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DF fica sem vacinas contra mpox e organizações LGBT+ acionam Ministério Público

Capital registrou 23 casos da doença em 2026, oito deles em outubro; organizações cobram explicações

Fotografia de uma mulher a aplicar uma vacina com uma seringa no braço de uma pessoa não identificada
Estão sendo ofertados 20 tipos de imunizantes do Calendário Nacional de Vacinação | Crédito: Tomaz Silva/Agência Brasil

O Distrito Federal está sem vacinas contra a mpox na rede pública de saúde. A falta de imunizantes foi confirmada pela própria Secretaria de Saúde (SES-DF), em memorando circular nesta terça-feira (3), que informa a suspensão temporária da vacinação por inexistência de doses em estoque. Diante da situação, o Centro Brasiliense de Defesa dos Direitos Humanos (CentroDH) e o Estruturação – Grupo LGBT+ de Brasília acionaram, nesta quarta-feira (4), a Secretaria de Saúde, o Ministério Público do Distrito Federal e Territórios (MPDFT) e o Ministério Público de Contas (MPC-DF).

A cobrança ocorre em meio ao registro de novos casos da doença na capital. Segundo dados divulgados pela SES-DF, o Distrito Federal confirmou 23 casos de mpox em 2026, dos quais oito foram registrados somente em outubro. Para as organizações, a interrupção da vacinação compromete a proteção dos grupos prioritários e exige esclarecimentos sobre o planejamento e a reposição dos imunizantes.

Nos documentos encaminhados aos órgãos públicos, as organizações pedem informações sobre quando o estoque chegou ao fim, quantas doses foram recebidas e aplicadas ao longo do ano e se a Secretaria de Saúde solicitou novos imunizantes ao Ministério da Saúde. Também cobram uma previsão para a retomada da vacinação e medidas de proteção para quem atende aos critérios de elegibilidade.

Pessoas mais vulneráveis

A preocupação é especialmente voltada às pessoas vivendo com HIV que apresentam imunossupressão avançada, condição em que o sistema imunológico está significativamente comprometido. 

Um estudo internacional publicado em 2023 na revista científica The Lancet, citado nos documentos enviados ao Ministério Público, analisou 382 pessoas vivendo com HIV que contraíram mpox. Entre os participantes com contagem de células CD4 inferior a 100 células/mm³, a mortalidade foi de aproximadamente 27%. O levantamento identificou 27 mortes no conjunto analisado, todas entre pessoas com CD4 inferior a 200 células/mm³.

As células CD4 são responsáveis por coordenar parte da resposta imunológica do organismo. O HIV ataca essas células, e a redução de sua quantidade pode deixar o corpo mais vulnerável a infecções e complicações.

No ofício encaminhado ao MPDFT, as organizações destacam a gravidade da falta de imunizantes para quem apresenta maior risco de complicações. “A indisponibilidade de imunizantes representa uma preocupação concreta quanto à proteção da vida e à prevenção de desfechos potencialmente fatais, sobretudo entre pessoas com imunossupressão grave. Assim, o CentroDH e o Estruturação manifestam preocupação com a ausência de acesso à vacinação e requerem especial atenção do Ministério Público para assegurar a adoção de providências urgentes destinadas ao restabelecimento do abastecimento e à proteção dessa população”, destaca o documento.

O ativista Michel Platini, representante do CentroDH e do Estruturação no Conselho de Saúde do Distrito Federal, anunciou que a Comissão de Acompanhamento das Infecções Sexualmente Transmissíveis deverá se reunir ainda nesta semana para acompanhar a situação e cobrar providências.

“Estamos falando de uma doença para a qual existem medidas de prevenção, vacina e assistência. É inadmissível que pessoas continuem correndo risco de morrer ou de ter seu quadro de saúde agravado enquanto existe uma vacina capaz de ajudar a prevenir esses desfechos. Consideramos criminosa a negligência com a saúde da população. A falta de vacinas na Secretaria de Saúde é uma situação gravíssima e exige uma resposta imediata do poder público”, afirma Michel Platini.

Cobrança por reposição de doses

Além de solicitar esclarecimentos sobre a gestão dos estoques, o CentroDH e o Estruturação pedem que o Ministério Público de Contas apure as circunstâncias administrativas que levaram ao desabastecimento e fiscalize as providências adotadas pela Secretaria de Saúde.

Na representação, as organizações ressaltam que o pedido de apuração não significa afirmar que houve irregularidade por parte da gestão distrital. “Não pressupõe que o desabastecimento decorra necessariamente de irregularidade praticada pela SES-DF. Busca-se justamente identificar suas causas, delimitar as responsabilidades dos órgãos envolvidos e verificar se foram adotadas tempestivamente as medidas administrativas exigíveis”, afirma a representação.

Os documentos também apontam que o Ministério da Saúde informou, em ofício no dia 29 de setembro, que a estratégia nacional de vacinação contra a mpox permanece vigente. Segundo a manifestação federal, o Programa Nacional de Imunizações atende às demandas dos estados e do Distrito Federal e, diante da necessidade de doses adicionais, podem ser adotadas medidas para viabilizar novos imunizantes.

Com base nessa resposta, as organizações questionam se a SES-DF comunicou formalmente a falta de vacinas ao governo federal e solicitou a reposição antes do esgotamento do estoque. Ao MPDFT, os pedidos incluem a requisição de informações à Secretaria de Saúde, a apuração das circunstâncias do desabastecimento e o acompanhamento das medidas para garantir a vacinação dos grupos prioritários.

O Brasil de Fato DF procurou a Secretaria de Saúde do DF para esclarecer as causas do desabastecimento, saber quando novas doses serão disponibilizadas e quais medidas estão sendo adotadas para proteger a população durante a interrupção da vacinação. Até a publicação desta matéria, não houve retorno.

A fita vermelha (ou laço vermelho) é o símbolo universal da conscientização, apoio e solidariedade às pessoas que vivem com HIV/AIDS. Foto: MS/Divulgação© MS/Divulgação Versão em áudio
A fita vermelha (ou laço vermelho) é o símbolo universal da conscientização, apoio e solidariedade às pessoas que vivem com HIV/AIDS | Crédito: MS/Divulgação©

Prevenção e sintomas

A mpox é uma doença causada pelo vírus MPXV e pode infectar qualquer pessoa por meio do contato próximo com alguém contaminado, principalmente pelo contato direto com lesões na pele, secreções e objetos pessoais compartilhados. Entre os sintomas estão febre, dor de cabeça, dores no corpo, ínguas e erupções na pele. A transmissão pode ocorrer também durante o contato íntimo e sexual, mas a doença não é exclusiva da população LGBT+.

Em orientação divulgada pela Agência Saúde-DF ainda nesta quarta (4), a Secretaria recomenda que pessoas com lesões suspeitas procurem uma unidade de saúde para avaliação. “Diante do aparecimento súbito de lesões nas mucosas ou erupções cutâneas agudas, como bolhas e pústulas, em qualquer parte do corpo, procure uma unidade de saúde para avaliação”, orienta Juliane Maria Malta, diretora de Vigilância Epidemiológica da SES-DF.

A pasta também recomenda evitar contato físico próximo com pessoas que apresentem lesões suspeitas, higienizar as mãos e não compartilhar roupas, toalhas, roupas de cama e outros objetos de uso pessoal. Pessoas com suspeita ou confirmação da doença devem evitar contato próximo com outras pessoas e seguir as orientações dos profissionais de saúde.


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Editado por: Clivia Mesquita

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