A eleição de Cleitinho Azevedo (Republicanos) para o governo de Minas Gerais e a reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) para a Presidência da República abrem um novo capítulo na política mineira. Eleito no primeiro turno, com cerca de 55,4% dos votos válidos, o senador chega ao Palácio Tiradentes com uma votação expressiva e o desafio de transformar a popularidade construída nas redes sociais e no discurso de oposição à política tradicional em capacidade efetiva de governar.
Para a cientista social Liliam Anjos, entretanto, o novo governador encontrará um cenário econômico e administrativo bastante desfavorável, marcado pelas consequências dos dois mandatos de Romeu Zema (Novo).
“O legado do Zema é de privatização, de entrega do patrimônio público e de desvalorização dos servidores estaduais”, avalia. Ela também chama atenção para o déficit de mais de R$ 10 bilhões previsto na Lei Orçamentária Anual (LOA) encaminhada à Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG), que deverá limitar a margem de atuação do próximo governo.
Dívida pública de R$ 200 bilhões exigirá boa relação com o governo federal
A situação fiscal do Estado e a dívida pública, superior a R$ 200 bilhões, colocam a relação com o governo federal entre os principais desafios da futura administração. Apesar das diferenças ideológicas entre Cleitinho e Lula, a necessidade de renegociar a dívida e ampliar a capacidade de investimento pode abrir espaço para uma aproximação institucional. A questão é saber se os interesses administrativos prevalecerão sobre as disputas políticas nacionais.
:: Relembre: Cleitinho é eleito governador de Minas Gerais no primeiro turno ::
Na avaliação de Liliam Anjos, existe espaço para essa aproximação. “Se essa é uma preocupação do Cleitinho, eu acho que tem uma abertura para um diálogo com o governo federal naquilo que é de interesse comum, para buscar cooperação e investimentos”, afirma.
Para ela, o governador eleito sabe que a solução para parte dos problemas financeiros de Minas depende de negociações com Brasília. A disposição de dialogar, segundo a cientista social, representa um aceno importante, embora ainda seja necessário acompanhar como essa relação se desenvolverá na prática.
Wallace Oliveira, mestre em sociologia, por sua vez, considera que a capacidade de Cleitinho construir uma administração diferente da de Zema dependerá das alianças políticas que estabelecer.
“Para poder ter condições políticas e administrativas de fazer um governo que seja diferente do governo Zema, ele precisa se associar com a esquerda. Precisa se associar com o governo federal, com o PT, ou até com outras forças da direita”, avalia.
Caso contrário, segundo Oliveira, a tendência é que o novo governo represente uma continuidade do projeto político anterior, sustentado pela direita na Assembleia Legislativa. A presença expressiva de parlamentares conservadores e de extrema direita no Legislativo estadual, que podem dar sustentação às propostas do Executivo, reforçam a possibilidade de um governo de continuidade.
A herança de Zema e os limites para mudanças
Os oito anos de governo Zema e Mateus Simões (PSD) deixam uma série de questões para a próxima administração. Além do endividamento e do déficit orçamentário, a política de ajuste fiscal, as privatizações e a relação com os servidores públicos estarão no centro das decisões de Cleitinho.
Durante a gestão do Novo, a agenda liberal orientou iniciativas de desestatização e concessões, além de uma política de contenção de despesas que foi alvo de críticas de movimentos sociais e categorias do funcionalismo.
Para Liliam Anjos, o desafio não está restrito à venda de empresas públicas. Ela alerta que a participação da iniciativa privada em áreas como saúde, educação e assistência social também precisa ser observada.
“Não estamos falando apenas dos processos de privatização clássicos das empresas estatais, como a Cemig e a Gasmig, mas também de várias iniciativas de gestão que privatizam a saúde e a educação”, afirma.
Legado do Zema é de desvalorização dos servidores estaduais
A cientista social defende que a preservação do patrimônio público e a valorização dos servidores sejam prioridades para a sociedade mineira. Segundo ela, são os trabalhadores do serviço público que garantem a execução das políticas e a efetivação dos direitos da população. Nesse sentido, as promessas de Cleitinho de estabelecer uma relação mais próxima com os servidores e valorizar as categorias estaduais precisarão ser confrontadas com as escolhas orçamentárias de sua administração.
Outro ponto levantado por Liliam Anjos é a política de isenções fiscais concedidas a grandes empresas. Para ela, a renúncia de receitas representa uma contradição quando o governo argumenta não ter recursos suficientes para ampliar investimentos em serviços públicos.
