entrevista exclusiva

Mundo vive o ‘parto doloroso’ de uma nova ordem, diz estrategista iraniano em entrevista exclusiva ao BdF

Mostafa Khoshcheshm aponta transição de poder para o Oriente e possível guerra híbrida contra a China

Seyed Mostafa Khoshcheshm, estrategista iraniano
Seyed Mostafa Khoshcheshm, estrategista iraniano | Crédito: Arquivo pessoal

Na semana passada, a exportação de petróleo pelo estreito de Ormuz caiu para 8,7 milhões de barris por dia, metade do nível de antes da guerra, segundo a consultoria Kpler. O diesel chegou a US$ 220 o barril no atacado, mais que o dobro de antes do conflito no Oriente Médio, e as cinco maiores petroleiras ocidentais somaram mais de US$ 50 bilhões de lucro no terceiro trimestre. Para Seyed Mostafa Khoshcheshm, é a prova do que ele chama de a arma mais poderosa do Irã. “É uma arma milhões de vezes mais forte que a bomba atômica”, disse ao Brasil de Fato. “Com uma bomba atômica, você atinge um país uma vez. Com o estreito de Ormuz, você atinge o planeta inteiro, repetidamente.”

Na primeira parte desta entrevista, o estrategista iraniano falou da nova rodada da guerra que se espera. Agora, ele vai do estreito à ordem mundial. Dessa década de guerras, prevê, não sairá nenhuma superpotência, mas quatro grandes potências — China, Índia, Rússia e Irã —, todas no Brics e na Organização para Cooperação de Xangai.

Khoshcheshm não acredita que essa transição se decida só com mísseis. Derrotados pelo Irã, diz, os Estados Unidos “não terão a menor condição de enfrentar a China” e vão apostar na guerra híbrida, inclusive biológica. “Depois do Irã, será a China. Acredito que, em 2027, veremos a disseminação de vírus como a COVID.” A disputa seguinte, avisa, é a da inteligência artificial, que dividirá o mundo entre “senhores e escravos”. As monarquias do Golfo que escolheram o campo estadunidense já a perderam, e seus data centers, diz, “serão os próximos” na terceira rodada da guerra.

Confira a segunda parte da entrevista exclusiva para o Brasil de Fato.

Brasil de Fato: Em um artigo na The Atlantic, Robert Kagan, um dos principais pensadores neoconservadores, escreveu que os Estados Unidos sofreram a pior derrota estratégica da sua história e que o Irã vai emergir como a principal potência regional. Ainda falta a terceira rodada, mas como será o Irã como potência regional, a relação com os países árabes, o futuro dos Estados Unidos na região? O Irã pode se tornar uma potência global?

Seyed Mostafa Khoshcheshm: O mundo está numa transição de poder da civilização ocidental para o Oriente há mais de uma década, até intelectuais estadunidenses e europeus afirmam isso. Para mim, a década de 2020 é a deste “parto doloroso”, e haverá cada vez mais guerras. Quem tem o poder, o império ocidental liderado pelos Estados Unidos, não o larga facilmente. Haverá guerras e atritos, sobretudo com as potências emergentes: Rússia, China e Irã. Por isso, acredito que veremos alguma forma de guerra contra a China em 2027 ou 2028.

Os chineses já dizem isso. Estão se preparando.

Se os Estados Unidos forem derrotados pelo Irã, eles não terão a menor condição de enfrentar a China. Vão recorrer mais à guerra híbrida, que será completamente diferente. Vão recorrer à guerra biológica, a diferentes tipos de guerra ao lado da militar. Até nuclear. Seja como for, eles estão resistindo, como os europeus contra a Rússia.

