derrota republicana

Congresso de maioria democrata poderá ser ‘muro de contenção’ a ações coercitivas de Trump

Professor da UFABC avalia que maioria na Parlamento também abre caminho para investigações sobre condutas governamentais

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, em discurso na Assembleia Geral da ONU.
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, em discurso na Assembleia Geral da ONU | Crédito: Angela Weiss/AFP

O presidente Donald Trump sofreu uma derrota importante nas eleições de meio de mandato nos Estados Unidos, nas quais o partido Democrata conquistou maioria tanto na Câmara quanto no Senado. O republicano tenta se equilibrar no poder em meio à queda de popularidade causada, entre outros fatores, pelo alto custo de vida no país e pela guerra no Irã, questionada internacionalmente e com impactos para as cadeias globais produtivas.

Ao Conexão BdF, da Rádio Brasil de Fato, o analista geopolítico Antonio Marcos Roseira, professor de Relações Internacionais da Universidade Federal do ABC (UFABC), afirma que a alta inflação no custo de vida do estadunidense foi um elemento bastante decisivo. “A inflação tem atingido sobretudo o setor de combustíveis, mas se espalha pelo setor dos alimentos. Isso fez com que muitos eleitores tradicionais, que tinham votado no Trump, que são republicanos, revissem suas posições e votassem no partido Democrata”, afirma.

Roseira destaca que a guerra tarifária também pressionou o mercado interno. Além disso, há outros elementos secundários, como uma percepção de que o governo é corrupto.

Com relação ao reconhecimento da vitória dos democratas, o professor avalia que, de certa forma, surpreendeu, considerando a personalidade de Trump, mas, ao mesmo tempo, explicita que ele compreendeu o atual momento. “Ele sentiu o emparedamento. Ele será emparedado nesses dois últimos anos de mandato. É uma situação muito difícil e se assemelha à de Barack Obama em seus dois governos. Isso vai limitar bastante suas posições imperialistas”, avalia.

Antonio Marcos Roseira pondera que há um sentimento geral de insatisfação do eleitor diante dos dois partidos. “Tanto democratas quanto republicanos têm sido muito imperialistas e muito pró-guerra. Ambos os partidos são bastante dominados por lobby pró-Israel. Então é preciso um pouco de cautela”, alerta.

O analista lembra que o Congresso terá muito poder orçamentário, não apenas interno, mas para aliados externos. Isso inclui Israel e também a Ucrânia no conflito contra a Rússia. “Tudo isso transcende um pouco a retórica do que consideramos direita e esquerda nos EUA, exatamente pelo fato de que o poder industrial-militar americano está incrustrado dentro das relações das duas casas, e isso tem uma força muito grande. Não acredito em mudanças muito significativas até o final do mandato de Trump”, afirma.

Para Roseira, no campo econômico não há grandes impactos no curto prazo. “O que aconteceu tem efeitos a médio prazo. Ou seja, a guerra tem que cessar”, resume. Ele levanta um aspecto curioso, que é o fato de que Trump precisaria do aval do Congresso para declarar guerra oficialmente a um país. “Por isso, no Irã ele foi fazendo ações que deveriam ser ações pontuais, mas que foram se estendendo”, argumenta. “Agora, com os democratas [no Senado], ele terá mais dificuldades para seguir com suas ações no Irã”, avalia.

Segundo o professor, um efeito realmente significativo da maioria Democrata no Congresso é a possibilidade de abertura de investigações sobre condutas de Trump. “Isso poderá funcionar como um muro de contenção às expectativas mais coercitivas de algumas instituições, como o ICE. As instituições americanas estarão sob o escrutínio de deputados e senadores, e as instituições têm medo desse poder”, pontua.

Para ouvir e assistir

O jornal Conexão BdF vai ao ar em duas edições, de segunda a sexta-feira: a primeira às 12h e a segunda às 17h, na Rádio Brasil de Fato, 98.9 FM na Grande São Paulo, com transmissão simultânea também pelo YouTube do Brasil de Fato.

Editado por: Gia Matheus Almeida

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