Meu sobrinho, do alto dos seus 9 anos de idade, fez um cartaz para levar a um ato da campanha de Lula de 2026, em Esteio, RS, que dizia: “Vote para que a escola pública não seja vendida! Vote 13 Lula” Ao lado, em dizeres menores, ele listava 5 ou 6 escolas públicas que ele conhecia, ou que já estudou, que poderiam deixar de existir se Lula não fosse eleito. Eu me emocionei, porque o conheço. Sei que aquelas palavras passaram pelo seu coração sincero de menino sensível. Ele é crítico à escola pública em que estuda, mesmo assim consegue entender que é um direito importante, e que pode ser melhor do que é. No turno integral, as crianças passam o dia inteiro, em regra, fechadas em uma sala, com uma única professora. Ele já compreende como essa dinâmica é inviável.
Por outro lado, essa dinâmica oportuniza pesquisas históricas profundas, como a que recentemente levou a uma feira regional de ciências, sobre história, memória e identidade. É um raciocínio complexo, que muitos adultos que conheço não alcançam. E é um raciocínio, antes de tudo, produzido por ele dentro dessa vivência de criança pobre, de estudante, incentivado, é claro, pela sua mãe, mas autoral, e profundamente honesto. É uma de suas pautas. Já minha sobrinha, do alto dos seus 6 anos, escreveu com a sua letra um cartaz que dizia: “Vote para que eu cresça sem medo e com direitos”. Algo nesse cartaz rompeu em mim um imobilismo e me move a escrever agora.
Noutro cantinho do Brasil, uma cena me afetou de forma inversamente proporcional. Trabalho na cidade de Governador Valadares, talvez uma das mais reacionárias de Minas Gerais, também conhecida como Valadólares, ou o maior pólo de emigração de brasileiros para os EUA, do Brasil. Num ato de entrega formal em favor de pessoas atingidas pelo rompimento criminoso da barragem de Mariana, de projetos mediados pela Fundação Banco do Brasil, que aconteceu numa escola privada dessa cidade, houve um pequeno porém memorável surto protofascista. A entrega ocorreu durante a campanha do segundo turno das eleições presidenciais, por acaso.
Era um ato módico, com controle de público, não houve mobilização, mas o contrário. O evento era restrito às pessoas contempladas, e havia segurança reforçada, até porque estavam presentes representantes do alto escalão do governo federal. Entre as pessoas atingidas presentes no evento, que aconteceu no auditório da escola que tem acesso direto pela rua, havia muitas pessoas negras, algumas ligadas a movimentos sociais. Reproduzo abaixo falas literais que coletei em espaços “públicos”:
“a escola cedeu o auditório para uma premiação lá, não sei quem lá que tá vinculado a esse povo da esquerda, entendeu?”(…)
eles cederam o auditório pra essa galera do mst, esquerdista e tudo mais, não vou nem falar mais, por causa de uma assinatura da barragem de Mariana, e aí nossos alunos ficam sem segurança dentro da escola, (…) um bando de desocupado, um perigo. Alunos lá agora nesse momento na escola, eles entram (…), não tem detector de metais. Pode entrar a porcaria dum povo desse armado dentro da escola, com faca, fazer algum aluno refém, sei lá gente, eu penso no pior, eles entraram na escola! (…)
“que vergonha uma escola católica aceitar comunistas realizarem evento na semana eleitoral! (…)
“que vergonha para o colégio permitir este tipo de evento ideológico partidário de esquerda. Os valores dos cristãos são antítese ao que essa gente dissemina… é preciso ter discernimento espiritual” (…) “estão recebendo aí no colégio terroristas do MST?” (transcrições literais de comentários de pessoas adultas, publicados no instagram, e de áudios que circularam na minha rede, pelo whats app)
Nada de muito diferente do que se falou em todo o país, em distintas realidades. Mas registro na busca da substância de uma sensação estranha, talvez fermentada num lugar muito específico; no encontro de aspectos da conjuntura com lapsos da vivência de estudante de escola pública, de universidade pública, mas que circunstancialmente passou por colégio particular na bruta condição de bolsista, e que esteve depois numa universidade privada de elite, na controversa condição de prounista, de passagem.