“Ao isentar grandes empresários, retira-se esse recurso do orçamento que serviria para o povo avançar, ter mais políticas públicas e para que essa verba seja destinada ao povo mineiro”, avalia.
Wallace Oliveira também aponta a necessidade de rever a política de desonerações e retomar as negociações da dívida com o governo federal, inclusive em relação ao Programa de Pleno Pagamento de Dívidas dos Estados (Propag).
“Ele só vai conseguir equilibrar o orçamento se conseguir rever a política de desonerações e retomar a discussão da dívida com o governo federal, mesmo que seja dentro do Propag, mas mudando a modalidade de adesão ao Propag”, afirma.
Na avaliação do sociólogo, sem mudanças nessas duas frentes, o governo terá dificuldades para ampliar os investimentos em saúde, educação e infraestrutura, além de promover a valorização dos servidores. O cenário coloca em questão a capacidade de Cleitinho de conciliar as promessas de campanha com as limitações financeiras herdadas da administração anterior.
Composição do governo pode indicar os rumos da gestão
Os primeiros movimentos na formação do secretariado também podem oferecer pistas sobre o perfil da próxima administração. Liliam Anjos chama atenção para a possibilidade de composição entre nomes com diferentes visões sobre o papel do Estado.
Entre as possibilidades mencionadas está Gabriel Azevedo (MDB), que disputou o governo do estado nas eleições de 2026, identificado com uma perspectiva de defesa do poder público, enquanto a possível escolha de Bruno Westin para a Secretaria de Estado de Fazenda aponta para uma trajetória associada a privatizações e concessões.
Para a cientista social, essa diversidade de posições poderá produzir contradições dentro do próprio governo. “Até que ponto essa diversidade de ideias vai ser possível e vai dar conta, acho que teremos que esperar um tempo para poder analisar”, pondera.
A composição política também será determinante para definir o grau de autonomia de Cleitinho em relação ao grupo de Zema e às forças bolsonaristas. Wallace Oliveira observa que o governador eleito mantém proximidade ideológica com setores da direita neoliberal e da extrema direita, mas identifica sinais que podem apontar para uma postura mais pragmática.
Um desses elementos foi a atuação menos contundente de Cleitinho na campanha presidencial de Flávio Bolsonaro (PL) durante o segundo turno. A postura provocou incômodo entre setores bolsonaristas, mas também pode indicar uma tentativa de preservar canais de diálogo com o governo federal.
“Por um lado, existe o cenário da relação dele com os bolsonaristas no Congresso Nacional e na Assembleia Legislativa de Minas Gerais, sugerindo que ele tenda a fazer um governo mais à direita. Por outro lado, as atitudes dele no segundo turno mostram o contrário”, analisa Oliveira. Ele também menciona as declarações de Cleitinho em defesa da pacificação política e da disposição de conversar com o governo federal, independentemente de quem vencesse a eleição presidencial.
Organização popular e defesa dos serviços públicos
Diante da vitória expressiva de Cleitinho, os movimentos sociais, sindicatos e partidos de oposição também terão de reorganizar suas estratégias de atuação. Para Oliveira, não há necessidade de abandonar as pautas que já mobilizam a sociedade mineira. A defesa das empresas estatais, dos serviços públicos, dos servidores e o enfrentamento aos impactos da mineração permanecem entre os principais temas de disputa.
“Os movimentos têm que continuar articulados e não têm que inventar. Existem pautas ou setores que têm sido o centro dos ataques, e temos que continuar lutando e resistindo com esses setores: lutar contra a privatização das estatais, a privatização da educação e a privatização dos hospitais públicos”, afirma.
Liliam Anjos também defende que a sociedade organizada não espere as primeiras medidas do novo governo para começar a se mobilizar. Para ela, além de reagir às iniciativas do Executivo, os movimentos precisam apresentar propostas e construir uma agenda própria de reivindicações.
“Não precisamos esperar os próximos passos ou o que vai acontecer para começarmos a nos organizar e termos clareza das nossas pautas. Temos um longo período de atuação reativa na política mineira, e acho que temos que ser mais propositivos”, afirma.
A cientista social defende que a organização dos trabalhadores e dos movimentos populares seja construída independentemente de quem ocupe o governo. Para ela, a disputa pelo orçamento, a preservação do patrimônio público e a garantia de direitos devem orientar a atuação dos setores populares nos próximos anos.

