O autoritarismo, o desprezo pela democracia e a desumanização de quem pensa diferente não são desvios ocasionais do bolsonarismo. São características que acompanham sua trajetória desde a origem e ajudam a explicar o comportamento de suas lideranças e de parcelas de sua militância.
Se nos chocam os episódios de violência, perseguição e intolerância que marcaram a campanha eleitoral de 2026 e, principalmente, aqueles que estamos testemunhando depois da vitória de Lula, é importante compreender que não estamos diante de manifestações isoladas de alguns militantes exaltados. Estamos diante de comportamentos que encontram raízes na própria construção política do bolsonarismo.
Para compreender o que estamos vivendo, precisamos voltar no tempo e lembrar como Jair Bolsonaro construiu sua trajetória. Durante quase três décadas, entre 1991 e 2018, Bolsonaro ocupou uma cadeira na Câmara dos Deputados. Foi um parlamentar sem protagonismo na elaboração de grandes projetos ou na construção de políticas públicas relevantes.
Foi com o agravamento da crise política que culminou no impeachment da presidenta Dilma Rousseff que Bolsonaro encontrou espaço para deixar de ser um parlamentar periférico e se transformar em uma liderança nacional da extrema-direita, justamente pela capacidade de transformar o preconceito, a agressividade e a intolerância em instrumentos de mobilização política.
Um dos episódios que lhe deram notoriedade aconteceu em 2014, quando atacou a deputada federal Maria do Rosário (PT-RS). Em discussão no Congresso, afirmou que não a estupraria porque ela não merecia. Dois anos depois, durante a votação do impeachment de Dilma Rousseff, Bolsonaro homenageou o coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, reconhecido como torturador da ditadura militar e responsável por graves violações de direitos humanos. Bolsonaro também fez declarações ofensivas contra Dilma, inclusive manifestando o desejo de que ela morresse de câncer.
Na campanha presidencial de 2018, essas características se transformaram em método de mobilização. O gesto das mãos imitando uma arma, as declarações de incentivo à violência e a promessa de fuzilar adversários passaram a integrar a comunicação eleitoral. Em um dos episódios mais conhecidos, Bolsonaro utilizou um tripé de câmera para simular um fuzil e repetiu o discurso de que era preciso fuzilar a petralhada.
O que deveria provocar indignação encontrou receptividade em parcelas expressivas da sociedade brasileira. Machismo, misoginia, racismo, LGBTfobia e violência política passaram a ser naturalizados, enquanto as fake news eram utilizadas sistematicamente como instrumentos de disputa. O preconceito e o ódio contra adversários eram apresentados como demonstrações de coragem e autenticidade. Também é de 2018, a declaração de Eduardo Bolsonaro: “para fechar o STF basta mandar um cabo e um soldado”, estimulando o preconceito e os ataques à Suprema Corte do país.
O governo Jair Bolsonaro aprofundou essa confrontação. Os ataques às instituições, a desqualificação da imprensa, o desprezo pela ciência e a disseminação de discursos discriminatórios tornaram-se marcas de sua atuação. Durante a pandemia da Covid-19, o então presidente protagonizou episódios imitando as pessoas com falta de ar durante transmissões ao vivo; a defesa de medicamentos sem eficácia comprovada; a resistência às medidas de proteção e a condução desastrosa da política sanitária.
A violência política, entretanto, não ficou restrita ao período em que Bolsonaro esteve no governo. O resultado mais dramático dessa trajetória foi o 8 de janeiro de 2023. Depois de meses de acampamentos diante de quartéis, com manifestações que pediam abertamente uma intervenção militar para impedir a posse do presidente eleito, milhares de apoiadores do bolsonarismo invadiram e depredaram as sedes dos Três Poderes, em Brasília.
Das eleições de 2022 às eleições de 2026 os crimes se repetem. Em julho 2022, em Foz do Iguaçu, Marcelo Arruda foi assassinado, na sua festa de 50 anos, por um apoiador de Bolsonaro. Também naquele ano se multiplicaram denúncias de assédio eleitoral, com empresários ameaçando trabalhadores com demissões ou prejuízos profissionais caso não votassem nos candidatos de sua preferência.
