PELA CIDADE BAIXA

El Xixo Tattoo e Piercing ultrapassa as linhas do preconceito e ganha fama pela qualidade dos seus profissionais

Estúdio na Lopo Gonçalves amplia atividades e faz trabalho com cuidados especiais e muita arte

El Xixo Tattoo e Piercing Studio na Lopo Gonçalves, 33, na Cidade Baixa
El Xixo Tattoo e Piercing Studio fica localizado na Lopo Gonçalves, 33, na Cidade Baixa | Crédito: Rafael Rosa

Fazer tatuagem já ultrapassou a linha do preconceito religioso, familiar ou trabalhista, mas ainda tem gente que olha para pessoas ‘desenhadas’ na pele com uma certa cara de desdém e de reprovação. Piercing, uma perfuração na pele com algum adorno metálico ou joia, segue o mesmo caminho. Quem entra no El Xixo Tattoo e Piercing Studio na Lopo Gonçalves, 33, na Cidade Baixa, sai com uma imagem positiva. Fica encantado com tudo que é feito ali com cuidado, higiene, respeito às normas sanitárias e arte. “Minha equipe é de primeira, são artistas altamente qualificados”, diz o diretor Jean Etienne, 39 anos, cabelo estilo moicano, um dente de metal e tatuagens e piercings até onde a vista não alcança.

Ele é chamado de Xixo – na infância, décadas de 80 e 90 do século passado, gostava dos programas infantis da Xuxa e o pai, de tanto vê-lo assistindo, apelidou o menino de Xixo. É tratado por este nome desde a meninice. Pouca gente o conhece por Jean Etienne, nome francês que tem porque a mãe gostava das coisas da França. E o dente metálico? “Quando era menino, quebrei o dente original e resolvi inovar. Estou assim desde sempre”, conta. Ele nasceu em São Paulo, veio para o Sul e já morou em Viamão, Cachoeirinha e Porto Alegre, onde está há muito tempo.

No Studio, há uma variedade de trabalhos oferecidos aos clientes, além de fazer tatuagens e piercings para quem chegar por lá. Fazem quadros, aquarelas, trabalhos em acrílico, pintura digital, pintura de camisetas, cerâmicas. O local é simpático, acolhedor, com pessoas de alta astral. São três salas em linha horizontal. Sem portas. Na entrada há uma verdadeira lojinha de artes variadas, ao lado um local para conversas, cafés e mesa para desenhistas digitais. À esquerda da entrada, estão três macas onde as pessoas se deitam para fazer tatuagem ou piercing.

Público variado e de todas as áreas

Xixo explica que o espaço é alugado do Sinpro (Sindicato dos Professores do Ensino Privado), com quem tem ótimas relações comerciais. “Na pandemia, por exemplo, fizemos um acordo especial, que garantiu a nossa sobrevivência”, diz. Ele tem a loja há oito anos, mas faz tatuagens e outras artes (como pintura) há 18 anos. “Gosto muito, me achei neste mundo”. Os ‘negócios’ vão bem, evoluindo sempre, garante, mas ele afirma que a concorrência também cresceu. “Depois da pandemia, abriram muitos estúdios pela cidade, fora aqueles que fazem por conta própria, em suas casas”.

O pai, de tanto vê-lo assistindo, apelidou o menino de Xixo – Crédito: Rafael Rosa

O público é variado. Vai desde cantores de RAP (gênero musical e uma forma de expressão artística baseada na fala rítmica, rimas e poesia executadas sobre uma batida ou acompanhamento instrumental), jogadores, pessoal LGTBQI+, estudantes, mulheres que apreciam a arte, trabalhadores em geral e muita gente mais de várias idades. 

“Quem gosta, pode ter certeza que fazemos um trabalho de qualidade. Não gostou, a gente tem técnicas para aprimorar e fazer ajustes ao gosto do freguês”, garante. Os preços variam. Começam em R$ 150 e vão subindo à medida que as tatuagens aumentam de tamanho. “Têm pessoas que já vêm aqui com ideia fixa do que querem, mas caso não tenham oferecemos catálogos ou pesquisamos na Inteligência Artificial (IA)”. 

