A vitória de Lula no Brasil provocou uma onda de entusiasmo entre o campo progressista e as esquerdas de todo o mundo. Em um cenário internacional marcado pelo avanço das extremas direitas, pelo poder das grandes plataformas digitais e pela sensação de que a história caminhava inexoravelmente em uma direção reacionária, o resultado brasileiro demonstrou que as correlações de forças podem mudar. A vitória teve, assim, um impacto político e simbólico extraordinário, rompendo com o fatalismo que se instalou em amplos setores progressistas e reabrindo expectativas de transformação em diferentes países.
Um dos símbolos dessa vitória, o chamado Exército do Lula, uma rede de mobilização digital que reuniu mais de dez milhões de seguidores, rapidamente começou a atravessar fronteiras. Na França, apoiadores de Jean-Luc Mélenchon passaram a organizar canais de mobilização inspirados na experiência brasileira. Na Argentina, surgiu o Ejército del Peronismo, voltado à reorganização da oposição a Javier Milei. Na Espanha, o canal La Fuerza de la Gente passou a incorporar mecanismos semelhantes de coordenação digital. Até mesmo nos Estados Unidos, ativistas progressistas começaram a discutir a experiência brasileira como referência para enfrentar o trumpismo. Em poucos dias, o “método Janones” deixou de ser apenas uma inovação eleitoral brasileira para se converter em objeto de interesse e experimentação internacional.
Seu criador, o deputado federal André Janones, também se tornou uma figura requisitada. No início de novembro, viajou à Argentina, onde se reuniu com a ex-presidenta Cristina Kirchner e com o ex-ministro Sergio Massa para discutir estratégias de enfrentamento à extrema direita. Recebeu ainda convites do primeiro-ministro espanhol, Pedro Sánchez, e da presidenta mexicana, Claudia Sheinbaum, para compartilhar sua experiência. Essa circulação revela algo maior do que o interesse por uma ferramenta digital. Expressa também a busca internacional por novas formas de organização e mobilização capazes de enfrentar as extremas direitas também no terreno em que elas pareciam ter conquistado uma vantagem quase incontestável.
Mas o que, afinal, pode ser aprendido com essa experiência? E até que ponto seus resultados podem ser reproduzidos mediante a importação de ferramentas, linguagens e formas de coordenação? A virada de Lula não foi simplesmente uma vitória do WhatsApp, mas o resultado de uma articulação excepcional entre comunicação digital, mobilização popular, reivindicações sociais e defesa da democracia. Essas condições não podem ser importadas com um método ou um assessor eleitoral. A experiência brasileira oferece lições importantes, mas sua tradução para outros contextos exige compreender tanto suas inovações quanto seus limites. O caso espanhol, diante das eleições gerais antecipadas de 29 de novembro, permite examinar concretamente algumas dessas possibilidades e contradições.
A virada: da resignação à mobilização
A virada de Lula combinou vários processos que se reforçaram mutuamente: uma campanha mais atenta ao custo de vida e às preocupações das classes trabalhadoras, uma mobilização juvenil e popular extraordinária, uma presença digital sem precedentes no campo progressista brasileiro e uma estratégia de alerta sobre os riscos de uma vitória bolsonarista. Depois de um primeiro turno dominado por controvérsias em torno do Supremo Tribunal Federal (STF), a campanha de Lula conseguiu questionar a identificação de Flávio Bolsonaro com a promessa de “mudança”, confrontando-a com o legado do governo de seu pai, sua própria trajetória e as ameaças de regressão democrática e social representadas por sua candidatura.

Entre os dois turnos, cerca de 2,8 milhões de pessoas a mais compareceram às urnas, enquanto os votos brancos e nulos diminuíram em quase dois milhões. As primeiras estimativas sugerem que Lula se beneficiou amplamente dessa mobilização, atraiu apoios de outras candidaturas e disputou votos do próprio eleitorado de seu adversário. No total, conquistou mais de dez milhões de votos adicionais e melhorou seus resultados nas 27 unidades da federação, incluindo as grandes cidades.
