DO RIO AO MAR

‘O que acontece na Palestina não está restrito à Palestina’, afirma Hanan Kattan

Na Feira do Livro de Porto Alegre, autora de ‘Palestina Revelada’ debate apagamento histórico e resistência

Hanan Kattan relaciona a concentração de riqueza ao controle dos meios de comunicação e das narrativas sobre o povo palestino
Hanan Kattan relaciona a concentração de riqueza ao controle dos meios de comunicação e das narrativas sobre o povo palestino | Crédito: Mileni Lopes/CRL

A escritora e cineasta palestina Hanan Kattan participou, nesta segunda-feira (2), de um debate sobre o livro “Palestina Revelada”, na 72ª Feira do Livro de Porto Alegre. O encontro, realizado no Auditório Alfredo Augusto Escobar Santos, contou com a participação da livreira Nanni Rios, da livraria Baleia, e de Mariana Dawas, descendente de palestinos.

Lançada no final de outubro, a obra busca apresentar a história palestina para além das narrativas predominantes sobre a região. Durante a conversa, Kattan abordou o apagamento da identidade e da cultura palestinas, a construção histórica do sionismo, a influência do sionismo cristão, a concentração de riqueza e o controle dos meios de comunicação.

A autora contou que começou a escrever durante o genocídio em Gaza, como uma maneira de transformar a raiva, a dor e a sensação de impotência em uma ação concreta. Também queria deixar um registro para seus filhos e futuras gerações e dialogar com pessoas que defendiam os direitos humanos, mas passaram a adotar outra postura quando se tratava dos palestinos depois de 7 de outubro de 2023. “Queria ainda corrigir, para todos os leitores, aquilo que não é contado de maneira adequada, revelar as conspirações geopolíticas e a tragédia que aconteceu com os palestinos.”

Kattan explicou que buscou construir uma narrativa acessível, especialmente para jovens e estudantes, sem o formato acadêmico de outras obras sobre o tema. Para isso, reuniu mais de mil referências e organizou uma trajetória de cerca de 130 anos, entrelaçando acontecimentos históricos e experiências familiares. Comparou essa construção ao tatreez, bordado tradicional palestino, no qual diferentes elementos se conectam.

A narrativa também parte de sua própria família: seu pai é cristão católico palestino de Belém, e sua mãe nasceu em Jerusalém Ocidental e sobreviveu à Nakba. A autora destacou ainda a importância de dar espaço às experiências das mulheres palestinas.

Antes do livro, ela e a esposa, Shamim Sarif, iniciaram o podcast The Enlightenment, que continuará reunindo diferentes vozes, entre palestinos, judeus, sionistas e pessoas ocidentais que apoiam a Palestina.

'Percebi como a imprensa ocidental e os veículos tradicionais de comunicação apresentavam tudo como um conflito', afirma autora em Porto Alegre
‘Percebi como a imprensa ocidental e os veículos tradicionais de comunicação apresentavam tudo como um conflito’, afirma autora em Porto Alegre | Crédito: Mileni Lopes/CRL

Sionismo cristão e apagamento histórico

Um dos capítulos do livro, intitulado “A Trindade diabólica”, aborda a relação entre o sionismo cristão e a construção de uma narrativa religiosa favorável a Israel.

Kattan relatou que, aos 18 anos, estudou na Universidade Baylor, instituição evangélica batista no Texas, nos Estados Unidos. Entre as disciplinas obrigatórias estavam cursos sobre o Antigo e o Novo Testamento. Na época, percebeu que a interpretação do cristianismo ensinada ali era diferente daquela em que havia sido criada. Ao se apresentar como palestina de Belém e Jerusalém, encontrava desconhecimento sobre a existência do povo palestino. “Eles haviam esquecido que Jesus era palestino. Em todos os cartazes no Texas, ele aparecia como um homem branco, loiro e de olhos azuis. Essa é outra forma de apagamento”, pontuou.

A autora questionou a interpretação difundida entre grupos sionistas cristãos de que o apoio a Israel significaria o retorno dos judeus à Palestina, a chegada de Jesus e o fim dos tempos. Também abordou a influência da chamada Bíblia de Scofield, que, segundo seu relato, ajudou a difundir uma interpretação religiosa favorável ao sionismo cristão nos Estados Unidos.

Para Kattan, essa construção contribuiu para mobilizar setores evangélicos em apoio a Israel e para demonizar o islã. Ela lembrou a coexistência histórica entre cristãos, judeus e muçulmanos sob o domínio islâmico otomano e afirmou que essa história foi apresentada de maneira invertida para justificar o projeto sionista.

Riqueza, mídia e controle das narrativas

Ao relacionar a situação palestina com processos históricos de colonização, Kattan chamou atenção para a concentração de riqueza e a influência dos grupos econômicos sobre a política e os meios de comunicação.