Por ter primos que estudaram em bons colégios particulares, convivi, quando tinha a idade do meu sobrinho, com crianças de uma elite decadente (o mais correto seria dizer de classe média), que experienciaram a drástica desvalorização do real operada em 1999. Meus primos eram “ricos” mas eram decentes. Tinham, porém, colegas e vizinhos que eram escandalosamente vis. Talvez a ausência dos pais já reverberasse em transtornos de conduta nos filhos, impúberes delinquentes mimados que andavam em motonetas pelo condomínio fechado, sem capacete, sem habilitação ou mesmo idade para tanto.
Assombravam crianças pequenas e idosos claudicantes por puro prazer; zombavam de trabalhadoras domésticas negras e dos trabalhadores da segurança, que os protegiam, acima de tudo. Minha mãe fazia faxina, ou trabalhava como fiambreira na Walmart, em outra cidade, por menos de R$100,00 por mês. Meu pai nos havia abandonado, de modo que essas eram nossas oportunidades de férias, praia, piscina, essas coisas. Éramos crianças pardas mal vestidas, dignas de pena, naquele meio branco, rico e bizarro.
Em 2026, o breve e profundo manifesto de meus sobrinhos, em defesa da escola pública, contra a sua privatização, e pelo direito de crescer sem medo e com direitos, ganha profundidade em mim. Desperta memórias fortes, sobre nosso percurso escolar e familiar, até eles chegarem, com suas existências tão imensas quanto recentes.
Associadas a esse momento eleitoral, a essas cenas relatadas, passou de novo pelo meu coração a sensação fria de me sentir vulnerável ou pisoteável diante daqueles playboys sem limite. O medo visceral que a impunidade produz, e que regia esses recintos privados que frequentei como bolsista, como filha da empregada, onde crianças ricas crescem aprendendo que a lei que vale é a lei do papai. E, principalmente, a sensação que nos fica dessa experiência de sermos as crianças vulneráveis, expostas, humilhadas, numa fase da vida onde temos pouquíssimos recursos de defesa.
Casos cotidianos de violência racista, gordofóbica, misógina, homofóbica que presenciei nos poucos anos que estudei nesses espaços, onde sempre estivemos à margem, nas bordas de um constrangimento por sermos quem éramos, à beira de uma humilhação, sem refúgio. Crescendo junto com uma tensão no peito, que refletia na minha corcunda progressiva. Me recordo de ter uma única professora negra na escola particular, onde, além de bolsista, eu era a adolescente mais escura. Ela lecionava geografia. Eu a amava, porque se parecia com pessoas da minha família na sua estética e nos seus olhares. Nos apresentou Milton Santos na oitava série, e me arrebatou. Porém, para ser sincera, ela é lembrada por meus sentidos também noutro lugar.
Ainda me retorna a repulsa de a ver sendo conivente e sistematicamente humilhada por um colega meu, loiro de olhos azuis, que chegava num carro chique, que usava tênis caros, que abusava de meninas, e que era, por sua vez, protegido pela direção. Ninguém podia com ele. Era ovacionado pela maioria. Essa professora não reagia, ou perderia seu bom emprego. Eu e 5 ou 6 colegas formávamos um pequeno e acuado dissenso. Éramos da Pastoral, tínhamos boas referências. Foi, aliás, nesse ambiente das Pastorais, anos depois, que aprendi a ter dignidade, repertório e coluna ereta para nos defender.
Flávio Bolsonaro foi também esse tipo loiro e prepotente de estudante, como registram relatos recentes de colegas de escola e de faculdade que pipocaram nessas eleições na nossa timeline. Lembraram dele protagonizando situações de humilhação, intimidação, bullying, posturas preconceituosas, privilégios pagos, envolvimento com gangues, episódios de arrogância em função do cargo que o pai ocupava, tudo com a proteção irrestrita dos pais, desde a infância.
Registrei essa breve conexão porque venho sentindo, pensando, intuindo, há alguns dias, que a educação virou o cerne da luta política no Brasil, seja pela disputa de narrativas, pela noção de verdade, de ciência, pelas realidades paralelas que coexistem, pela possibilidade de se constituir fios ou mapas que nos conectem aos fatos, aos dados, aos contextos; seja pelo conteúdo de lógica formal ou simbólica que falta aos bolsonaristas, acríticos sujeitos reprodutores de notícias ou versões sem substrato ou lastro em fatos concretos; seja pela perspectiva dos modelos em disputa, grosso modo: o modelo privado, sinônimo disso que relatei acima – um império de playboys racistas, o contrário da ética, o predomínio da meritocracia e dos privilégios excludentes, da violência respaldada, sem limites; versus o modelo público, ainda frágil, que paga mal às professoras e servidoras, mas que constitui uma revolução se considerado o acesso universal ao ensino básico e crescente no caso do ensino superior, em perspectiva histórica.