Acredito que, em 2027, veremos a disseminação de vírus como a COVID. Os Estados Unidos não vão largar o poder tão facilmente. Trump pode gostar de Putin, mas existe um deep state que ele não controla. Eles não vão deixar a Rússia vencer tudo tão facilmente. Se não conseguirem pela via militar, farão isso com armas biológicas. Na China, o mesmo. No próprio Irã, o mesmo. Conheço os estadunidenses, a guerra híbrida deles, as intenções do Estado profundo e o seu comportamento. O padrão me diz que, quando se sentirem sem esperança e derrotados, vão soltar a guerra assimétrica, as novas formas de guerra, incluindo essa, e os ataques cibernéticos vão se intensificar.

Até na ciberguerra é assim. Antes de 2010, antes do Stuxnet [vírus de computador atribuído aos Estados Unidos e a Israel, que sabotou centrífugas do programa nuclear iraniano], o mundo vivia num ambiente de ameaças à segurança, com roubo de informação industrial e coisas do tipo. O Stuxnet transformou isso numa guerra cibernética entre Estados. Desde então, todos os grandes atores aumentam essa capacidade e investem nela de formas desconhecidas. A inteligência artificial é a nova versão de tudo: ciberguerra, guerra híbrida, em diferentes aspectos.

Se o mundo não estivesse numa transição de poder, com guerras como esta, o mundo do futuro, para mim, já não seria o do petróleo ou dos combustíveis fósseis. Seria o da inteligência artificial, com duas categorias: os senhores e os escravos, ou seja, quem possui o software e o hardware de IA, e o resto. Uma das principais disputas entre o Ocidente e o Oriente hoje é quem será o senhor da IA no futuro. Os campos estão se formando. A Arábia Saudita e os Emirados, entre os países árabes do Golfo Pérsico, decidiram entrar no campo estadunidense.

E uma das coisas que esses países árabes do Golfo Pérsico já perderam é a IA, porque dependiam demais dos Estados Unidos. Até agora falamos de duas guerras; a terceira ainda não aconteceu. Os data centers serão os próximos, na terceira. É uma das coisas que eles e Israel vão perder. Isso é muito importante.

Se Biden estivesse no poder, os Estados Unidos seriam mais duros com Putin.

Sem dúvida. Com Trump é diferente, ele joga demais no campo de Putin.

Mas não seria um cálculo estratégico? Gente do círculo de Trump dizia, antes mesmo da eleição, que a guerra contra a Rússia era um erro, porque a Rússia não é o principal adversário. Ele estaria encerrando essa guerra para se concentrar na China.

Não há dúvida de que o Irã é o principal inimigo ideológico dos Estados Unidos, e a China é o inimigo econômico. Mas nem tudo se controla: às vezes as guerras simplesmente estouram. Ou a Rússia percebe, por exemplo, que uma ameaça iminente está surgindo. Talvez tenham feito os cálculos: se fizermos isso, não haverá guerra contra nós; vamos enfraquecê-los agora, antes que seja tarde demais. Porque eles não entrariam numa guerra total, como no caso da Crimeia.

Depois de uma década de guerras, não sobrará nenhuma superpotência: a capacidade de todos estará desgastada. Mas o poder estará no Oriente. A nova ordem mundial que vai surgir no horizonte, provavelmente depois de 2030 ou 2032, será definida por coalizões regionais e internacionais como o Brics e a Organização para Cooperação de Xangai, que equivalem ao G7, à Otan e à OCDE do Ocidente. A Conferência de Segurança de Munique [fórum anual sobre segurança internacional, na Alemanha] já ocupou o centro do palco; hoje sua rival, a de São Petersburgo, ganha importância e prestígio. Não haverá superpotências, mas esses agrupamentos vão definir a nova ordem.

A maioria dos pensadores acredita que haverá quatro grandes potências, não superpotências: China, Índia, Rússia e Irã. Se ficarem juntas, podem começar algo novo no mundo. Se brigarem entre si, haverá uma confusão no mundo inteiro.

Interessante pensar que as quatro são membros do Brics e da Organização de Xangai.

