mais veneno

Mais de 2 mil crianças foram intoxicadas por agrotóxicos no Brasil em 2025, aponta relatório

Estudo denuncia pulverização em quatro cultivos agrícolas inclusive sobre escolas rurais e cobra veto à aplicação aérea

Brasil é o maior consumidor de agrotóxicos do mundo. | Crédito: Marcelo Camargo/Agência Brasil
Brasil é o maior consumidor de agrotóxicos do mundo | Crédito: Marcelo Camargo/Agência Brasil

O Brasil registrou 2.068 notificações de intoxicação por agrotóxicos entre crianças de até 14 anos em 2025. Desse total, 1.032 envolveram bebês e crianças de até 4 anos. Os números fazem parte do relatório Exposição Silenciosa: Os impactos dos agrotóxicos na saúde e nos direitos das crianças no Brasil, produzido pela Rede Social de Justiça e Direitos Humanos, que será lançado nesta quinta-feira (5).

Segundo dados do Ministério da Saúde reunidos pelo estudo, foram registradas 11.714 notificações de intoxicação por agrotóxicos no país em 2025, o maior número desde 2010. O documento alerta que as estatísticas oficiais não representam a dimensão total do problema, devido à subnotificação e às dificuldades de diagnóstico, especialmente dos efeitos da exposição prolongada.

O relatório foi elaborado pelas pesquisadoras Teresa Paris e Maria Luisa Mendonça, com base na revisão de estudos científicos, relatórios técnicos, dados oficiais, legislação e entrevistas com comunidades rurais do Cerrado.

A pesquisa compila estudos científicos que associam a exposição infantil aos agrotóxicos a alterações no desenvolvimento neurológico, distúrbios hormonais, malformações congênitas, problemas respiratórios e aumento do risco de determinados tipos de câncer, especialmente leucemias. As crianças são consideradas particularmente vulneráveis porque seus órgãos e sistemas ainda estão em desenvolvimento.

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Além da contaminação por alimentos e água, a exposição pode ocorrer durante a gestação, pela amamentação e pelo contato com o solo e o ar contaminados. O relatório também destaca os riscos enfrentados por crianças que vivem próximas a grandes plantações ou acompanham familiares no trabalho agrícola.

O estudo chama atenção para a concentração do uso de agrotóxicos em quatro culturas: soja, cana-de-açúcar, milho e algodão. Juntas, elas respondem por 83% dos agrotóxicos comercializados no Brasil, segundo dados do Atlas dos Agrotóxicos, publicado em 2024 pela Fundação Heinrich Böll. Apenas a soja concentra mais da metade do volume consumido no país, conforme os dados utilizados pelo levantamento.

A expansão desses monocultivos, especialmente em regiões do Cerrado, amplia os riscos de contaminação de comunidades camponesas, indígenas e quilombolas. O relatório reúne denúncias de pulverização de agrotóxicos sobre territórios e escolas rurais, incluindo casos em Goiás, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e Pará.

Em Belterra (PA), por exemplo, alunos e funcionários da Escola Vitalina Motta apresentaram sintomas de intoxicação após episódios de pulverização aérea em 2024. O documento também recupera dados da Comissão Pastoral da Terra (CPT), que registrou 276 ocorrências de contaminação por agrotóxicos em conflitos no campo naquele ano, atingindo 17.027 famílias.

A contaminação dos alimentos é outra preocupação. O relatório cita dados de 2023 da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), que encontrou resíduos de agrotóxicos em 63% das 3.294 amostras de alimentos vegetais analisadas. Desse total, 26,1% apresentaram irregularidades, como substâncias não autorizadas para determinada cultura ou resíduos acima dos limites permitidos.

Relatório cobra proibição da pulverização aérea e restrições à exportação de agrotóxicos

Entre as principais recomendações ao governo brasileiro está a proibição da pulverização aérea de agrotóxicos em todo o território nacional, inclusive por drones. O relatório destaca que o Ceará é o único estado que proíbe a prática por aeronaves tripuladas em todo o seu território, enquanto a utilização de drones permanece autorizada, sujeita à regulamentação federal.

A organização também defende a criação de zonas de proteção ao redor de escolas, moradias, unidades de saúde, comunidades rurais e fontes de abastecimento de água. Outras propostas incluem o fortalecimento da fiscalização, o banimento de substâncias perigosas para crianças e gestantes e a ampliação dos incentivos à agroecologia e à produção de alimentos saudáveis pela agricultura familiar.

No âmbito internacional, o relatório cobra mudanças na legislação da União Europeia, que proíbe o uso de determinados agrotóxicos em seu território, mas permite que empresas produzam e exportem essas substâncias para outros países, incluindo o Brasil.

A pesquisa recomenda que o bloco europeu cumpra o compromisso assumido em 2020 de impedir a produção para exportação de substâncias perigosas proibidas em seu território. Também propõe restrições à importação de alimentos que contenham resíduos desses produtos e medidas de apoio à transição para sistemas agrícolas menos dependentes de insumos químicos.

Editado por: Gia Matheus Almeida

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