Uma menina sai de casa para comprar pão e, pelo caminho, encontra histórias de um rio que não conheceu antes da lama. É por esse olhar que o curta-metragem “Filha do Rio”, dirigido por André Luis Garcia, aborda os impactos do rompimento da barragem de Fundão, em Mariana (MG). Com 19 minutos, o filme será exibido nesta sexta-feira (6), na 3ª Mostra Rexistentes Socioambiental da Lagoa do Paraíso, no Ceará.
A sessão integra a circulação do filme por festivais brasileiros e internacionais, entre eles o Ojo al Sancocho, em Bogotá, na Colômbia; o Kolibrí, em La Paz, na Bolívia; e a Mostra do Filme Marginal, no Rio de Janeiro.
A exibição ocorre um dia depois do crime completar 11 anos. Em 5 de novembro de 2015, a barragem da Samarco, controlada pela Vale e pela BHP, rompeu-se, matou 19 pessoas e lançou rejeitos de mineração que atingiram a bacia do rio Doce e chegaram ao litoral do Espírito Santo. A destruição comprometeu moradias, atividades de trabalho e os modos de vida das populações atingidas.
O filme acompanha Leidiane, menina de 10 anos nascida no ano do rompimento, que desconhece práticas que fizeram parte da vida de gerações anteriores. Filmada na cidade de Rio Doce, a obra foi produzida pela AREPA e pelo Centro Rosa Fortini, a partir de um edital do centro sobre essa primeira década.
Entre a ficção e o documentário, o roteiro se abriu às experiências e à criação dos moradores atingidos, que interpretam os personagens. Sem diálogos previamente escritos, falas, ações e situações ganharam forma nas filmagens.
Em entrevista ao Brasil de Fato, Garcia critica os danos persistentes. “Infelizmente, é dano que não acaba mais. E ainda tem gente no Brasil que pensa que a Vale já ‘resolveu’ tudo nesse caso… Vai vendo”, afirma. Sobre a linguagem do filme, observa: “A crítica social está por tudo, tanto naquilo que se vê objetivamente na imagem, quanto naquilo que não se vê”.
Com direção e roteiro de Garcia, o curta tem fotografia e finalização de Gabriel Honzik, montagem de Moraga e trilha original, desenho e mixagem de som de Gustavo Foppa. O elenco reúne Leidiane Neves, Juliano Conegundes, Terezinha Severina de Souza e Silvio Neves. A AREPA assina a distribuição.
A produtora também desenvolve “Lembra Quando Aurora”, documentário híbrido de Honzik sobre a pesca cooperativa entre botos e humanos na barra do Imbé, no litoral gaúcho, e distribui “Elefantes Podem Dançar”, curta documental de Garcia. Entre os longas de ficção em desenvolvimento estão “Que Deus Te Guie Porque Eu Não Posso Guiar”, de Garcia, e “Seu Coração Grande, Meu Coração Pequeno”, de Honzik.

Garcia é cineasta com atuação no cinema documental e de arquivo, marcada pela linguagem sensorial e pela exploração da memória e de narrativas periféricas ou esquecidas. Dirigiu “Itatira”, premiado por edição de som no Cine PE de 2025, e é roteirista de “Cidades Fantasmas”, melhor filme brasileiro no É Tudo Verdade de 2017, e de “Anhangabaú”, melhor longa documental no Festival de Gramado de 2023. Também é roteirista de “Geografia Afetiva” (2024).
Confira a entrevista completa:
Brasil de Fato — “Filha do Rio” fala dos dez anos do rompimento sem fazer uma reconstituição tradicional. Como foi essa opção de contar essa história pelo olhar de uma menina que nasceu praticamente junto com o desastre e não conheceu o rio Doce de antes?
André Luis Garcia — Assim que fomos contemplados pelo edital do Centro Rosa Fortini para produção de um curta sobre os dez anos do rompimento, a primeira coisa que veio à cabeça foi: como abordar uma temática já bastante explorada em documentários, séries e reportagens, de forma disruptiva? Queríamos fugir o máximo possível de um certo lugar-comum, se é que isso de fato existe, mas enfim. Precisávamos de uma ideia nova, fresca, de algum ponto de vista que ainda não tivesse sido tão explorado.