Chegamos, então, às eleições de 2026. Mais uma vez, o povo brasileiro compreendeu que estava diante de uma escolha que ultrapassava a disputa entre dois candidatos. Jovens, mulheres, trabalhadores, idosos, pessoas LGBTQIA+, movimentos populares e democratas de diferentes posições políticas se uniram para defender a democracia e a soberania nacional, ameaçadas pela possibilidade de retorno da família Bolsonaro ao poder.
A campanha foi novamente marcada por episódios de intolerância, intimidação e violência contra apoiadores de Lula. A vitória da democracia, entretanto, não significou o fim desse comportamento. Pelo contrário: os acontecimentos posteriores ao resultado eleitoral demonstram que a lógica da perseguição e do desrespeito à vontade popular continua presente.
Durante um ato de campanha de Flávio Bolsonaro na Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro, um apoiador branco foi filmado conduzindo um homem negro acorrentado, em uma encenação que remete diretamente à memória da escravidão brasileira. Outro caso revoltante foi o de uma influenciadora bolsonarista que constrangeu e expôs nas redes sociais um menino autista que vendia balas nas ruas de Fortaleza. Ao descobrir que a criança manifestava simpatia por Lula, passou a submetê-la a uma situação de humilhação pública. Até mesmo a preferência política de uma criança tornou-se motivo de hostilidade. Que tipo de consciência política permite que alguém humilhe uma criança por causa de sua escolha eleitoral ou da escolha de sua família?
Em Porto Alegre, destaca-se a situação vivida pelo chef e cozinha Júlio Ritta, conhecido pelo trabalho social à frente do projeto Cozinheiros do Bem, que arrecada recursos, prepara e distribui alimentos para pessoas em situação de rua e em vulnerabilidade social. Empresários que contribuíam com a iniciativa teriam interrompido as doações depois que Júlio manifestou apoio a Lula. Não bastasse isso, o deputado Nikolas Ferreira (MG) usou suas redes para debochar da situação.
Mas os exemplos de perseguição não param aí. Depois da eleição, também vieram a público listas de estabelecimentos comerciais, cujos proprietários seriam apoiadores de Lula, acompanhadas de campanhas de boicote, além de manifestações de parlamentares estimulando empresários a demitir trabalhadores por suas posições políticas.
É a tentativa de transformar a divergência eleitoral em perseguição econômica e social, atacando diretamente a liberdade de pensamento e o direito de cada cidadão escolher seus representantes sem sofrer ameaças ou constrangimentos.
O Brasil não precisa de uma política que transforme adversários em inimigos, divergências em perseguições e eleições em pretextos para a violência. Precisa de uma democracia, na qual pessoas com diferentes opiniões possam conviver, disputar projetos e respeitar os resultados das urnas.
Não podemos naturalizar a intolerância, relativizar o racismo, aceitar a misoginia, tolerar a perseguição política ou tratar a violência como manifestação legítima de opinião. O bolsonarismo precisa ser enfrentado política e democraticamente, com ideias, mobilização popular, defesa das instituições e compromisso com os direitos humanos.
Porque, no fundo, o que está em disputa não é apenas um projeto de governo ou uma corrente ideológica. É o próprio tipo de sociedade que queremos construir: uma sociedade baseada na solidariedade, na liberdade, na justiça social e no respeito às diferenças ou uma sociedade dominada pelo medo, pelo ódio, pela intolerância e pela violência?
Esse é o verdadeiro retrato do bolsonarismo. E compreender sua essência é fundamental para que o Brasil não volte a correr o risco de entregar seu futuro a um projeto político que tantas vezes demonstrou desprezo pela democracia e pela própria humanidade.
*Everton Gimenis é bancário, cientista político, vice-presidente da CUT e suplente de vereador em Porto Alegre.

