visibilidade

‘Precisamos de condições mais dignas para viver, e não apenas sobreviver’, diz presidenta da Parada do Orgulho PcD

Segunda edição do evento reuniu artistas, movimentos e pessoas com deficiência no Museu Nacional em Brasília

Participantes celebram a diversidade e cobram políticas de acessibilidade durante programação cultural na área externa do Museu Nacional da República
Participantes celebram a diversidade e cobram políticas de acessibilidade durante programação cultural na área externa do Museu Nacional da República | Crédito: Kennedy Cruz/BdF DF

A área externa do Museu Nacional da República, em Brasília, foi ocupada neste sábado (31) por música, arte e reivindicações de pessoas com deficiência. A 2ª Parada do Orgulho da Pessoa com Deficiência (PcD) reuniu artistas, ativistas e participantes em uma programação cultural que colocou no centro o direito à visibilidade, à acessibilidade e ao protagonismo. O evento também serviu como espaço de reivindicação por condições dignas de participação na sociedade.

Com apresentações musicais, performances, fanfarra e microfone aberto, a parada foi organizada por e para pessoas com deficiência. Entre as atrações estava o Surdodum, grupo brasiliense criado em 1994, formado por pessoas surdas e ouvintes. Por meio da percussão, da vibração e da expressão corporal, o coletivo desenvolve um trabalho que aproxima música e inclusão.

Grupo brasiliense Surdodum criado em 1994, formado por pessoas surdas e ouvintes
Grupo brasiliense Surdodum criado em 1994, formado por pessoas surdas e ouvintes | Crédito: Kennedy Cruz/BdF DF

A iniciativa da Parada busca enfrentar a invisibilidade social e questionar a ideia de que pessoas com deficiência devem ocupar apenas espaços de cuidado ou assistência, sem protagonismo na produção cultural e nas decisões que afetam suas vidas. 

Presidenta e diretora institucional da Parada do Orgulho PcD Brasil, Júlia Piccolomini afirma que a escolha de Brasília também tem um significado político. “É muito importante a gente estar nesse pólo político, porque precisamos de condições mais dignas para viver, e não apenas sobreviver. Viemos para reivindicar nossos direitos e celebrar nossos corpos. Apesar de a sociedade querer nos esconder e nos tratar como coitadinhos ou incapazes, estamos aqui para mostrar que somos potência”, destaca.

A organização defende que a inclusão não pode se limitar à presença de pessoas com deficiência em eventos ou campanhas de conscientização. “A cultura precisa ser inclusiva, precisa permitir que todas as pessoas participem. Não queremos que nossos direitos fiquem apenas no papel. Queremos uma sociedade em que possamos viver com dignidade, com nossos direitos acontecendo na vida real”, afirma Júlia Piccolomin.

Júlia Piccolomini, presidenta da Parada do Orgulho PcD Brasil
Júlia Piccolomini, presidenta da Parada do Orgulho PcD Brasil | Crédito: Kennedy Cruz/BdF DF

Participação nas decisões 

A reivindicação por participação nas decisões públicas também foi destacada pelo diretor de comunicação e tecnologia da Parada, Miccael Grandis. Segundo ele, o movimento surgiu da necessidade de pessoas com deficiência ocuparem os espaços e participarem diretamente da construção das políticas que dizem respeito às suas vidas.

“Ocupamos a cidade e a rua para lembrar que nada sobre nós deve ser decidido sem nós. Precisamos ser consultados em tudo o que diz respeito às nossas vidas: nas políticas públicas, na arquitetura da cidade e na garantia dos nossos direitos. Não adianta criar políticas se elas não forem fiscalizadas e cumpridas. A gente precisa participar das decisões que afetam diretamente a nossa existência”, defende Miccael Grandis.

Miccael também aponta as dificuldades para manter a mobilização e realizar o evento em diferentes cidades. “Cada edição reflete o apoio que a gente consegue receber. Em Brasília, é muito difícil conseguir esse apoio. Estamos aqui com uma estrutura mínima, mas com um sonho, porque sabemos da necessidade dessa representatividade”, relata o diretor de comunicação e tecnologia.

“Mas a gente quer muito mais do que ser visto. Queremos poder coexistir nos mesmos ambientes, participar dos espaços e ter condições de desenvolver nossos projetos. Muitas vezes, as pessoas acham que não estamos fazendo o que queremos, mas o que falta é apoio. Esse apoio até está chegando, mas ainda vem muito devagar e em quantidade insuficiente”, afirma a vice-presidenta e diretora comercial da Parada, Maili Santos.

Maili também chama atenção para a necessidade de aumentar a empregabilidade e o reconhecimento da produção cultural de pessoas com deficiência. “Não é só sobre festa, é sobre pertencimento. É sobre poder ocupar todos os espaços, contribuir com a cultura, com a arte e com os esportes. Não queremos estar presentes apenas em um evento ou em uma data específica”, completa Maili.

Maili Santos, vice-presidenta da Parada do Orgulho da Pessoa com Deficiência (PcD)
Maili Santos, vice-presidenta da Parada do Orgulho da Pessoa com Deficiência (PcD) | Crédito: Kennedy Cruz/BdF DF

Direito à cultura e à produção artística

A ocupação do espaço público também foi marcada pela participação de artistas com deficiência. Jornalista, fotógrafa e multiartista, Mariana Guedes integra a Parada desde a primeira edição, em 2024, e atua na curadoria e na comunicação do movimento. 

Para ela, garantir direitos também significa reconhecer a produção artística e cultural dessas pessoas. “Muitas vezes, nem os nossos direitos básicos são garantidos, mas isso não significa que a gente não tenha direito à arte e à cultura. Esse movimento demarca justamente a necessidade de reconhecer nossos direitos e valorizar nossas produções artísticas”, afirma.

Jornalista e multiartista Mariana Guedes participa da Parada do Orgulho da Pessoa com Deficiência (PcD)
Jornalista e multiartista Mariana Guedes participa da Parada do Orgulho da Pessoa com Deficiência (PcD) | Crédito: Kennedy Cruz/BdF DF

Atleta e influenciador, Mateus Moreira também participou da programação e destacou a importância do encontro para aumentar a circulação de trabalhos desenvolvidos por pessoas com deficiência. “É muito importante porque as pessoas com deficiência têm e merecem seu espaço na cultura, na arte e em todos os lugares que quiserem ocupar. Precisamos ter oportunidades para mostrar o que fazemos, conhecer outras pessoas e fortalecer nosso trabalho”, conclui o atlenta e influenciador.


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Editado por: Flavia Quirino

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