Aqui poderíamos render mais. Temos o desafio e as condições de revolucionar a educação em nosso país, e confrontar os seus contrários que Flávio representa, e é agora. Meu sobrinho, ao defender que o ensino seja público, defende mais do que gratuidade, e representa uma dimensão essencial da democracia que Lula, que acumula mais de 40 títulos de doutor honoris causa, ensina ao Brasil: a ideia fundamental de que todo mundo tem (o mesmo) valor, que todo mundo merece respeito, todos e todas têm o direito de estudar e de viver num ambiente seguro e diverso. Minha sobrinha vai além, e afirma o nosso direito conquistado de sermos quem somos, de nos tornarmos quem quisermos ser.
Do lado de fora de qualquer raciocínio lógico, enclausurados, usando viseiras, estão esses pais bolsonaristas, a defender mais do que o ensino privado como componente de um projeto de sociedade meritocrática; estão a defender um tipo de escola que não considere a própria realidade, composta por pessoas atingidas, negras, trabalhadoras rurais, sem-terra, indígenas, quilombolas, que possuem legados, histórias profundas, vidas inteiras de dedicação a esse país que hoje, enfim, se ergue. Esses pais defendem um projeto de escola que tenha o racismo e o ódio aos pobres como fundamento; não a ciência, não o enfrentamento às injustiças. Recordo de uma síntese de Hannah Arendt, filósofa alemã de origem judaica, nesse sentido: “o problema não é acreditar numa mentira; o problema é quando a verdade já não importa”.
É esse o tom da banalidade do mal, da crise da razão ou da ausência de pensamento (Thoughtlessness, para Arendt), que presenciamos em cada defesa de um miliciano confesso, envolvido com amplos e profundos esquemas de corrupção conectados a esquemas de tráfico de pessoas, evasão de divisas e de lavagem de dinheiro, ao cargo de presidente da república. Flávio Bolsonaro representa o mais vil dos playboys, seu ethos é uma reprodução desse comportamento de estudante de escola particular, educado pelo binômio humilhação & suborno, sem limites, malcriado por privilégios injustos, descendente de famílias escravocratas sanguinárias, que gozam ao infligir dor ao diferente, amalgamado às tradições nazi-fascistas da europa. Não à toa homenageiam insistentemente torturadores, rejeitam resultados eleitorais, investem milhões em estratégias escusas como táticas de manipulação e cibercrime com bots ou a própria influência direta e interessada da Meta. Não por acaso normalizam o crime hediondo da pedofilia, prática e discurso corriqueiro entre os seus.
Flávio foi exitoso em sublevar uma massa de playboys e patricinhas ressentidas, e assim tornar hegemônico na direita o modelo não apenas aceito, mas impulsionado por escolas privadas de elite submetidas à lógica da ameaça, do “eu pago, eu mando”; a lógica que meus sobrinhos, que vivem uma infância humilde e mais engajada do que a nossa, já estão combatendo ao defender conscientemente, nessa idade, a escola pública e os direitos de mulheres e de meninas.
Flávio sempre se comportou, ao longo de toda a sua trajetória, como o playboy que é; funcionário fantasma impune, quando eleito deputado roubava seus empregados, e os fazia pagar seus boletos com salário alheio, lembremos de Queirós – tal como os escravocratas tomavam na mão grande a produção de subsistência dos e das escravizadas. Agia no Estado, ocupando cargo público, sendo pago pelo povo, como se ainda estivesse dentro de uma escola particular, onde o papai pudesse ser acionado para assegurar seu privilégio, custe o que custar. Foi esse espírito mimado que o levou a concorrer ao cargo de presidente; esse espírito que o fez chegar hoje, em fuga, aos Estados Unidos e pedir ao amigo criminoso mais poderoso que possui, declarar um golpe a uma nação, apenas para o proteger da prisão.
Playboys, nessa perigosa combinação da falta de limites éticos com concentração de dinheiro e poder, capazes de emplacar uma verdadeira guerra, um derramamento de sangue inocente, para defender a própria pele do julgamento por crimes que efetivamente cometeu, e ainda se divertir assistindo num camarote ao extermínio alheio, não são mais apenas playboys, sejamos justas. São facínoras.