Sim. Há grandes diferenças entre a China e a Índia, mas as duas estão no Brics porque perceberam isso. Agora, por que o Irã estaria entre elas? Economicamente, não se compara às outras três. Militarmente, a China e, sobretudo, a Rússia estão muito à frente. A razão é o que torna o Irã único: o Eixo da Resistência [aliança regional liderada pelo Irã, com o Hezbollah libanês, o Ansarullah iemenita, milícias iraquianas e grupos palestinos], em terra e no mar.

Em terra, é um mercado de 400 milhões a 500 milhões de pessoas na região mais estratégica do mundo, o coração do mundo: a Ásia Ocidental, com as reservas de energia, os minerais, as civilizações antigas, as religiões, ligando o norte ao sul e o leste ao oeste. Nos próximos dez ou 20 anos, quem quiser fazer negócios ou impor uma nova ordem mundial ou regional terá de trabalhar com o Irã por causa desse Eixo da Resistência que resistiu ao teste do tempo.

O mar é ainda mais importante. Há cinco estreitos e canais estratégicos no mundo, como o do Panamá, de Suez, Malaca, Ormuz e Bab al-Mandab. Eles importam porque a maior parte do comércio mundial e dos deslocamentos militares passa pelo mar, e esses atalhos mudam o tempo, o custo, o seguro e o risco. Nem os Estados Unidos, nem a China, nem a Rússia, nem a Índia, nem a Alemanha e nem a França controlam esses cinco. Em Malaca, acredito que, se estourar uma guerra, não será por Taiwan, mas pelo controle do estreito. Quem controla Malaca controla os mercados e as economias do Sudeste Asiático.

Por isso os Estados Unidos avançam tão rápido nas Filipinas. Tinham cinco bases, agora têm nove. Um dos primeiros decretos de Bongbong Marcos [Ferdinand Marcos Jr., presidente das Filipinas desde 2022] depois de eleito foi dar mais quatro bases aos estadunidenses.

Exatamente. E o Irã controla Ormuz, por onde passa um terço da energia do mundo. Mesmo quando não houver mais uma superpotência chamada Estados Unidos, os chineses vão precisar do petróleo que passa por ali, então vão precisar do Irã. O outro é Bab al-Mandab, sob controle do Ansarullah [o movimento houthi, que governa o norte do Iêmen], no Iêmen, que faz parte do Eixo da Resistência. Bab al-Mandab, o mar Vermelho e o canal de Suez funcionam como um cano: o que entra por um lado sai pelo outro. Depois que o Ansarullah fechou Bab al-Mandab na guerra que começou com o Dilúvio de Al-Aqsa [a ofensiva do Hamas contra Israel em 7 de outubro de 2023], o Egito publicou três relatórios em um ano dizendo que tinha perdido 60% da receita do canal e do tráfego marítimo. Ou seja, o Irã, à frente do Eixo da Resistência, controla pelo menos dois estreitos e meio.

Isso me mostrou, há anos, que os Estados Unidos acabariam entrando em guerra com o Irã, além de todas as outras razões, como Israel. Eles não podem aceitar isso enquanto escalam a tensão com a China em Malaca e com o Panamá por causa dos operadores chineses no canal. Não vão deixar você em paz, vão vir lutar. O Irã será uma das grandes potências se mantiver o controle sobre essas rotas, e até agora o Irã e o Ansarullah provaram que conseguem. O mundo precisa de vocês hoje e vai precisar amanhã. Todas as economias foram atingidas pelo fechamento de Ormuz, e, mesmo que o estreito reabrisse hoje, as economias do mundo calculam mais dois anos de petróleo caro. Veremos dias econômicos ainda piores nos próximos meses.

Li uma carta de Ali Akbar Velayati [ex-chanceler iraniano (1981-1997) e conselheiro do Líder Supremo para assuntos internacionais desde então] a Mojtaba Khamenei, propondo um polo islâmico centrado no Irã, ao lado dos aliados estratégicos Rússia e China, e acompanhado de países “autenticamente não alinhados”, como África do Sul, Brasil e Cuba. Em abril, ele chamou isso de “terceiro polo” do mundo. O senhor compartilha essa visão? Há lugar para a América Latina e a África?