Xixo esclarece para quem está pensando em inovar seu visual e fazer uma tatuagem que “tattoo é para sempre”. Querer tirar depois dói muito. Não há limite de idade para realizar uma tatuagem, mas é preciso ter consciência do que se está fazendo. A pele é sagrada. O procedimento é invasivo. É preciso muitos cuidados antes e depois do trabalho para evitar inflamações. O cara não pode vir aqui e depois sair correndo, fazer ginástica, nadar”, reforça.

Xixo esclarece para quem está pensando em inovar seu visual e fazer uma tatuagem que “tattoo é para sempre” – Crédito: Rafael Rosa

Cuidados necessários

A loja oferece até um folheto explicativo, que distribui aos clientes, dos cuidados necessários pré e pós tattoo. Antes é preciso alimentar-se bem, beber água, durante e depois do trabalho, hidratar a região a ser tatuada dias antes, evitar bebida alcoólica, contatar ou consultar profissional médico em caso de alergias ou de algum problema de saúde.

Depois da execução do trabalho, é preciso retirar a proteção no primeiro dia e logo em seguida lavar o local com água e sabão, higienizar com sabonete de glicerina ou bacteriano duas vezes ao dia, aplicar uma camada fina de pomada de três a cinco vezes ao dia e realizar este processo durante cinco dias. Xixo também alerta para não coçar a região trabalhada nem tirar as casquinhas, evitar ir à praia ou piscina, evitar exposição solar nos primeiros 30 dias e esquecer alimentos gordurosos, esforço físico e bebida alcoólica. “Nossos equipamentos são de primeira, descartáveis e altamente esterilizados, somos profissionais qualificados”, diz.

Sete pessoas trabalham no studio – Crédito: Rafael Rosa

Ali trabalham sete pessoas, todas muito bem preparadas para realizar suas atividades com esmero e cuidados. Denise Mello, 39 anos, é a responsável pela área de piercing. Garante que fazer piercing é para qualquer hora, mas aqui notamos que é bem sazonal. “Dá para tirar e colocar em qualquer lugar. Nas orelhas, nos lábios, no nariz, no umbigo, enfim estamos capacitados para fazer qualquer trabalho com muita qualidade”, afirma. 

As assistentes de Denise e de Xixo trabalham eventualmente em feiras realizadas na Cidade Baixa, como a Feira da Canhota, criada e organizada por expositores de esquerda. Este evento costuma reunir e comercializar artesanato, moda, cervejas e cachaças artesanais, comida, compra, vende e troca livros, LPS e CDs e tantas outras coisinhas práticas e curiosas. E há também ocasiões em que o pessoal faz tattoo e piercing na feira, que ocorre em algumas ocasiões durante o ano, na rua Lopo Gonçalves. 

A palavra tatuagem vem do termo polinésio “tatau” ou “tatatau” (que significa bater ou marcar) – Crédito: Rafael Rosa

O que é tatuagem 

Conforme conta Xixo, a tatuagem é feita através da introdução de pigmentos ou tintas na camada subcutânea (derme) da pele por meio de agulhas ou instrumentos perfurantes, criando desenhos, símbolos ou marcas visíveis. A prática deste artifício é muito antiga. Há registros de tatuagens em múmias antigas, como o Homem de Gelo (Ötzi), que viveu por volta de 3250 a.C., datadas entre 3351 e 3017 a.C..

A palavra vem do termo polinésio “tatau” ou “tatatau” (que significa bater ou marcar), popularizado no Ocidente pelo navegador britânico Capitão James Cook em 1769. Inicialmente ligada a ritos de passagem, proteção espiritual, status social ou identificação de grupos em diversas culturas, como os vikings da Suécia, Noruega e Finlândia, a prática foi proibida ou desencorajada por várias religiões e instituições ao longo da Idade Média na Europa. Na era moderna foi reintroduzida por marinheiros no século 19. Em 1891, Samuel O’Reilly inventou a primeira máquina de tatuar elétrica, impulsionando sua popularização global como forma de arte e expressão pessoal.