Com esses filtros em mente, deixamos alguns dias fluírem com espírito aberto para receber ideias. Um ou dois dias depois, surge a ideia de fazer pelo ponto de vista de uma criança de dez anos, que nasceu exatamente no ano do rompimento, e não carrega o passado da identidade cultural do território. Muitas vezes é justamente esse passado que gera pertencimento e impulsiona modos de vida ao longo de várias gerações em certos territórios, assim como em Rio Doce. O rompimento criminoso da barragem da Samarco/Vale devassou práticas e culturas ancestrais que aconteciam na região há mais de 400 anos, como a pesca e a faiscação de ouro, ambas reconhecidas como culturas tradicionais brasileiras.
O rompimento acabou com tudo. Mesmo pessoas que não eram, por exemplo, pescadoras ou faiscadoras profissionais, poderiam fazer este trabalho quando e onde quisessem ao longo do leito do rio, podendo assim prover não só o alimento, no caso do peixe, como também a própria subsistência econômica das famílias no comércio artesanal do peixe e do ouro faiscado.
Tudo isso em relação ao trabalho, sem citar todos os demais ataques que englobam praticamente todos os setores da vida cotidiana das populações atingidas até hoje. Moradia, saúde (física e mental), alimentação, poluição do ar, da água, do solo, e tantas outras. Infelizmente, é dano que não acaba mais. E ainda tem gente no Brasil que pensa que a Vale já “resolveu” tudo nesse caso… Vai vendo.
O filme mostra a pesca e outras atividades que faziam parte da vida da comunidade. Era importante mostrar que a perda foi também de um modo de vida e de uma relação com o território?
Exatamente. Ao longo das filmagens nossa proposta de roteiro foi se encontrando com o real de forma meio absurda, pelo menos pelo meu ponto de vista não habitante de Rio Doce. Leidiane, a protagonista, realmente nunca tinha visto uma tarrafa na vida. Por mais que tivesse proposto isso no roteiro, não pensei que seria verdade. Não numa região que se manteve ao longo de muitos anos no labor da pesca. Quando ela pergunta “o que é isso, o que o senhor tá fazendo?” para o pescador Juliano, ela realmente não sabia o que era.
“O rompimento acabou com tudo”
Fiquei ainda mais espantado quando Juliano comentou que não pode andar pela rua com a tarrafa nas costas, nem estendê-la à frente de casa, por exemplo. Se isso acontecer, ele será multado e fichado na polícia. Durante as filmagens, por uma ou duas vezes precisamos parar as tomadas para explicar a policiais o que estávamos fazendo. Não foram atraques de fato, mais tirada de satisfações. De qualquer forma, é um absurdo. O “sistema” rompe a barragem de forma criminosa, polui o rio pelos próximos 300 anos, e o próprio “sistema” prende o pescador que sempre esteve ali sustentando sua família.
Na essência do ato, vai além de uma simples perda de modos de vida, que por si já seria dura. É um ataque institucionalizado, sistemático e omnidirecional a práticas culturais ancestrais, que além de atuar no apagamento e na invisibilização histórica, promove ao mesmo tempo uma espécie de punição criminal da memória. Por isso tão importante a cena onde o pescador não só segura a tarrafa, como também a tece. Ele a cria, com seu próprio conhecimento e as próprias mãos. Imerso em todo este contexto, Juliano é apresentado no filme durante o ato de enredar uma nova tarrafa. Uma afronta.
A crítica social aparece de forma muito sutil, pela curiosidade da menina e pelas histórias que ela encontra. Como vocês chegaram a esse tom tão sensível para tratar de uma tragédia dessa dimensão?
De fato não é difícil encontrar essa sensibilidade, porque são tantos ataques, por tantos lados, que só precisamos estar abertos ao mundo, e enxergar os elementos que ele próprio evidencia ao nosso olhar e à percepção. Só precisamos estar atentos. E é justamente essa sensibilidade ativa que propicia certos detalhes. Por exemplo, na cena de abertura do filme, assim que a câmera sai do quarto de Leidiane, encontra um caniço para pesca encostado na parede. O caniço não estava ali, mas em algum lugar da casa de Seu Silvio. O pegamos de onde estava, e colocamos em cena. A esta altura, primeiros segundos do filme, ainda é um detalhe. Mas um detalhe que ao longo do desenrolar da narrativa vai fazendo cada vez mais sentido.