Mas o mais decisivo foi a transformação do clima político. A derrota inicial produziu frustração, mas também desencadeou uma reação que ultrapassou os partidos. Enquanto Flávio já distribuía ministérios, convencido de sua vitória, e o núcleo duro lulista ainda tentava assimilar o revés, estudantes, artistas e pessoas sem militância organizada foram às ruas e às redes para assumir a campanha como sua. A disputa entrou nos bairros, nas universidades, nas conversas familiares e nas redes de amizade. Já não se tratava apenas de eleger Lula ou apoiar o PT, mas de impedir uma nova ofensiva autoritária, desta vez fortalecida pelos resultados legislativos do bolsonarismo. A mobilização conseguiu transformar o significado da eleição: de uma disputa entre candidaturas, passou a se tornar uma responsabilidade coletiva sobre o futuro do país. Essa apropriação social da campanha foi uma das chaves da virada.
O Exército do Lula e a inovação do método Janones
O Exército do Lula, impulsionado por André Janones, desempenhou um papel de destaque nesse processo. Sua principal contribuição foi combinar duas capacidades que as extremas direitas haviam desenvolvido com notável eficácia: o alinhamento de mensagens-chave e a coordenação da ação digital. Por meio de uma estrutura que distribuía conteúdos, organizava intervenções e estimulava seus participantes a agir em seus próprios círculos sociais, Janones transformou milhões de simpatizantes em agentes ativos da campanha. A aposta era relativamente simples. Se cada participante convencesse uma ou duas pessoas de seu entorno, poderia contribuir para reverter o resultado.
Mas a inovação não foi apenas organizativa. Janones conseguiu promover três experiências políticas fundamentais em tempos de redes sociais digitais: pertencimento, protagonismo e entretenimento. No Exército do Lula, um canal que chegou a reunir quase onze milhões de seguidores, muitos brasileiros descobriram que não estavam sozinhos. Sentiram-se acolhidos, recuperaram a confiança e começaram a acreditar que o impossível poderia se tornar realidade. Embora fossem chamados de “soldados” e seguissem as orientações do “general Janones”, sentiam que tinham em suas mãos a possibilidade de mudar o resultado. E, enquanto cumpriam suas “missões”, também se divertiam, produzindo memes, humor e conteúdos que ampliaram a disputa pelo senso comum. Se o preço para impedir o retorno da extrema direita era se tornar um recruta digital, a conta saía barata.
A mobilização produziu um efeito cumulativo. Quanto mais a sociedade participava, mais plausível parecia a virada. E quanto mais plausível ela parecia, maior era a disposição para participar. A eficácia do dispositivo digital não pode ser separada dessa transformação das expectativas coletivas. O Exército do Lula amplificou uma energia social que não havia criado sozinho e contribuiu para dar a ela visibilidade, coordenação e sentido de eficácia política.

Os limites da importação de um modelo
A experiência brasileira demonstra que as redes digitais podem ser muito mais do que instrumentos de propaganda. Mas sua eficácia não significa que seus resultados possam ser reproduzidos automaticamente na Espanha ou em outros países. Há pelo menos três limites que precisam ser considerados.
O primeiro é institucional e político. No Brasil, o segundo turno presidencial permitiu concentrar apoios em torno de uma candidatura comum. Na Espanha, o sistema parlamentar multipartidário, a distribuição territorial das cadeiras no Congresso e a fragmentação das esquerdas dificultam essa convergência. Diferentemente do Brasil, a disputa pelo governo depende da composição de maiorias parlamentares e de acordos entre partidos após a eleição. Se cada partido construir seu próprio exército digital, poderá acabar disputando os mesmos simpatizantes em vez de ampliar o campo de apoios. A eficácia do método dependerá menos do número de canais do que de sua capacidade de atravessar fronteiras partidárias e alcançar setores distantes da política organizada.