E existem outros tipos na história que se parecem mais a Flávio Bolsonaro do que José Martí, Charles de Gaulle ou Rui Barbosa, a quem ele se compara. Leopoldo Galtieri, que ordenou a ocupação das malvinas para ganhar tempo e permanecer no governo, Leopoldo II da Bélgica, um monarca hereditário que transformou o estado do congo em domínio pessoal, com trabalho escravo e violências extremas, ou o sobrinho de Napoleão que deu um golpe de estado e que ficou conhecido por promover intervenções militares e milhares de mortes para projetar a grandeza de sua família. Ou o Guilherme II da Alemanha, herdeiro da monarquia, que, para preservar a posição e a influência de sua família contribuiu com a crise que precedeu a primeira guerra mundial. Mais recentemente, Uday Hussein, filho do Saddam, que vivia em festas de luxo, extravagâncias e excessos violentos. A história tem, na realidade, inúmeros exemplares de tipos medíocres e fanfarrões, desde Nero e Alcibíades. Mas o que nos interessa é que todos ou foram presos, ou entraram para a história pela porta da vergonha.
É grave e é grandioso o que acontece no Brasil e no mundo nesse momento, e pouco me cabe nesse cenário, além de engrossar fileiras, ao lado de meus sobrinhos, e registrar umas coisas que me tomam. Mas gostaria de dirigir umas palavras para que dirigentes de escolas particulares desse Brasil percebam em que medida não estão contribuindo com a formação de criminosos de elite. Não me refiro a professoras/es, mas a quem tem algum poder diretivo-pedagógico nessas escolas. Fiquem atentas. Seu posicionamento, nessa quadra da história, não é sobre estar à esquerda ou à direita. Se trata de escolher se vão formar pessoas suscetíveis à adesão a milícias, ao crime organizado, capazes de assassinar gente para movimentarem bilhões às custas do povo e seguirem impunes. Crianças que hoje tem como exemplo alguém que comete crimes bárbaros e foge de suas responsabilidades legais. Podem decidir por serem coniventes com esse rumo, ou se vão punir o protofascismo que cresce nas suas salas de aula, e lhes dar alguma oportunidade de aprender sobre democracia e história do país, a partir das leis 10.639/2003 e 11.645/2008, além da própria LDB.
Num parágrafo final, dentre essas obviedades que escrevo apenas para me livrar de pensamentos que apertam minha mente e da lembrança de que, felizmente, graças a Lula e à nossa luta, tenho uma tese de doutorado para terminar, preciso dizer que nós, esses mais de 64 milhões de brasileiras/os que votamos em Lula, compomos, pelo menos, 5 gerações (20 anos) de estudantes universitárias/os pobres, pardos, pretas, de periferias imensas, indígenas, sem-terra, nordestinas, nortistas, quilombolas dos rincões do sul e dos cafundós dos norte, que acessaram e modificaram o ensino superior, produzindo algo que eu ousaria chamar de o que de melhor se produz em educação e em ciência nesse continente, quiçá no mundo.
Cada sujeito das mais de 15 milhões de pessoas que inundaram nossas avenidas, abertas pelos nossos pais peões e avós analfabetas, passaram direta ou indiretamente pelo ensino público de qualidade – e mais do que passar por ele, o transformaram. Estamos fazendo ciência aplicada, amalgamando saberes populares profundos com ciência de ponta. Esse é o legado brasileiro para o acúmulo social de saber do mundo, em 2026. E isso significa mais do que a quantidade histórica que conformamos; se trata de uma massa qualitativa, pensante, criativa, crítica, questionadora, que se relaciona com o seu povo no campo dos saberes e dos afetos, imparável.
Quem defendeu Lula nessas eleições tinha mais do que paixão ou ressentimento, tinha informação, consciência crítica, autonomia de pensamento, amor pelos seus, compromisso com um país democrático, no sentido substantivo da palavra. Essa juventude que sustentou a luta pela democracia, ao lado das mulheres, dos negros e negras, da classe trabalhadora, da comunidade LGBTQIAPN+, é uma juventude que abre caminho para que a geração dos meus sobrinhos chegue dizendo a que veio. Meus sobrinhos e seus colegas estão chegando para sustentar essa transformação. O petismo ou o lulismo não será apenas uma brecha na nossa história de autoritarismos. Já temos raízes e alcançamos um ponto de não retorno. A base, depois de 20 anos de investimento em educação pública de qualidade, agora sim, vem forte.
*Tábata Silveira dos Santos é doutoranda em sociologia e em desenvolvimento rural na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).