A mesma coisa com a foto, que vemos estampada na parede alguns segundos depois. Leidiane assopra velas num bolo de aniversário, comemora seus dez anos de idade. Ao longo de sua jornada, essa contagem de dez, assim como o caniço, aprofundam camadas que transmutam, aos poucos, suas funções originais, agregando novos sentidos que encorpam o enredo.
A crítica social está por tudo, tanto naquilo que se vê objetivamente na imagem, quanto naquilo que não se vê. O subtexto imaterial e abstrato emerge das conexões que vão se formando também por meio dos detalhes.

Os personagens são interpretados por moradores atingidos pelo rompimento. Como foi construir o filme com pessoas que viveram essa realidade e trabalhar direção, fotografia e atuação para manter esse tom tão natural?
Tenho alguma experiência prévia de trabalhos junto a comunidades atingidas pelo rompimento de barragens. Desde 2021 desenvolvo trabalhos sociais e artísticos, agregando experiências e vivências em municípios e comunidades ao longo da bacia do rio Doce. Por motivos diversos dessa vida, acaba que conheço tanto a nascente do próprio rio (justamente no local exato da cena da pesca de “Filha do Rio”), quanto sua cabeceira lá em Colatina, quase na foz em Linhares. De forma que ao chegar eu não era, nem de longe, um estranho nesse ambiente. Pelo contrário.
Pelas oportunidades de experiências agregadas, o roteiro que criei em casa acaba incrivelmente parecido ao resultado final do filme, se fizermos uma comparação. Então essa conexão não começa por acaso. E isso é um ponto fundamental desse processo. Confiança política e acúmulo histórico dificilmente se conquistam de um dia para o outro.
Partindo desses princípios, tivemos sempre uma relação muito natural e transparente com todas as pessoas envolvidas. Na reconhecida hospitalidade mineira, tomamos muitos cafés, comemos diferentes queijos, doces de leite e ótimas rapaduras. Parece clichê, mas é verdade. Povo de muita luta, caráter, e história que tanto admiro. E culinária também.
No geral foi um processo bastante natural. Mesmo em frente às câmeras, a naturalidade de todos, especialmente da menina Leidiane, sempre me foi impressionante. Nunca deixei de ficar espantado. Leidiane ganhou a câmera desde o primeiro plano. A partir do segundo take, já respondia naturalmente às orientações de “ação”, “corta”, e o que mais fosse solicitado. Ao longo do processo, quanto mais se soltava, mais ganhava o filme, criando ações, trejeitos, inventando diálogos.
“Leidiane, a protagonista, realmente nunca tinha visto uma tarrafa na vida”
É a responsável pela escolha de seu próprio figurino. Criadora da fala “Se não tivesse acontecido o rompimento, eu podia ir no rio com o senhor?”, que fecha vários pontos ao final da trama. Possui talentos natos, flui como um rio. É a própria Filha do Rio.
Outra cena muito importante para o enredo também surgiu pela sensibilidade ativa dos próprios atores. Leidiane e Juliano sentados na beira da nascente do rio alimentando peixes que morreram, do rio que morreu, com migalhas do pão que a motiva a sair de casa e disparar o filme, porque seu pai pediu. A vida é um mistério bonito.
No final, a menina se aproxima da gaita do pai e de uma história que ela não viveu. O filme também fala sobre memória, pertencimento e sobre o que ainda pode ser passado de uma geração para outra?
Exatamente. Após toda essa jornada de autoconhecimento no sentido do pertencimento, do reconhecimento da identidade cultural de seu próprio território, ela retorna pra casa e percebe a cultura através dos elementos do pai músico. A gaita, o pandeiro, e o chapéu do Congado, símbolo da manifestação cultural e religiosa de origem afro-brasileira, a levam a buscar uma reconexão com este passado das ancestralidades simbólicas.
Uma coisa que talvez passe batido, talvez não, é uma leve crítica às tecnologias e à lógica contemporânea da internet e das redes, que opera como subtexto no pano de fundo. A menina abre o filme com um celular na mão. Passa por toda uma jornada de autoconhecimento e retomada da identidade territorial. Termina o filme com uma sanfona, na mesma mão. É sutil. Mas fica uma crítica aí.