O segundo limite é social e organizativo. A virada brasileira se apoiou em uma mobilização que ultrapassou os partidos e o próprio Exército do Lula. Uma coisa é ativar eleitoralmente milhões de simpatizantes. Outra é construir uma mobilização social capaz de assumir uma disputa política como sua. Na Espanha, as lutas feministas, por moradia, sindicais, ambientalistas e as redes de solidariedade expressam uma sociedade ativa, mas não constituem uma reserva eleitoral automaticamente disponível para os partidos. O desafio consiste em conectar suas demandas sem subordiná-las às necessidades imediatas de uma campanha. Para isso, é necessário polarizar politicamente a disputa, mas ampliar socialmente a participação. Trata-se de transformar um confronto entre identidades partidárias em uma disputa entre projetos de sociedade, capaz de mobilizar aqueles que não se reconhecem necessariamente nas organizações progressistas.
O terceiro limite é conjuntural e estratégico. A virada brasileira ocorreu em uma situação excepcional, quando a percepção de uma ameaça imediata se combinou com a expectativa crescente de que ainda era possível reverter o resultado. Essa articulação entre urgência, esperança e oportunidade política não pode ser fabricada por uma estratégia de comunicação. Na Espanha, o risco de um governo do Partido Popular (PP) e do Vox pode estimular uma mobilização semelhante, mas não garante que ela aconteça. O desafio consiste em transformar o medo de uma derrota na convicção de que a intervenção coletiva pode mudar o desfecho, oferecendo, ao mesmo tempo, um horizonte de transformação social que vá além de impedir a vitória das direitas.
Disputar a mudança, recuperar o futuro
Há outra lição brasileira especialmente importante para a Espanha. No primeiro turno, Flávio Bolsonaro conseguiu se apresentar como candidato da mudança, enquanto Lula aparecia como representante da continuidade. É um paradoxo recorrente de nosso tempo: as extremas direitas se apropriam da linguagem da ruptura e da rebeldia, enquanto as forças progressistas frequentemente ficam associadas à defesa da ordem existente.
Essa apropriação da mudança não ocorre apenas por meio de discursos eleitorais. A polarização e a intoxicação informacional promovidas pelas extremas direitas, em aliança com os magnatas das plataformas digitais, contribuem para produzir uma espécie de bloqueio cognitivo. Intensifica-se artificialmente a insatisfação com o governo de turno e alimenta-se um desejo abstrato de ruptura, mesmo quando a alternativa ameaça os interesses materiais e os direitos daqueles que a apoiam. Como mostra Giuliano da Empoli em A hora dos predadores, as novas formas de poder digital intervêm profundamente na construção de percepções e comportamentos políticos.
Romper esse bloqueio exige mais do que desmentir notícias falsas. No Brasil, uma constelação de iniciativas culturais e comunicacionais contribuiu para disputar o senso comum. Entre elas, destacou-se a série Revelando, impulsionada por cineastas, roteiristas, humoristas e estrategistas, com a participação de figuras da cultura popular. Seus episódios, que alcançaram milhões de visualizações, buscavam lembrar quem era Flávio Bolsonaro, o que havia significado o governo de seu pai e quais seriam as consequências de seu projeto político. Sua força estava em utilizar linguagens acessíveis, humor e referências culturais para tornar visível aquilo que a normalização do bolsonarismo havia contribuído para apagar. Não bastava denunciar a extrema direita. Era necessário transformar as percepções sobre ela e questionar sua identificação com a mudança.
A campanha de Lula conseguiu modificar parcialmente o cenário por meio de uma dupla estratégia. De um lado, tornou visíveis os riscos de uma vitória bolsonarista para a democracia, os direitos e a soberania brasileira. De outro, recuperou reivindicações sociais conectadas à vida cotidiana, como o fim da escala de trabalho 6×1, que obriga a trabalhar seis dias para apenas um de descanso. A defesa da democracia permitiu reunir diferentes setores, enquanto as demandas materiais ofereceram razões positivas para participar. Não se tratava apenas de impedir uma ameaça, mas também de disputar o significado da mudança.
