O uso recorrente do termo “polarização” pela mídia de direita não é um recurso descritivo neutro, mas uma operação ideológica que cumpre a função de esvaziar e despolitizar o conflito social, substituindo a categoria de “luta de classes” por uma noção genérica e simétrica de divisão.
Chamar tudo de polarização evita nomear quem ganha e quem perde na organização da desigualdade.
A expressão – completamente artificial e esvaziada de imaginação – funciona como um eufemismo que censura o vocabulário classista: em vez de se falar em luta de classes, conflito distributivo, racismo estrutural ou disputa por fundo público, fala-se em “polarização”.
Essa operação ideológica é dupla:
1. Simetriza os polos, como se ambos fossem equivalentes, igualmente radicais e igualmente responsáveis pelo conflito.
2. Patologiza o conflito, tratando a divisão social como uma doença da democracia. Assim, quem denuncia a desigualdade passa a ser tão polarizador quanto quem defende retrocessos.
O efeito é o ocultamento das assimetrias de poder, de recursos e de violência entre os polos em disputa.
A polarização é uma forma fenomênica, superficial e deslocada dos antagonismos reais.
Em sociedades capitalistas, a luta de classes é permanente. Se manifesta em salários, moradia, saúde, tributação, dívida pública e cultura.
A luta de classes cobre todo o tecido social como um véu invisível.
O eufemismo da polarização, diariamente amplificada pela mídia, desvia o foco dessas contradições estruturais e fragmenta a classe trabalhadora, fazendo com que os trabalhadores enxerguem inimigos em seus pares (por ideologia ou identidade) e não no mecanismo de exploração econômica.
Trata-se de uma despolitização que cria uma falsa polarização: uma disputa de versões e personalidades que impede a politização das lutas internas da sociedade e a compreensão do conflito material de base.
Para a grande imprensa alinhada à direita, o termo polarização é particularmente útil porque divide a conta do autoritarismo.
A tese-espantalho da polarização responsabiliza igualmente o campo progressista e a extrema direita pela crise, diluindo a responsabilidade desta última.
Como agravante, o surrado termo opera por neutralidade simulada, ao recusar-se a “dar nome aos bois”. A imprensa envelopa o extremismo em eufemismos como polarização, tratando discursos antidemocráticos como meras estratégias políticas ou vulgares tensões institucionais.
O termo invisibiliza a exploração ao reduzir tudo a uma guerra moral simplista entre “dois lados”, dilui-se a consciência de classe e neutraliza-se a mobilização coletiva contra a exploração inerente ao sistema capitalista.
A insistência em “polarização”, sem defini-la politicamente, não é um acidente de linguagem, mas uma escolha estratégica.
O termo, esvaziado de conteúdo classista, serve para patologizar a contestação social, simetrizar agentes desiguais e obscurecer a exploração que estrutura a sociedade de classes.
A crítica marxista não deve, contudo, limitar-se a substituir “polarização” por “luta de classes” e parar.
O passo decisivo é perguntar: polarização entre quais classes e frações? Em torno de quais interesses? Quem lucra com esse enquadramento enganoso?
Onde está a polarização no Brasil?
No Brasil, temos o PT como partido genericamente trabalhista, que representa os despossuídos e os assalariados, bem como o interesse nacional, a soberania plena na luta por um mundo multipolar.
Já o polo oposto, seria o PL, partido de golpistas, do crime organizado, do agro exportador, evangélicos da teologia da prosperidade e a direita parlamentar mais atrasada e antinacional. Todos preocupados exclusivamente em ganhar vantagens políticas e econômicas.
Portanto, temos um polo de extrema direita e outro polo que não representa nem de perto a extrema esquerda.
Ao contrário, o PT, cada vez mais, é um partido de centro, que reúne – majoritariamente – social-liberais e socialistas não-revolucionários (quer dizer, não-marxistas), todos lutando contra o imperialismo.
Se a assimetria é tão clara – um partido de centro-esquerda com pautas redistributivas contra um polo de extrema-direita com bases golpistas, ruralistas, teocráticas e criminosas -, por que a mídia insiste em polarização?
Porque a “polarização” simetriza o que é assimétrico. Ao tratar os dois campos como polos equivalentes, ela dilui a responsabilidade pelo autoritarismo protofascista. Assim, o golpismo do PL vira apenas “um lado da polarização”, não uma ameaça concreta à democracia.
Ocorre assim um exercício midiático fraudulento que patologiza a contestação social: quem denuncia a desigualdade e a captura do Estado por esses interesses passa a ser tão “polarizador” quanto quem tentou dar um golpe.
E o mais grave: obscurece a luta de classes. O conflito real – entre trabalho e capital, entre soberania nacional e subordinação a interesses rentistas e exportadores – desaparece sob a bruma de uma disputa moral genérica entre dois lados que insistem em disputas políticas.
Sempre tratando a política como algo condenável e próprio de personagens condenáveis, sedentos de “poder pelo poder”, comumente corruptos e fraudadores da causa nacional.
Essa é a mídia do Brasil. A mesma mídia que acabou de apostar (e perder) em uma candidatura presidencial entreguista, representante dos interesses dos Estados Unidos e internamente associada aos instintos mais primitivos e anticivilizatórios do lumpesinato de gravata, relógio de ouro e punhos de renda.
*Cristóvão Feil é sociólogo.