Minha visão é um pouco diferente. Acredito que, à medida que China, Rússia, Irã e até Índia ganharem mais poder no formato do Brics, mais países vão aderir. À medida que o dólar perder valor e participação no mercado mundial, mais países vão se sentir livres para fazer o que quiserem, inclusive os latino-americanos. Vão estreitar laços econômicos e políticos com esses países, dependendo das políticas futuras da Índia, e vão entrar no Brics.

Mas isso não acontecerá nos próximos anos. Depois de uma década de choques e guerras, todos estarão fracos, e haverá desordem no mundo. Então surgirão coalizões regionais: a América Latina vai formar a sua, porque tem interesses e ameaças em comum. Ao mesmo tempo, o Brics e a Organização de Xangai vão ganhar importância, porque haverá um vácuo de poder, e parte do mundo estará livre do jugo do Ocidente. O mundo vai precisar de uma nova ordem, mas não vai aceitar uma como a do pós-Segunda Guerra, a ordem ocidental, com as categorias de senhores e escravos. Todos terão uma parte maior, ainda que haja essas quatro grandes potências como porta-bandeiras.

E a relação com os países árabes?

O Irã quer muito promover a unidade entre os muçulmanos e quer ser amigo dessas nações, porque tem uma prioridade: derrotar o inimigo principal, Israel e Estados Unidos. Não quer atritos. Acreditamos que “dividir para reinar” sempre foi a política britânica. Eles nos dividiram, fragmentaram a Umma, a comunidade do povo islâmico, para além das fronteiras nacionais.

Mas isso não acontece da noite para o dia, há etapas. No caso dos países árabes do Golfo Pérsico, a primeira é vencer esta guerra e manter o controle de Ormuz, que o Irã sempre teve. Esse será o instrumento para redefinir as relações geopolíticas, estratégicas e de vizinhança, porque é uma arma milhões de vezes mais forte que a bomba atômica. Com uma bomba atômica, você atinge um país uma vez. Com o estreito de Ormuz, você atinge o planeta inteiro, repetidamente. Desde a Segunda Guerra Mundial, ninguém conseguiu mexer tanto nos juros dos títulos estadunidenses, no preço do petróleo e na inflação dos Estados Unidos.

O Irã não vai usar essa arma para colonizar esses países, mas para corrigir as relações com eles. O que isso significa? Os Estados Unidos são um inimigo que atacou o Irã usando o território desses países como plataforma de lançamento. Então não deve haver bases estadunidenses ali. Israel coopera estreitamente com os Emirados e com outros, até com os sauditas. O Irã quer Israel fora. Depois que eles mostrarem que não representam ameaça, haverá relações em pé de igualdade, saudáveis, porque temos ameaças e inimigos em comum.

Como saber que será assim? No governo do presidente Raisi, o chanceler Amir-Abdollahian lançou um plano de diálogo e fórum de segurança regional com os países árabes: os seis do Golfo, mais o Irã e o Iraque, o chamado “seis mais dois”. A ideia era garantir a segurança uns dos outros sem países de fora da região. O Irã já tinha dado esses primeiros passos antes da guerra. Ele quer reparar os laços com os países árabes, mas só depois que eles abandonarem Israel e os Estados Unidos e deixarem de permitir que o Mossad, a CIA e outros ataquem o Irã. Não se pode lutar contra todos para sempre. Temos um objetivo claro e um plano claro para o futuro.

Vocês se preparam para isso há décadas, né?

Há décadas nos preparamos para esta guerra e para o estreito de Ormuz, porque sabíamos que um dia ia acontecer, mais cedo ou mais tarde. Se não agora, nos próximos 20 anos.

O orçamento do Pentágono é 100 vezes maior que o orçamento militar do Irã. Pela lógica terrena, militar e econômica, eles deveriam ter derrotado o Irã nos primeiros dias. Por que não conseguiram? Todos estão surpresos, e não é só por causa da guerra assimétrica que praticamos. A força nem sempre faz o direito.

Editado por: Rafaella Coury

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