Durante o debate, disse ter ficado surpresa ao saber que o Brasil tem 255 bilionários — 205 homens, com patrimônio de R$ 1,53 trilhão, e 50 mulheres, com R$ 329,17 bilhões —, segundo dados da revista Forbes que mencionou. “Duzentos e cinquenta e cinco! Pensem nisso”, comentou. “Com o passar do tempo, vemos o enorme abismo entre ricos e pobres e percebemos como o 1% ou os 10% mais ricos controlam tudo, inclusive a mídia, a imprensa e as emissoras de televisão. São eles que determinam as políticas”, complementou.

A escritora associou essa concentração de poder ao que chamou de “classe Epstein”, expressão utilizada ao falar da riqueza que opera nas sombras e dos governos que, em sua avaliação, controlam as estruturas políticas e econômicas.

Kattan também criticou a maneira como a imprensa ocidental apresenta a situação palestina, tratando os acontecimentos como um “conflito” sem dar espaço para que os próprios palestinos contem suas histórias. “Percebi como a imprensa ocidental e os veículos tradicionais de comunicação apresentavam tudo como um conflito, diziam que as pessoas morreram ou usavam outras expressões desse tipo, sem dar ao público, aos leitores e aos ouvintes a oportunidade de ouvir as próprias pessoas. Portanto, não estavam compartilhando a verdade.”

A autora relacionou essa realidade à história dos povos indígenas brasileiros e de outros povos colonizados, confinados em pequenos territórios e afastados dos centros dos conflitos. Para ela, é necessário compreender que o que acontece na Palestina não está isolado do restante do mundo.

Memória e solidariedade como resistência

A preservação da memória também esteve entre os temas do encontro. Kattan criticou a redução da identidade palestina a expressões como “refugiados” e “terroristas”, sem que sua história e cultura sejam apresentadas. Destacou a relação do povo com a terra, as oliveiras, a arte, a música e a dança.

O cultivo das oliveiras, que levam anos para crescer, representa, segundo a autora, uma forma de preservar a relação com a terra e deixar algo para as próximas gerações. Ela também contou que os palestinos mais velhos mantêm vivas as lembranças de suas aldeias, dos vizinhos, das ruas e dos espaços de convivência. “Eles se apoiam na própria memória porque amam esses lugares e não querem ser apagados. Por isso, transmitem essas histórias de geração em geração”, explicou.

Kattan relatou que a aldeia de seus avós foi apagada e que, em muitos lugares, foram plantadas árvores e construídos parques e estacionamentos sobre antigas localidades palestinas. Mencionou ainda que mais de 75% da população de Gaza, segundo os números que conhece, é formada por refugiados ou descendentes de refugiados. Muitos conseguem avistar os lugares de onde suas famílias foram expulsas, mas não podem retornar.

A escritora destacou a importância da solidariedade internacional para que os palestinos que vivem sob ocupação, em Gaza e na Cisjordânia, sintam que não foram esquecidos. Citou as ocupações de universidades por estudantes em diferentes países e criticou a repressão às mobilizações e a influência de financiadores sobre as instituições de ensino.

Como exemplo, relatou o encerramento de um departamento de direitos humanos nos Estados Unidos depois que financiadores retiraram recursos devido à ligação de seus responsáveis com a causa palestina. “Essa é outra forma de colonização da mente: por meio do dinheiro, do poder e de outros mecanismos”, avaliou.

Ao falar sobre o controle das plataformas digitais, Kattan fez uma referência à mobilização política no Brasil e ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). “Eles podem fechar espaços, podem comprar o TikTok, podem fazer o que fizeram no Brasil com a Meta e todos os algoritmos. Mas, no final, as pessoas se mobilizaram aqui. E, em duas semanas, o que vocês fizeram por Lula, precisamos fazer pela Palestina e pelo mundo.”

Soberania e organização coletiva

Kattan defendeu que a luta contra a colonização também passa pela construção de autonomia no cotidiano. Entre as ações que considera importantes estão fortalecer comunidades, comprar de produtores locais, apoiar agricultores, cultivar alimentos e reduzir a dependência de grandes marcas e bancos. “Enquanto fizermos parte desse sistema cooptado, nunca seremos verdadeiramente livres. Eles sempre tentarão mudar a narrativa.”

A escritora também criticou governos autoritários e monarquias de países árabes. Utilizou a expressão “sionistas árabes” para se referir a regimes como o da Arábia Saudita e a outros governos que, segundo sua avaliação, atendem aos interesses de Israel.

Ao relacionar a luta palestina a outras disputas políticas e econômicas, citou a indústria militar, a fabricação de armas, o complexo financeiro-industrial e a inteligência artificial. Defendeu a educação, a organização coletiva e a mobilização como caminhos para enfrentar essas estruturas.

Ao falar sobre a capa de “Palestina Revelada”, explicou o significado da papoula-branca palestina, símbolo do sumud, palavra árabe que expressa firmeza e perseverança. “Mesmo que a arranquem ou a destruam, ela sempre volta a crescer. Por isso, ela representa os palestinos e o nosso espírito”, explicou.

Na edição brasileira, Kattan destacou também a presença da bandeira palestina e das chaves, símbolo da memória e do direito de retorno das famílias expulsas de suas casas.

| Crédito: Mileni Lopes/CRL

Entrevista completa

Em entrevista ao Brasil de Fato, Hanan Kattan falou sobre a situação humanitária em Gaza, as restrições impostas por Israel à circulação de pessoas e mercadorias, a destruição da educação e sua perspectiva para o futuro da Palestina.