A tatuagem serve para contar histórias pessoais, homenagear pessoas, marcar momentos importantes ou refletir a personalidade de quem a usa. Ou elementos de simples decoração corporal. Algumas tatuagens são usadas para identificar condições de saúde, alergias ou tipos sanguíneos em situações de emergência, além de fins terapêuticos ou estéticos (como a reconstrução de aréolas mamárias).

Estilos e tipos de tatuagem

Cada tatuagem, segundo a Inteligência Artificial (IA), tem características visuais, traços e histórias próprias. Confira as principais:

  • Old School (Tradicional): Inspirado no visual clássico dos marinheiros e motociclistas dos EUA (anos 1950), com traços grossos, cores primárias vivas e temas como âncoras, pin-ups e corações. 
  • Realismo: Focado em reproduzir imagens reais com fidelidade fotográfica (rostos, animais e paisagens), rico em sombras e detalhes. 
  • Fine Line (Traço Fino) / Minimalista: Usa linhas delicadas, precisas e sutis com o conceito de “menos é mais”, sendo muito procurado por sua discrição. 
  • Blackwork: Utiliza apenas tinta preta sólida, cobrindo áreas grandes ou criando designs geométricos e tribais marcantes.
  • Aquarela (Watercolor): Imita o efeito de uma pintura fluida com cores suaves, manchas e ausência de contornos rígidos. 
  • Pontilhismo (Dotwork): A imagem é construída por milhares de pontos minúsculos que criam texturas, sombras e profundidade. 
  • Oriental (Irezumi): Grandes composições corporais que trazem elementos da cultura japonesa, como samurais, carpas, gueixas e dragões.
  • Maori / Tribal: Desenhos de origem cultural com curvas pretas sólidas, padrões geométricos e forte valor simbólico.
  • Neo Traditional: Uma evolução do Old School, mantendo cores vibrantes e traços marcantes, mas com maior liberdade de volume, sombreamento e riqueza de detalhes. 
  • Single Line (Linha Única): Figuras criadas a partir de um único traço contínuo que não tira a agulha da pele.

O que é Piercing

Todo mundo sabe o que é piercing, mas veja aqui como é a definição dada por Denise, que trabalha com Xixo. “É uma mudança corporal feita através da perfuração da pele ou de cartilagens para a introdução de uma joia ou adorno metálico. A palavra vem do inglês “piercing”, que significa literalmente perfuração.” Denise tem muitos piercings e seus clientes gostam muito do seu trabalho altamente técnico e correto. Durante visita do Brasil de Fato, uma jovem de uns 20 anos estava por ali fazendo um piercing perto do nariz. “Meus pais não se opõem e até estão aderindo ao que faço aqui – tatuagens e piercings”, disse ela.

Os povos antigos como maias, astecas, egípcios, romanos e indianos já utilizavam adornos perfurados para indicar status social, hierarquia, ritos de passagem, proteção espiritual ou vaidade, assim como as tatuagens. Cada região do corpo historicamente ganhou simbolismos próprios (como o nariz associado ao casamento ou maturidade na Índia, ou o lóbulo ligado a status e riqueza).

O piercing ressurgiu como um símbolo de rebeldia, contracultura, estilo pessoal e livre expressão do corpo – Crédito: Rafael Rosa

A partir do século 20, especialmente com o movimento punk e as décadas de 1980 e 1990, o piercing ressurgiu como um símbolo de rebeldia, contracultura, estilo pessoal e livre expressão do corpo. Hoje, também é amplamente adotado como um acessório puramente estético. 

No Studio, os cuidados para não ocorrerem infecções são gigantes, alerta Denise. A preferência é por metais biocompatíveis como titânio ou teflon, que reduzem o risco de alergias e rejeição. O uso de ouro é frequentemente desaconselhado para o período inicial de cicatrização. A cicatrização varia bastante conforme o local do corpo: algumas semanas quando o piercing é feito no lóbulo até mais de um ano na cartilagem ou umbigo e exige higienização adequada com soro fisiológico e sabonete neutro.

Editado por: Vivian Virissimo

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