A Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) pediu à Procuradoria Jurídica um parecer sobre a possibilidade de afastar cautelarmente dois estudantes investigados por ameaças de morte e mensagens de ódio em grupos de WhatsApp. As mensagens atribuídas a bolsonaristas atacam pessoas identificadas como petistas e integrantes do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), em conversas sobre a eleição presidencial.
O pedido foi encaminhado pela Reitoria no final da semana passada e divulgado na segunda-feira (2). Em entrevista ao Diário de Santa Maria, a reitora Martha Bohrer Adaime explicou que a medida busca preservar a segurança da comunidade acadêmica e dos próprios investigados durante a apuração.
As ameaças vieram a público na semana passada, após a divulgação de capturas de tela de um grupo atribuído a estudantes de Agronomia. Nas mensagens recebidas pelo Brasil de Fato RS, um participante escreve, em sequência: “Se o PT ganhar”, “E o Trump entra”, “E tiver guerra”, “eu mato os daqui”. Em outra conversa, afirma: “MST eu mato”.
Até a manhã de quarta-feira (28), a Ouvidoria da universidade havia recebido 19 denúncias de ameaças com motivação política
Conforme Adaime, o afastamento solicitado tem caráter preventivo e depende de parecer jurídico, sem representar uma penalidade disciplinar. Caso a manifestação seja favorável, serão definidas as condições da medida, incluindo a duração e a possibilidade de continuidade das atividades acadêmicas por meio de exercícios domiciliares ou outros regimes específicos.
Os dois estudantes são alvo de uma sindicância que reúne denúncias relacionadas às conversas em grupos de WhatsApp. A expectativa é que o parecer seja emitido ainda nesta semana.
Apuração interna e encaminhamento à Polícia Federal
Em nota publicada na terça-feira (27), a Reitoria já havia informado que encaminhou os materiais à Polícia Federal (PF) e determinou a criação de uma comissão para investigar os fatos, identificar os envolvidos, verificar o vínculo com a universidade e ouvi-los, antes da abertura de processo administrativo disciplinar.
Adaime explica que as denúncias chegam à Ouvidoria pela plataforma Fala.BR e passam por uma análise inicial. Quando há elementos para prosseguir, uma comissão de sindicância ouve os envolvidos e elabora um relatório. A decisão sobre eventuais sanções cabe à Reitoria.
Segundo a reitora, as denúncias sobre mensagens em grupos de WhatsApp foram reunidas em um único processo. Já as inscrições de símbolos nazistas encontradas em banheiros da universidade são apuradas em procedimentos separados, conforme cada ocorrência.
No início de outubro, a identificação de uma runa apropriada pelo nazismo em um banheiro do Centro de Ciências Naturais e Exatas motivou uma manifestação da comunidade acadêmica contra o fascismo. O ato foi convocado pelo Diretório Central dos Estudantes (DCE), junto a centros e diretórios acadêmicos.
No caso das ameaças em mensagens, o DCE cobrou apuração e medidas de proteção aos estudantes. “A nossa comunidade não vai normalizar a violência”, afirmou a entidade em nota divulgada na semana passada.
Campanha contra a discriminação
Adaime também anunciou que a universidade prepara uma campanha voltada ao respeito e à convivência na comunidade acadêmica, com abordagem de diferentes formas de discriminação.
Segundo a reitora, episódios de racismo, transfobia, assédio e intolerância religiosa aparecem em diferentes momentos na instituição. Na avaliação dela, as manifestações de ódio relacionadas ao atual período eleitoral tiveram intensidade maior do que em eleições anteriores.
“O respeito resume a questão do assédio, do racismo, de todas as fobias em relação à sexualidade. Certamente, as pessoas são diferentes, pensam diferente e a gente precisa respeitar. E na universidade é o lugar em que a gente precisa ensinar isso. Ninguém precisa pensar da mesma forma, mas precisa saber respeitar”, afirmou Adaime.