Na Espanha, o campo progressista enfrenta uma contradição semelhante, agravada pelo desgaste de estar no governo. As melhorias nos indicadores de emprego e os aumentos do salário-mínimo convivem com um mal-estar cotidiano alimentado pela crise da moradia, pelo custo de vida, pela precariedade e pela incerteza em relação ao futuro. Para muitos jovens, a dificuldade de sair da casa dos pais ou construir um projeto de vida estável pesa mais do que os indicadores macroeconômicos positivos.
Recuperar a iniciativa exige repolitizar esses problemas. Não basta descrever os preços da moradia, mas discutir a especulação imobiliária, a concentração da propriedade e os interesses que bloqueiam soluções estruturais. Nenhuma estratégia de comunicação pode resolver, por si só, a distância entre os avanços do governo e a experiência daqueles que sentem que suas vidas não melhoram o suficiente. A esse desgaste soma-se agora a crise aberta pelos graves acidentes ferroviários e pela renúncia recente do ministro dos Transportes, Óscar Puente, que acrescenta uma dificuldade política em plena campanha e recoloca no centro do debate a confiança nas instituições e a capacidade de gestão do governo.
Há, além disso, uma disputa cultural incontornável. Um dos maiores êxitos das extremas direitas foi deslocar os limites do aceitável, normalizando discursos de ódio, ataques a direitos e posições reacionárias que antes provocavam rejeição. Na Espanha, isso exige apresentar o PP, principal partido da direita conservadora, e o Vox, partido de extrema direita, como parte de um mesmo bloco reacionário, sem ignorar suas diferenças, mas tornando visíveis as consequências de seu projeto compartilhado para os direitos sociais, as mulheres, as pessoas migrantes, as minorias sexuais e as políticas ambientais. Entretanto, a consciência desses riscos não se traduz automaticamente em mobilização. Diante da normalização reacionária, é necessário recuperar a capacidade de indignação e transformá-la em participação, organização e esperança.

A experiência brasileira mostra que a defesa da democracia pode se tornar uma poderosa força de mobilização, mas é insuficiente quando se separa das expectativas de transformação social. O desafio das esquerdas espanholas não consiste apenas em convencer a sociedade dos riscos de um governo reacionário, mas em recuperar a capacidade de representar uma alternativa ao mal-estar existente. Caso contrário, podem vencer a disputa sobre quem representa uma ameaça à democracia e perder, ao mesmo tempo, a disputa sobre quem representa a mudança.
Um novo ciclo?
A vitória de Lula no Brasil, a derrota de Trump nas eleições legislativas de meio de mandato nos Estados Unidos e as mobilizações juvenis que atravessam diferentes regiões do mundo sugerem que algo começa a se mover no clima político internacional. Não estamos necessariamente diante de um novo ciclo progressista, nem de um recuo irreversível das extremas direitas. Mas há sinais de que a resignação pode ser rompida, as correlações de forças podem mudar e as expectativas coletivas podem se reabrir.
Depois de anos marcados pelo avanço reacionário e pela sensação de que não havia alternativas, essas experiências contribuem para devolver ao futuro seu caráter aberto. A principal lição do Brasil não é que as esquerdas espanholas precisem de seu próprio Janones, mas que as correlações de forças eleitorais podem se modificar quando a sociedade recupera a iniciativa e transforma a resignação em participação coletiva. As ferramentas digitais podem contribuir decisivamente para esse processo, mas não substituí-lo. O método pode ser importado, mas a esperança, a organização e a capacidade coletiva de transformar a realidade precisam ser construídas.
* Breno Bringel é professor do Instituto de Estudos Sociais e Políticos da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (IESP-UERJ) e presidente da Associação Latino-Americana de Sociologia (ALAS).
** Beto Vasques é coordenador do Laboratório de Opinião Pública da Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP) e diretor do Instituto Democracia em Xeque (DX).
*** Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil de Fato.


