sagrado, algo da ordem do impalpável, mas que sim existe, eu sei, eu sinto, eu vivo porque sinto. Ainda em estado de êxtase uma vez mais por tudo que partilhamos juntos pelo quinto ano consecutivo em Cachoeira do Sul, no dia 1º de novembro de 2026.

Tamboreiros e cantantes conduzem a roda de Quicumbi na praça, em Cachoeira do Sul | Crédito: Kauã Mello

A mim coube a missão, em forma de confiança, de conduzir os tamboreiros com cantantes e construir um plano pedagógico permanente junto a escolas locais via produção local de Náthaly Weber.

A Associação Rainha Ginga e eu como mediador educacional buscamos transformar resistência histórica negra em ação continuada, muito além de um evento. A memória é um tambor velho, cápsula a prova de tempo, batendo… Repinicando…

Gosto da poesia, tenho fé na palavra pois o que não foi inventado é porque está a espera de nascer. Nela, Mãe Poesia, podemos reiterar: A vida é um livro aberto de páginas em branco.

Cachoeira do Sul, Rio Pardo e Tavares escreveram e escrevem esse livro das aprendizagens com letras negras.

Os tambores fazem a ligação via mãos dos tamboreiros entre o aiê e o orun, o mundo dos vivos e o mundo dos ancestralizados. E quando se vivencia a vida se ancestralizando, qual nome se dá a isso?

Participantes ocupam a praça em reverência a Bará, na atividade que integra o plano pedagógico com escolas locais | Crédito: Kauã Mello

Lair Vidal, Joelita David e Seu Faustino. O nascimento de um griô é demorado porque cotidianamente infinito. Guias nossos a nos permitir habitar o sublime.

Se fosse em Pelotas eu diria que saí encharcado (referência ao charque salgado por mãos negras e que construiu a riqueza econômica da cidade e do estado) de encantamentos. Sendo em Cachoeira me permito a ousadia de criar um neologismo: saí arrozado de alma bem alimentada.

A tamboralitura, que penso epistemologicamente como potente ferramenta antirracista, trata-se da roda humana em torno dos tambores e das poéticas amefricanas filhas do mundo iorubanto. A diáspora tem seus pormenores, a Pachamamáfrica inventa seus pormaiores.

A barca que atravessa oceano a unir continentes ali em estilizada capela no Bairro São José, periferia de Cachoeira do Sul.

O lado negro da praça habitado a partir de uma reverência ao Bará, ele ofertando a chave para a ocupação da praça proibida pela sociedade branca e oligárquica. A retomada dos saberes ancestrais se instituindo enquanto prática antirracista. O simbólico é concreto, não tenho dúvidas.

Tambores fazem a ligação entre o aiê e o orun durante a vivência da tamboralitura | Crédito: Kauã Mello

A Santa Josefa lá atrás da Capela de Nosso Senhor do Bom Fim. Referência Reverência, uma letra muda tudo, uma vida fala muito mesmo quando diante de morte imposta pelo machismo, racismo, autoritarismo.

Oshalá velho no sincretismo afro católico a ressignificar um fim trágico. O oriki para Oshalá entoado em iorubá arcaico no Ibi de Babá ancião espalhando seu véu de proteção pelo universo inteiro. No sagrado a semântica se constrói pelos poros. Entende-se sentindo. Palavras significam, emoções prescindem de explicação.

A Lei 11645 pode ser somente um preceito legal. Colocar em prática é desafio cotidiano. A urgente incorporação das poéticas originárias e negras ao corpus da historiografia cultural brasileira é necessidade urgente. O Quicumbi é porque sempre foi circular como é a escritura da vida quando escrita de tempos. Sim, eu vi Dona Lair na Cachoeira. Só viu e ouviu quem esteve lá.

Habitar o sublime tem seus inícios, meios, caminhos e novamente meios. Não há fim para quem se dispõe a se encontrar com o sagrado que nos habita.

Rainha Ginga Lair Vidal | Crédito: Richard Serraria

Richard Serraria, Porto Alegre, 2 de novembro de 2026. Mais que renascido e vivo num Dia de Finados

* Richard Serraria, poeta/cancionista e tocador de sopapo, doutor em Estudos Literários pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).

** Este é um artigo de opinião e não necessariamente expressa a linha editorial do Brasil de Fato.

Editado por: Katia Marko

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