O sétimo episódio do podcast Igualdade e Cultura Negra – Vozes e Territórios recebeu a pesquisadora, professora e batuqueira Juliane Andreia Lucio Soares para uma conversa sobre o batuque, a identidade negra e a ancestralidade no Rio Grande do Sul. O episódio faz parte de uma série de 12 programas dedicados à história, à cultura, à espiritualidade e às lutas da população negra no estado.
Com o tema O Batuque no Rio Grande do Sul, a entrevista vai ar nesta quinta-feira (5), às 19h. Apresentado por Iyá Vera Soares, o programa pode ser assistido no YouTube da TV Josimo, do Brasil de Fato RS e nacional e no Vida no Sul. O podcast também será exibido nas sextas-feiras, às 11h, na TV Mais.
Juliane Andreia Lucio Soares, originária de Rio Grande, integra a comunidade tradicional de matriz africana Ilé Asé Aloyá Iforakaran, além de ser professora de filosofia, gestora e pesquisadora. Atualmente, é aluna de mestrado no Programa de Pós-Graduação em Estudos Africanos e Afro-Brasileiros da Universidade do Maranhão. Durante a conversa, enfatizou o papel fundamental do terreiro em sua formação e descreveu como essa experiência também impacta sua trajetória acadêmica.
Um dos tópicos centrais discutidos foi a consideração do batuque como uma tradição única do Rio Grande do Sul. Segundo a pesquisadora, o termo, antes usado de forma negativa, foi ressignificado pela própria comunidade e agora integra a identidade dos praticantes. Juliane também enfatizou que, embora haja diferenças entre as tradições, as comunidades de matriz africana em todo o país estão unidas.
A relação entre os conhecimentos dos terreiros e a universidade também ganhou destaque. Conforme Juliane, a predominância de referências eurocêntricas nos espaços acadêmicos cria obstáculos para o reconhecimento de outros saberes. Ela relatou dificuldades enfrentadas durante processos de ingresso na pós-graduação, incluindo exigências relacionadas ao domínio de línguas estrangeiras.
A pesquisadora defendeu ainda a valorização da linguagem como elemento de identidade e reparação. Para ela, os terreiros tiveram papel importante na preservação de conhecimentos e tradições africanas, mesmo diante do processo histórico de perda das línguas de origem. Juliane também destacou a necessidade de reconhecer as especificidades das comunidades batuqueiras na educação e na construção de políticas públicas.
Outro ponto discutido foi o papel do batuque como espaço de pertencimento, alegria e resistência. “O batuque é uma forma da felicidade, da alegria e da resistência”, afirmou Juliane. Ela também relacionou o toque do tambor à sua própria formação e à manutenção da identidade de sua comunidade.
No encerramento, a entrevista reforçou a importância de políticas reparatórias que considerem as particularidades históricas e culturais da população negra no Rio Grande do Sul. Juliane também defendeu que a história e as línguas africanas sejam incorporadas ao currículo escolar, valorizando esses conhecimentos para além da perspectiva da escravização.
O projeto Igualdade e Cultura Negra: Vozes e Territórios é uma realização do Instituto Cultural Padre Josimo (ICPJ), por meio do Termo de Fomento nº 973281 do Ministério da Igualdade Racial do Governo Federal, com correalização do Brasil de Fato RS. Em 12 episódios, percorre temas como visão de mundo africana, saúde pública, mudanças climáticas, ervas medicinais, economia solidária, cooperativismo negro, cultura ancestral e educação de matriz africana. Cada programa parte de uma conversa com uma convidada ou convidado que atua diretamente com o tema abordado, unindo vivência de terreiro, produção acadêmica e militância política.