Brasil de Fato — Você esteve em Gaza recentemente? Se sim, o que você viu?

Hanan Kattan — Não. Ninguém entra em Gaza sem a permissão de Israel, e essa permissão é raramente concedida. Mesmo a passagem de Rafah com o Egito, a única fronteira de Gaza que não é com Israel, é controlada por Israel. Cada nome precisa ser enviado com antecedência, e Israel analisa e aprova cada pessoa que entra ou sai, incluindo estrangeiros. Gaza esteve sob cerco por dezesseis anos, um campo de concentração, mesmo antes de o genocídio começar.

Mas Gaza não está longe da minha família. O primo do meu pai mora em Belém. A esposa dele, uma médica, é de Gaza, e toda a família dela ainda está lá. O que eles descrevem é o inferno. Não apenas para eles. Para todos. As casas se foram. Os hospitais, as estações de tratamento de água e as escolas estão quase todos danificados ou destruídos. Famílias foram deslocadas cinco, seis, sete vezes, carregando o que podem e recomeçando. Eles chegaram a bombardear as igrejas onde as pessoas buscavam abrigo.

E ainda assim eles permanecem. Ainda assim eles resistem. Em árabe chamamos isso de sumud palestino, firmeza ou perseverança. Gaza é a sua definição viva.

Você pode bombardear os prédios. Você não pode bombardear a vontade dos palestinos de aprender.

Como é a vida em Gaza? Qual é a situação em relação ao acesso a alimentos, educação e direitos básicos?

A situação é dramática. Mesmo agora, após o chamado cessar-fogo, Gaza está vivendo uma fome intencional e provocada pelo homem. Cerca de dois terços da população estão em situação de insegurança alimentar grave, e uma em cada cinco famílias come apenas uma refeição por dia. Israel ainda decide qual alimento entra, quanto e de que tipo, por isso os preços estão inacessíveis e as famílias sobrevivem com rações. Água potável é escassa, o esgoto corre pelas ruas, e o sistema de saúde foi deliberadamente destruído, deixando pessoas morrendo de doenças e ferimentos que poderiam ser facilmente tratados.

A educação também foi alvo. Isso é chamado de escolasticídio: a destruição deliberada da educação de um povo por meio da morte de professores, estudantes e acadêmicos e do bombardeio de escolas, universidades e bibliotecas. Todas as universidades de Gaza foram destruídas ou danificadas. Mais de 90% das escolas foram atingidas, e centenas de milhares de crianças perderam três anos de aprendizado.

Mas a educação é sagrada para os palestinos. Neste exato momento, as aulas continuam em tendas e sobre os escombros, ministradas por professores que não estão sendo pagos. Você pode bombardear os prédios. Você não pode bombardear a vontade dos palestinos de aprender.

Como Israel controla Gaza? Quem tem permissão para entrar ou sair? É possível retornar?

Israel controla tudo: terra, mar e ar. As tropas da colônia de povoamento de Israel ainda ocupam ilegalmente grandes partes da Faixa de Gaza, e as pessoas são alvo de tiros por se aproximarem das linhas fictícias que Israel desenhou. Cada passagem é controlada, incluindo Rafah. Israel tomou Rafah em maio de 2024 e a manteve fechada por quase dois anos. Ela foi reaberta, mas apenas para um fluxo mínimo de pessoas, com limites diários e verificações de segurança israelenses em todos que entram ou saem. Ajuda e mercadorias entram por passagens controladas por Israel, no ritmo de Israel.

Para os palestinos, as autorizações são extremamente difíceis de obter. Alguns pacientes têm permissão para sair para tratamento, mas milhares de outros ainda estão esperando, e pessoas estão morrendo enquanto esperam. Aqueles que saem não têm garantia de que algum dia terão permissão para voltar.

E o retorno é negado em todos os níveis. As famílias não podem voltar para seus próprios bairros dentro de Gaza. Não esqueçamos que a maioria dos palestinos em Gaza são refugiados, ou descendentes de refugiados, e ainda têm negado o direito de retornar às casas das quais suas famílias foram expulsas em 1948, a apenas alguns quilômetros de distância.

Na sua opinião, qual é o futuro de Gaza e da Palestina?

Da minha perspectiva, há apenas um futuro que pode funcionar. Um Estado único, democrático e descolonizado, do rio ao mar, com direitos iguais para todos os que nele vivem: uma pessoa, um voto, independentemente da sua fé. Isso significa liberdade e dignidade, além de responsabilização e justiça. Significa a restituição completa de terras e recursos. E significa o direito de retorno para cada refugiado palestino, conforme reconhecido no direito internacional desde a Resolução 194 da Organização das Nações Unidas (ONU).

Todo sistema de dominação acredita ser permanente. O apartheid na África do Sul também acreditava. Não é complicado. É roubo.

A Palestina será livre.

Editado por: Marcelo Ferreira

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